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Reformar sim, mas primeiro por dentro

A pouco mais de um ano das eleições e com o ambiente político a subir de temperatura, João Lourenço, à frente do MPLA desde Agosto de 2017, enfrenta um declínio de popularidade que, atingindo em cheio o seu partido, ameaça tomar as mesmas proporções geradas, a partir de 2015, pela trajectória descendente de José Mourinho…

Este é, agora, o grande desafio que, em plena pré-campanha eleitoral, se coloca à sua liderança no MPLA e, consequentemente, ao seu futuro como Presidente da República. Podendo não estar em causa as vantagens que transporta para ser reeleito, João Lourenço está perante um desafio que ganha contornos diferenciadores depois de, em 2017, ter inaugurado um encorajador processo de democratização política, de abertura à pluralidade na comunicação social pública e de moralização ética do Estado.

Com este desafio, João Lourenço abriu espaço para o resgate de esperanças perdidas, deu início à reabilitação de princípios que haviam sido trocados por interesses esconsos e parecia anunciar o fim do império do desvario governativo, que, por aqui, havia capturado os últimos anos do reinado do seu antecessor.

Com este desafio em curso, a João Lourenço foi estendida a passadeira vermelha e, em torno da sua liderança e de novas ideias, parecia renascer uma aurora política rejuvenescida e capaz de ajudar a instaurar uma nova ordem económica. Prometendo encetar também uma profunda reforma do Estado e conferir uma nova dimensão política e moral ao combate à corrupção, as expectativas eram, por todas estas razões, justificadamente altas.

As sementes da liberdade foram lançadas e a botija aparentava estar cheia de gás. Com o andar do tempo, porém, foi perdendo intensidade. E agora, passado três anos, se não for novamente atestada, podemos vir a estar diante de um “Titanic” que, insistindo numa navegação à vista, depois de ignorar sucessivos avisos, pode estar a afundar lentamente, podendo vir a provocar um naufrágio de dimensões políticas imprevisíveis…

Qualquer semelhança entre esta imagem e o percurso trilhado pelo MPLA desde 2008, já não é uma mera coincidência. Não, não é uma mera coincidência. É mesmo a realidade que o MPLA tem agora que enfrentar, submetendo-se, desde logo, a uma séria reflexão se ambiciona apresentar-se no próximo pleito à frente do pelotão eleitoral.

O olhar crítico que os cidadãos passaram a lançar sobre a governação, talvez o ajudasse a libertar-se internamente dos espinhos que se lhe atravessam hoje no caminho. Estes espinhos colocam o MPLA diante da curva mais apertada de sempre, sabendo que as eleições serão tudo menos favas contadas e que, sendo decididas em três a quatro grandes centros urbanos, não pode ignorar uma realidade sociológica que não para de sofrer surpreendentes mutações.

Do lado da oposição, há também uma mesma praga que a deforma e que faz com que os cidadãos confiram aos partidos cada vez menos crédito. Não passam de conglomerados de homens com reflexos mentalmente condicionados que, por razões materiais, não conseguem apresentar-se como seres livres e independentes.

São instrumentos dominados pelo culto da arrogância, da mediocridade, da mentira e da fraude intelectual, a que se junta o culto do medo dos Chefes, que não conseguindo impor-se como verdadeiros líderes, querem apresentar-se como se fossem omnipotentes e omnipresentes e, dentro da caserna, não são questionados por ninguém em voz alta.

Para defesa deste miserável ambiente político, receio que, em contrapartida, fora das fronteiras partidárias, de parte a parte, discutir, gritar e insultar venha a ser a tónica dominante na corrida às próximas eleições. Receio que, num tempo em que a UNITA já começou a mostrar o roncar dos motores e o MPLA prepara a sua máquina para a pôr em acção a alta velocidade, em vez de debates impere a conflitualidade política de baixa jaez e se confunda cada vez mais a árvore com a floresta…

Não tendo nada a perder, a UNITA vai jogar com todos os trunfos ao seu alcance para tentar desgastar e danificar ainda mais a imagem de quem governa. Vai tentar explorar ao máximo as debilidades governativas que estão a fazer aumentar o sentimento de insatisfação social por parte dos governados.

Vai jogar com os escândalos de corrupção que atingem algumas figuras do MPLA e tentar tirar partido das brechas que este processo está a abrir no seio do regime e da desconfiança que está a gerar entre a população.

Ao colocar de fora as suas garras, a UNITA que já transpira uma perigosa ilusão de vitória antecipada, como diria Pacheco Pereira, pode surgir ainda “mais agressiva na defesa do seu território” eleitoral “como é típico das tribos” partidárias.

Mas, com larga experiência acumulada e atento aos efeitos da sua crescente derrapagem, o MPLA, preparando- -se para enfrentar as adversidades que aí vêm, já começou a olear e a afinar a máquina e, para início de conversa, decidiu separar as águas em Luanda.

Era inevitável que assim fosse. Instalada a deriva na capital, ao nível do Governo provincial e da estrutura partidária do MPLA, quem estava à frente dos seus comandos já não conseguia dar conta do recado…

E perante a falta de vigor político e de clarividência na condução dos destinos dos luandenses, o MPLA não poderia manter-se de braços cruzados a ver o barco naufragar. No domínio da governação da capital, decidiu, no entanto, não mudar nada para tudo ficar na mesma.

Ninguém pode, por isso, ficar surpreendido que – perante a mais do que prevista vaga de chuvas que está a sacudir Luanda, o desalojamento de milhares de pessoas, o desmoronamento das suas débeis infra-estruturas de saneamento básico e a morte em vários lares – a governadora se tenha esquecido de absorver o princípio básico de que governar é prever…

E, muito menos sequer, ficar surpreendido que a governadora, diante deste quadro desolador, tenha decidido eleger como uma das suas principais missões – imaginem! – inaugurar um tanque de lavar a roupa. Sem dúvida uma obra prima digna de enriquecer o curriculum de qualquer governante!

A nível partidário, a inércia, a intriga e a luta de galos entre cabos eleitorais colocados à frente de alguns municípios chave, ao começar a abalar a popularidade do MPLA, estendeu o tapete vermelho à UNITA, proporcionando-lhe um ameaçador crescimento em várias áreas nevrálgicas de Luanda.

Não surpreende, por isso, que a liderança do MPLA tenha despertado e concluído que, do ponto de vista político, ao tornar-se incontrolável, a situação impunha que se fizesse uma nova escolha. Essa escolha recaiu em Bento Bento e já há muita gente a anestesiar de entusiasmo, ignorando que as tentações hegemónicas por si encarnadas no passado, não encontram hoje a mesma via verde de outrora.

E, ao ter sido repescado de uma embalagem há muito fora do prazo de validade, tenho dúvidas que esta antiga candeia volte a alumiar a estrada eleitoral do MPLA em Luanda. Oxalá me engane… Mais preocupante do que isso, é o facto da nova tentativa de relançar de Bento Bento, através da sua recolocação no mesmo cargo que já havia desempenhado noutro contexto político, coloca o MPLA perante um grande problema de fundo.

Então um partido que se orgulha de ter nas suas fileiras um milhão de militantes e que se apresenta como um partido de quadros não consegue, a cada novo ciclo político, gerar e promover novos líderes de audiência? Isso significa que, prisioneiro de um pensamento político arcaico e despido de referências ideológicas, o MPLA, ao rodopiar as suas acções em torno sempre das mesmas cabeças, não está a ser capaz de se renovar e de fazer brotar novos talentos e novos líderes.

Significa que, ao sucumbir ao clientelismo e à uma desastrosa política de casting, o MPLA arrisca-se a ser ultrapassado no tempo e a ser atropelado pelas novas dinâmicas sociais. Onde está, afinal, a marca gerada pelos jovens recém admitidos no Comité Central do MPLA e no seu Bureau Politico?

Quem são os novos quadros que o MPLA preparou para competir com Adriano Sapinhala, Mihaela Webba, Liberty Chiaka e outros? Alguma vez abriram a boca? Conhece-se uma ideia ou um pronunciamento? Ora, se o MPLA não consegue oxigenar a sua massa crítica com novos e mais interventivos cérebros, dificilmente promoverá a reforma interna.

Logo, João Lourenço não tem agora outra saída senão abrir as suas janelas para permitir a entrada de ar fresco, promover, sem freios, a cultura do debate e da divergência democrática e abraçar uma vasta reforma de todo o seu sistema de actuação política. Como? Começando, no plano ideológico, por definir claramente o que persegue.

Porquê? Porque o MPLA diz defender o socialismo democrático, mas não diz o que isto é. Pensa que deve ser capitalista a produzir, mas abraça práticas socialistas de distribuição. Acredita na iniciativa privada como locomotiva da economia, mas insiste em colocar o Estado como motor da sociedade.

Apresenta-se comprometido com a defesa da democracia interna, mas não consegue deixar de estar apaixonado pelo centralismo democrático. Sente-se embriagado com a existência de Comités de Especialidade, mas esquece-se que estes são uma nova fonte de clientelismo partidário.

Como diz um conhecido intelectual, o MPLA “tem que deixar de reproduzir na sua estrutura a orgânica do Estado e desalojar do funcionamento do seu secretariado o espírito de homologismo”. Não o conseguindo, sem o fim desta anacrónica arquitectura política, não haverá reforma democrática interna nenhuma. E sem essa reforma, não haverá nunca reforma do Estado.

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