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Democráticos, dispersados, globais: houve Oscars literalmente para todos

“Nomadland” é o filme do ano, Chloé Zhao a melhor realizadora, Frances McDormand a melhor atriz e Anthony Hopkins o (assombroso) melhor ator. “Mank” (10 nomeações, dois prémios) é o grande derrotado. A cerimónia foi a mais esquisita de sempre.

Vamos já falar do uivo de Frances McDormand – sim, ululou um urro em pleno palco, e repetiu-o, muito arrebatada -, mas primeiro é preciso falar do final da cerimónia dos Oscars 2021. O que foi aquele fim?!

Ao contrário do que sabemos sempre, o Oscar de melhor filme encerra a cerimónia. Sempre. Tudo é conduzido para o crescendo, há prolepse emocional, uma gradação gradual, ficamos a salivar, à espera da grande coroação. Mas desta vez não: o Oscar de melhor filme foi o antepenúltimo e depois ainda vieram os Oscars dos atores. Mas como? Mas porquê? Não se sabe.

O resultado, todos vimos, foi desastroso. O último Oscar a ser entregue foi o de melhor ator e foi para Anthony Hopkins (“O pai”). Mas Hopkins não estava presente, ninguém veio recolher a estátua, ninguém discursou e, depois de Joaquin Phoenix o ter anunciado, numa introdução a despachar, a cerimónia acabou. De repente. Assim sem mais. Anticlímax seria a palavra justa e só não é porque todo o espetáculo foi dessa forma assim, uma coisa decrescente, que desenchia, que nunca chegou realmente a levantar, que literalmente não voou.

“Nomadland” venceu o Oscar de melhor filme.
(Photo by Chris Pizzello / POOL / AFP)

Hopkins é monumental

O Oscar do inglês Anthony Hopkins é merecidíssimo e foi das poucas surpresas da noite. Tudo se encaminhava para a coroação do ator Chadwick Boseman, o febril trompetista negro de “Ma Rainey: A mãe do blues”, que limpara o Globo de Ouro, a Guilda dos Atores e era o rei dos críticos afro-americanos. Mas o prémio seria uma politização racial e uma expiação da pena: Boseman, que morreu subitamente de um cancro e já rodara doente, cinzelado e magro, é bom mas não transcende e o filme sobre a rainha dos blues dos anos 30 é francamente fraco.

Anthony Hopkins é todo esse contrário, é monumental em “O pai”, de Florian Zeller. É a história de um idoso demente com alzheimer. É sobre o sofrimento excruciante da velhice, a importância do afeto e a sua horrível elipse, é sobre a invasão doentia de uma aflição aterrorizante, a demência, uma doença que come a memória como um canibal. Não é um filme fácil, mas é um filme absolutamente necessário que examina a própria essência da nossa humanidade e da nossa devastação. Não se via nada assim, nem parecido, desde “Amour”, de Michael Haneke (2012).

CHLOE ZHAO.
(Photo by Chris Pizzello / POOL / AFP)

A 2.ª mulher realizadora

Desde 1929, só sete mulheres foram nomeadas para o prémio de realização – e apenas uma havia ganho: Kathryn Bigelow, em 2009, pelo lunar filme de guerra “Estado de sítio”. A história começou a corrigir-se: agora, com a vitória da chinesa Chloé Zhao, de “Nomadland”, há duas. Mas a história tem muito que apanhar: entre Chloé e Kathryn há um muro circunferencial de 90 homens atrás.

“Nomadland” foi o grande vencedor dos Oscars 2021: melhor filme, realização e atriz. Como se previa.

O filme segue a longa e angustiante jornada de uma mulher de 60 anos que, após perder tudo na Grande Recessão de 2008/09, embarca numa viagem pelo Oeste americano, e decide viver como um nómada moderno numa autocaravana. É um corajoso híbrido documental que mistura Frances McDormand com não-atores, é inspirado, é gentil, é compassivo e segue, muito determinado, em direção à sua inquirição: o que é a alma americana?

McDormand também venceu por Actriz em Papel Principal por “Nomadland” e Chloe Zhao venceu por Direçcão por “Nomadland”.
(Photo by Chris Pizzello / POOL / AFP)

Frances McDormand uivou a sério

Talvez a resposta àquela pergunta esteja mais em Frances McDormand do que em Chloé Zhao – porque a atriz é o filme. Ganhou o justo Oscar, pulverizando com um só sopro Viola Davis (de “Ma Rainey”) e sobretudo Carey Mulligan, a super-sexy vingadora de violadores na comédia negra “Uma miúda com potencial”, de Emerald Fennell (que ganhou o Oscar de argumento original).

Frances, que é também produtora de “Nomadland” e por isso subiu duas vezes ao palco. Na primeira lançou um uivo de lobo, gesto bem disposto e com uma certa soltura de loucura, que repetiu, doce e selvaticamente, como a sua personagem Fern no filme. Melhor ainda foi o seu discurso da segunda vez, quando recolheu a estatueta de melhor atriz (é o seu 3.º Oscar, depois de “Fargo” e de “Três cartazes à beira da estrada”). Durou menos de um minuto. Primeiro disse que os Oscars deviam ter karaoke. Depois disse isto: “A minha voz está na minha espada. A espada é o nosso trabalho. E eu gosto do trabalho. Obrigado por saberem isso. E obrigado por isto”, disse a abanar a esganada estatueta na mão. Terá sido o discurso mais curto que alguma atriz já desenramou nos Oscars. É literalmente a maior.

ERIK MESSERSCHMIDT VENCEU A MELHOR FOTOGRAFIA.
(Photo by Chris Pizzello / POOL / AFP)

Mank sai quase seco

“Mank”, a ode agridoce de David Fincher a uma certa magia da era dourada do cinema, foi o 2.º filme mais premiado este ano (melhor fotografia, para Erik Messerschmidt, e melhor direção artística), mas perdeu oito Oscars, entre eles filme, ator, atriz secundária, realizador…

A medida terá sido justa: “Mank” é a autópsia a uma obra-prima feita em que o nosso olhar está no bisturi de Herman J. Mankiewicz, o turbulento argumentista de “Citizen Kane”, de Orson Welles. É um misterioso drama romântico, tem o êxtase de um psico-drama, é todo cerebral, é belo de olhar, mas é palavroso, é pomposo, é confuso e falta-lhe espírito e alma, falta-lhe mesmo um concreto coração.

SALA DE IMPRENSA DA NOITE DOS OSCARS.
(LEWIS JOLY / AFP)

Oscars com asterisco

A cerimónia, que há de ter batido novamente um recorde de baixa audiência (em 2020 teve 23,6 milhões de espectadores nos EUA, a menor de sempre), foi estranha e cheia de solidão. Sem fanfarras e sem público, devido às restrições da pandemia do coronavírus, só com alguns dos nomeados em mesas a dois, afastados e desolados no hall da estação de comboios de LA, com ligações a outros locais do Globo onde estavam mais pessoas sozinhas, parecia só vagamente uma festa, mas uma festa de que toda a gente desistira prematuramente – ou, rigorosamente, um fim de festa do princípio ao fim…

Tudo aquilo, desacoroçoadamente sem piada, sem humor, pareceu só um ensaio geral da cerimónia que há de vir, e um ensaio nem sequer particularmente esforçado. Pormenor de sublinhada estranheza: não havia orquestra (havia Questlove DJ) e, quando os vencedores acabam os discursos, na maioria longos, entrava logo música rompante de variedades. Foi uma estratégia musical particularmente arriscada: muitos discursos terminavam com mensagens sentidas sobre a violência armada ou rememorações lagrimosas de parentes falecidos…

A 93.ª edição dos Oscars ficará para a História como a cerimónia do asterisco pandémico, uma coisa bizarra e indefinida entre um passado (que não volta) de supremacia artística branca e um futuro de equilíbrio político pós-racial que ainda não chegou.

Thomas Vinteberg comove-se

“Mais uma rodada”, a inebriante e inebriada tragicomédia dinamarquesa sobre quatro professores que decidem começar a beber nas aulas e dar um chuto na crise da meia-idade, venceu o Oscar de filme estrangeiro. Thomas Vinterberg, o realizador de 51 anos, fez um discurso de comovente elegância e falou da sua filha Ida, de 19 anos, que morreu num acidente de carro, esmagada por um condutor que ia a mandar mensagens no telefone, quando a rodagem estava a começar. “Este filme, que celebra a vida, é um milagre. É para ti, Ida”, disse Thomas a levantar o Oscar, comovido, no ar.

TOPSHOT – Daniel Kaluuya, vencedor do prémio de melhor actor coadjuvante por “Judas e o Messias Negro”, posa na sala de imprensa do Oscar em 25 de Abril de 2021, na Union Station, em Los Angeles.
(Photo by Chris Pizzello / POOL / AFP)

Daniel Kaluuya confirmado

O favoritismo ratificou também o 1.º Oscar para Daniel Kaluuya, inglês, 32 anos, negro, melhor ator secundário em “Judas and the Black Messiah”. Kaluuya, que despontou no terrífico drama de terror racista “Foge!” (2017), já ganhara o Globo de Ouro, o Bafta e o prémio da Guilda de Atores. É magnífico, magnético e estrondoso no papel de Fred Hampton, o secretário-geral do Partido dos Panteras Negras de Chicago, dividido entre tentar alimentar crianças famintas e reunir as fações fragmentadas da comunidade negra, enquanto faz discursos febris a apelar ao confronto com a polícia branca. É assassinado num complô do FBI de J. Edgar Hoover.

Yuh-jung Youn é uma brisa

Youn já ganhou a noite: a lendária atriz sul-coreana flirtou fortemente com Brad Pitt, que a anunciou, perdoou a todos os que pronunciam o seu nome mal, falou com sinceridade sobre o labor de amor que é “Minari” e pareceu genuinamente perplexa por derrotar Glenn Close – e, já agora, Olivia Colman, a filha do monumental homem com demência de “O pai”. Youn fechou o discurso a agradecer aos filhos, que, aparentemente, a forçaram a continuar a trabalhar aos 73 anos. Glenn Close, que estava nomeada pelo péssimo “Lamento de uma América em ruínas” (estava também na lista dos Razzies, prémios dos piores do ano), perdeu o Oscar pela 8.ª vez…

“Soul” claro que ganhou

A maioria dos prémios não teve qualquer surpresa. É uma desapontante constatação, mesmo quando vence o melhor candidato. No caso da animação, ganhou “Soul – Uma aventura com alma”, de Pete Docter, história de um pianista de jazz de Nova Iorque que de repente se vê preso num local estranho entre a Terra e a vida pós-morte. É um produto vintage do melhor da Pixar: narrativa intrincada e adulta, inteligência emocional complexa, muita destreza técnica, glória visual e bastante piada. Um prémio sem ponta de surpresa.

O som da surdez

O filme de Darius Marder “O som do metal”, a angustiante jornada de um baterista rock que fica surdo, é dos filmes mais urgentes de todo o lote de 2021. Venceu a melhor montagem e melhor som. É uma estreia hipnotizante que injeta extrema sensibilidade nas circunstâncias viscerais e tensas do seu protagonista. O filme acredita piamente no poder dos seus atores e no poder da interpretação e Riz Ahmed, o protagonista que nos parte o coração, retribui o favor e entrega o melhor trabalho da sua carreira numa torrente mesmerizante de subtileza e contenção.

Uma bela curta antirracista

Vale a pena ver “Dois perfeitos estranhos”, Oscar de melhor curta-metragem de imagem real (Netflix), de Travon Free e Martin Desmond Roe. É uma espécie de “Groundhog day” para o tempo Black Lives Matter: um cartoonista negro tenta voltar para casa e fica preso num loop temporal; está sempre a encontrar o mesmo polícia branco e racista, que o mata de todas as vezes que o vê. Ao agradecer o Oscar, Travon Free disse isto: “Hoje, a polícia vai matar três pessoas na América. Amanhã, a polícia vai matar três pessoas na América… A polícia mata mil pessoas por ano na América. Isto não está evidentemente bem, isto tem que acabar!”.

O polvo ganhou

“A sabedoria do polvo”, de Pippa Ehrlich e James Reed, derrotou o hiper-favorito “Crip Camp” (é uma deliciosa, e surreal, lição de história sobre os direitos dos deficientes, que eclodiram paralelamente à luta dos direitos civis na América de 60/70; é produzido pelos Obamas) no Oscar documental. O filme é uma mistura excepcional de ciência, filosofia e intuição. Segue um mergulhador profissional que atravessa uma depressão e vai superá-la ao compreender melhor a intrincada sinergia do mundo natural quando começa a documentar a vida de um polvo. O prémio ficou em casa: “Crip Camp” e o polvo são ambos da Netflix.

SCOTT R. FISHER VENCEU O OSCAR DE MELHORES EFEITOS VISUAIS.
(Photo by Chris Pizzello / POOL / AFP)

Lembram-se de “Tenet”? Ganhou um Oscar

“Tenet”, de Christopher Nolan, é o mais confuso e esfuziante filme de ação de 2020 (e, provavelmente, de muitas décadas atrás até “Dune”, de David Lynch): paradoxos temporais, entropia regressiva, pensamento não linear numa trama de espionagem internacional. Venceu justissimamente o Oscar de melhor efeitos visuais (mas perdeu a direção artística para “Mank”). É um filme que merece ser visto pelo menos três vezes.

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FonteJN
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