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JIRO MARUHASHI, Embaixador do Japão: “O objectivo é a capacitação dos recursos humanos para a boa aplicação dos financiamentos”

São apenas 30 os japoneses que trabalham em Angola. Jiro Maruhashi explica que o objecto da cooperação com o ‘continente negro’ é a capacitação técnica para que os financiamentos sejam bem aplicados. O diplomata lamenta a deterioração da situação económica e social, em Angola, mas elogia o Governo por ter enfrentado a pandemia com o fecho de fronteiras e por causa da política fiscal, que cria incentivos.

Como qualifica as relações económicas entre os dois países?

Na verdade, Japão e Angola têm desfrutado de longa amizade. Este ano, foi assinalado o 45º ano das relações diplomáticas. Em 2019, precisamente, em Agosto, o Presidente João Lourenço visitou o Japão, pela primeira vez, para participar, como primeiro estadista angolano, na 7ª Conferência de desenvolvimento entre o Japão e África (Ticad, na sigla em inglês). No mesmo ano, o ministro dos Negócios Estrangeiros japonês veio visitar Angola. Desde então, as nossas relações bilaterais têm sido muito estreitas.

Há novos desenvolvimentos mesmo numa situação de pandemia?

Perante esta situação, verificamos um pequeno atraso em projectos quer institucionais quer privados. Mas Angola possui imenso potencial económico. Por exemplo, se não me engano, tem o quinto maior PIB da África subsaariana e é o segundo maior produtor de petróleo. Também se destaca em outros minerais como diamantes, além da agricultura e pescas.

São estes os sectores que interessam ao investidor nipónico? Interessam, porque Angola possui tantas potencialidades económicas, especialmente, no que tange aos recursos naturais. Logo, podemos estabelecer rela- ções complementares.

De igual modo, podemos estreitar a nossa cooperação comercial entre o sector privado, reforçando as relações ‘win-win’, ou seja, ganhos para ambas as partes.

Não importam as dificuldades no repatriamento de capitais?

No passado, algumas empresas japonesas que estavam a trabalhar em Angola enfrentavam algumas dificuldades. Por exemplo, no âmbito da execução do crédito e das transferências bancárias.

Então, alguns investidores japoneses têm estado hesitantes em empatar aqui o capital. Ou seja, o ambiente de negócios não é dos melhores… Diante desta situação difícil, acreditamos que as grandes reformas que vêm sendo feitas pelo Governo, nomeadamente a política fiscal, entre outros incentivos, contribuam para voltar a atrair os investidores quer sejam japoneses quer de outros países. O ambiente de negócios poderá melhorar porque, além disso, Angola é um país politicamente estável.

Como sabe, a paz e a estabilidade são indispensáveis para o desenvolvimento do país. E estabilidade económica?

Como já referi, a melhoria do sistema financeiro, a privatização de empresas públicas, o combate à corrupção são esforços que poderão contribuir para a melhoria da situação económica e social. No próximo ano, serão realizadas eleições e espero que isso venha a contribuir para a estabilidade política, económica e social.

Na cooperação com África, o Japão não está atrasado?

O Japão é um dos maiores doadores em relação a Angola. No âmbito da Ticad, procuramos trocar ideias para encontrar caminhos que melhor contribuam para o desenvolvimento do continente africano. Portanto, não nos interessa a concorrência. O mais importante é coordenar acções para fazer acontecer o desenvolvimento.

Pode dimensionar a presença de empresas japonesas no nosso mercado?

A maior presença é, sem dúvida, a Toyota que se dedica à comercialização de viaturas. Temos outra empresa, a Toyota Tsusho (também ligada à Toyota), que vai actuar na melhoria das infra-estruturas do Porto do Namibe.

Há ainda outra empresa, a Yokokawa, especializada que fornece equipamentos para o sector petrolífero. De um modo geral, a presença japonesa está não só no comércio, mas também na promoção do sector industrial. Aqui destacamos a indústria têxtil.

Qual é o volume de negócios entre os dois países?

Os dados confirmados indicam que, em 2019, as exportações de Angola para o Japão se cifraram em 62,7 milhões de dólares, ao passo que, no sentido inverso, as importações angolanas totalizaram 30,3 milhões de dólares.

No ano passado, devido à pandemia, bem como à redução do preço do petróleo, as importações japonesas estarão estabilizadas nos 30 milhões de dólares.

Como analisa a intenção de diversificação económica?

Neste âmbito, as empresas japonesas vão procurar quais as áreas benéficas para participar do processo. Angola está a tentar a diversificação da economia. Temos muitas áreas promissoras. Assim, para o futuro, as empresas terão de estudar onde querem actuar. Contudo, gostaria de acrescentar que, no âmbito da cooperação entre os dois governos, através da agência de cooperação do Japão, destacamos as acções no domínio da saúde, da desminagem, da agricultura, das redes de energia eléctrica e das tecnologias para a televisão digital.

Como se pode aproveitar melhor a vasta experiência japonesa na luta contra o subdesenvolvimento?

Mesmo antes da guerra, o Japão já tinha um certo nível de educação da população. Depois da II Guerra Mundial, com ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI) e dos aliados, conseguimos reconstruir o país, mas ao mesmo tempo apoiamos os outros países. O carácter do povo de trabalhar em conjunto contribuiu grandemente para a reconstrução.

Em África, e sobretudo em Angola, a população é maioritariamente jovem. Por isso, pode contar-se com ela na luta pelo desenvolvimento sustentável.

Como?

Isso passa, em primeiro plano, pela sua boa formação primária e secundária. Portanto, a capacitação é muito importante.

A Toyota, por exemplo, já está a ajudar com a abertura de uma academia no Cazenga, em Luanda, ministrando aulas online, para que os jovens angolanos sejam bons mecânicos de automóveis.

JIRO MURAHASHI: “A agricultura, do ponto de vista da diversificação económica, é a área mais importante para Angola, levando em consideração o potencial existente”. (Foto: D.R.)

O Japão tem sofrido muitos desastres naturais. E quase todos dias o país é sacudido por terramotos. Estamos habituados a isso. Por isso, o Japão pode fornecer a sua experiência na luta contra as calamidades naturais de que Angola não está alheia como, por exemplo, a ocorrência de chuvas torrenciais e a seca que arrasa o Sul do país.

O que o Japão procura concretamente em África?

O nosso objectivo na cooperação com o continente africano é o desenvolvimento de recursos humanos, capacitá-los para que os financiamentos sejam bem empregues. Não enviamos japoneses para trabalhar aqui, priorizamos os nacionais.

Quantos japoneses trabalham em Angola?

Apenas 30. Como disse, priorizamos as infra-estruturas e o desenvolvimento dos recursos humanos locais. O Japão é um país desprovido de recursos naturais, mas, em contrapartida, desenvolveu a massa cinzenta e, por isso, é hoje um país desenvolvido. Mas o ensino em Angola tem muitas debilidades…

Pode melhorar-se no âmbito da Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa (CPLP), ir à busca de professores que ensinem melhor o português, por exemplo, com recurso aos próprios portugueses e brasileiros.

E em que áreas o seu país pode ajudar?

Pode ajudar apenas quanto às matemáticas e às ciências.

Qual é a importância dos acordos que a embaixada rubricou recentemente com o Ministério dos Recursos Minerais e Petróleos?

São acordos entre os dois governos. Através da Companhia Nacional de Petróleo, Gás e Metais do Japão (Jogomec), procura-se por uma cooperação conjunta, na análise de imagens de satélite e pesquisas de campo, nas áreas de exploração mineira.

Em segundo lugar, os acordos visam a transferência de técnicas de exploração e troca de informação nas áreas de metais e minerais, petróleo e gás. Além disso, no âmbito da pesquisa e capacitação de quadros, Angola pode aproveitar o Centro de Sensoriamento Remoto com sede no Botswana.

Em suma, a Jogomec vem potenciar a localização e estudo das reservas minerais existentes.

Um centro patrocinado também pelo Japão?

Exactamente! Angola atravessa uma severa recessão económica.

Que saída aponta?

Tenho notado o aumento do desemprego e a situação social tende a deteriorar-se. Mas, com base nas medidas que têm sido tomadas pelo Governo, à luz das recomendações do FMI, pode mudar-se o quadro.

O apelo tem de ser de união. Mas não são essas receitas do FMI que estão a provocar o caos?

Pessoalmente, acho que o Presidente João Lourenço deve estar atento a isso. Conversar com os jovens e entidades religiosas e outras correntes para ouvir soluções são iniciativas louváveis. O Programa Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM) também é uma boa iniciativa que, esperamos, atinja os seus objectivos para o desenvolvimento das localidades rurais no interior do país.

As dificuldades económicas e financeiras do país não são negligenciáveis… Com a pandemia não há uma varinha mágica que possa rapidamente mudar o quadro. Mas é preciso trabalhar em conjunto para superar a crise.

Saudamos o Governo por ter encerrado fronteiras para travar a pandemia que, no entanto, limita a todos os níveis a actividade económica. É preciso continuar a trabalhar de alguma forma.

Qual é o balanço do acordo de concessão não reembolsável assinado em 2020 para a implementação do programa de desenvolvimento económico e social?

Esse acordo, assinado no ano passado e avaliado em três milhões de dólares, visa o fornecimento de ambulâncias para o sector da saúde no combate à Covid-19.

No entanto, essas ambulâncias ainda não foram adquiridas, mas o valor já está disponibilizado.

Onde serão adquiridos esses equipamentos?

Virão do Japão, mas isso passa primeiro por um concurso público. O governo japonês também tem apoiado o sector agrícola… A agricultura, do ponto de vista da diversificação económica, é a área mais importante para Angola, levando em consideração o potencial existente. No entanto, em 2017, a taxa de auto-suficiência de produção de cereais foi de 60%.

O resto tinha de ser importado para cobrir o défice. Entretanto, cerca de 95% é a representação da agricultura familiar e pequenos agricultores. Então, perante esse factor, achamos no curto prazo ajudar esses agricultores para serem mais eficazes.

E no longo prazo?

Precisamos trabalhar para diversificar os produtos, o comércio e depois exportar para outros países.

Qual é o valor já disponibilizado?

Não podemos calcular o valor exacto. Só para ilustrar, assinamos em Março um tipo de acordo com uma organização não-governamental, em Benguela, para potenciar a actividade de uma cooperativa de ex-combatentes e viúvas a módica quantia de 80 mil dólares.

A ideia é a melhoria da qualidade de vida, fazendo que fortifiquem a produção e possam comercializar os produtos e com isso aumentar a renda. No entanto, não se trata só do apoio financeiro. Transferimos cooperação técnica e disto também não podemos avançar o valor. Por exemplo, para o cultivo do arroz, enviamos peritos.

Esse apoio começou há quanto tempo?

Daqui a pouco, virá do Japão um perito em políticas de desenvolvimento agrário para dar assistência técnica ao Ministério da Agricultura e Pescas.

Onde coloca a agricultura empresarial?

Futuramente, o país vai precisar e pode haver empresas japonesas a entrar no negócio à guisa do Brasil, onde temos várias áreas de cooperação técnica no domínio agrícola.

O Brasil tornou-se o segundo maior produtor mundial de soja. Quer dizer que Angola também pode aumentar a produção e exportar. À medida que o tempo passar, haverá a possibilidade nessa área também.

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