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Arlindo & Maria

Arlindo & Maria e não o contrário, porque o conheci primeiro. Não me lembro como começou, mas sim como se foi desenvolvendo a nossa relação. Que, fecundada, se tornou em amizade.

A amizade de compatriotas que se encontravam além-fronteiras, fisicamente distantes da mãe pátria, a amizade de 2 pessoas que comungavam as preocupações com o rumo do país, a amizade de 2 pessoas que em comum tinham, também, o amor pelo saber, pelo conhecimento. É um facto que o Arlindo Barbeitos, como saberá quem com ele privou, tinha sempre histórias para contar sobre um assunto, qualquer que fosse, que se cruzava com sagesse e história de vida. Por isso não é de estranhar que, quem mais falava, era ele. Com a voz melíflua e a fina ironia que se lhe conhecia, eu como boa ouvinte que sou – sobretudo quando estou com quem fala muito mais do que eu – fui aprendendo a conhecê-lo e a fazer daquelas horas (às vezes ficávamos 2 horas ao telefone) um espaço tempo de fruição e (também) de aprendizagem.

A amizade com a Maria Alexandre surgiu mais tarde. Também com ela a amizade foi acontecendo. E a amizade e a Maria foram-se impondo e substituindo as conversas com o Arlindo – eu ia ouvindo e sabendo do Arlindo através da Maria. Por fim, eu já só falava com a Alexandra (às vezes Alexandre).

Arrumado” o Arlindo para um canto – Maria em acção -, era com a urgência, as emoções e a indignação da Maria com que passei a lidar. Também com a Maria as conversas eternizavam-se entre as aulas, o sistema de ensino, as universidades, o país, os assuntos domésticos, e a mãe. E o Daniel.

Os convites para almoçar (em casa deles) foram-se perdendo na espuma dos dias, dos meses e dos anos – culpa minha e só minha, cujas fobias integram o não gostar de sair, andar em Luanda, senão por razões de força maior. Muito poderíamos ter feito juntos. Não aconteceu. Nós, que juntos nos indignávamos contra tantos males que nos assolam…

Ficou a amizade e o livro que o Arlindo e eu organizámos a convite do então Embaixador em Portugal, Assunção dos Anjos. Ficaram as conversas, a amizade e a poesia de Arlindo & Maria, condensada nesses versos: “borboletas de luz//passam alacres/do mundo do esquecimento/ao país da indiferença”(Arlindo) e “Estamos à beira de um caminho/- que caminho é este?/Inventam de novo o vôo dos/pássaros./ Aqui já se ouviu o botão da rosa a desabrochar.” (Maria).

Com estes versos em que perpassam a tristeza e a desesperança que o Arlindo & Maria deixaram-nos, entre a tristeza e as dificuldades mil, de milhões de angolanos. Também eles viveram momentos muito complicados. E deixaram uma cidade, que também passou a ser deles, em absurda e absoluta agonia.

E por falar em agonia, falemos do lixo. Ainda o lixo porque a minha crónica anterior foi precisamente sobre o malfadado lixo que, a continuar assim, vai soterrar a capital e a província de Luanda. Mais uma metáfora, e desta vez recorro a Hamlet, de Shakespeare.

A saga continua! Livre e solto, ele corre por estradas, caminhos, ruas, bairros, rios, mar… E, pasme-se ou não, parece que vivemos no paraíso porque nem os governos (central e da província) AGEM, tão-pouco a oposição (Unita) que só agora reagiu!!!, e a tímida reação dos cidadãos continua a servir os interesses de quem manda no país.

Dir-se-ia mesmo idílico o que se passa, considerando o facto que caminhamos para o mês 5 de absoluta ignomínia… Não se estranhe, quando as leis, regras e e normas não são respeitadas e cumpridas, pois este é um claro sinal, crescente, da desconsideração e desrespeito das e às autoridades, que de autoridades quase só têm o nome. E a força.

Entre ruas engrinaldadas de lixo multicolor, aqui e ali com quitandas de moscas, detritos à escolha do freguês, a oferta de dejectos é variada, assim continua Luanda, a província e a cidade, à espera de melhores dias.

À espera de racionalidade, de sensatez, de sentido de estado. Enquanto isso, fala-se de uma manifestação “pró limpeza” que terá sido proibida, para variar. E não é preciso ser jovem para denunciar, para contestar.

Todos os cidadãos, não importa a idade, podem e devem insurgir-se quando se confrontam ou constatam que os seus direitos estão em perigo e podem e devem reivindicar, podem e devem viver melhor. Todos precisamos de conhecer e compreender as causas da “lixarada”, para perspectivar o presente-futuro.

Muito já se disse sobre e o crescente anedotário em torno do lixo permitem expurgar o malestar impossível de disfarçar que a chuva veio adensar. O silêncio de quem governa só quebrado depois das mensagens do presidente e primeiro-ministro português, ilustra bem a indiferença do governo.

Na chuvada anterior (no passado mês de Março) também houve mortes, desabrigados. E nada se fez. Mesmo quando digo a alguns amigos “então vocês não (re) agem?”, ou ainda sugerindo uma ou outra medida, nada fazem!!!! É desesperante! E desolador! Vamos COPIAR o que de bem e bom fazem os outros quando vivem situações análogas.

Quem governa é o primeiro a intervir, a ir aos locais. Mais do que darem o exemplo, é fazerem o que é seu dever, o que é deles esperado. Mas é também nesses países que seria impensável viver o que vivemos – por muito menos os governos “caem”(nesses países, obviamente)!

No momento em que revejo estas linhas é anunciada uma nova comissão e uma mega-campanha (mais uma!), decisão do Presidente da República! SÓ AGORA?! Com humildade digo que já há algum tempo havia feito esta sugestão a alguns amigos. Pois é, Arlindo & Maria, entre tantas falhas e faltas, a autoridade moral é uma delas, meus amigos.

Que tanta falta faz. Como vocês. Vocês partiram mas bem sabem que o surrealismo instalou-se na capital do país. A precariedade, a (sobre)vivência dos angolanos cujo estoicismo é reconhecido, mais do que um desafio, é uma certeza. Precisamos de um abanão e de aprender a dizer BASTA!

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FonteO País
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