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Um ano depois, reunião de 22 de abril ainda dá pistas para entender nossa tragédia

22 de abril de 2020. Há exato um ano, Jair Bolsonaro se reunia com seus ministros para manifestar sua revolta por não receber spoilers das operações da Polícia Federal, xingar o governador de São Paulo, João Doria, de “bosta”, chamar o então chefe do executivo fluminense, Wilson Witzel, de “estrume”, avisar que tinha um sistema particular de informação e que não iria esperar “foder” a sua família toda para agir. Nem que fosse para demitir ministro. O recado, como se saberia 30 dias depois —quando o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, autorizou o acesso do público ao vídeo da reunião— era um dos muitos tiros que espocavam na própria equipe. Como nos filmes de faroeste em que o xerife força o público a dançar pulando para não ser alvejado nos pés.

Fazia pouco mais de um mês que a Organização Mundial da Saúde havia anunciado a pandemia do coronavírus.

O Brasil se aproximava de 46 mil casos de contaminação e 3 mil mortes relacionadas à covid-19. Falou-se tudo naquela reunião, menos das ações para conter a pandemia.

Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, defendeu que o governo aproveitasse as atenções da mídia sobre o vírus para passar a “boiada” nas regras ambientais do país.

Paulo Guedes, da Economia, manifestou seu plano de alavancar o PIB por meio da jogatina, da venda apressada da “porra” do Banco do Brasil e de uma bolsa de R$ 300 mensais para mandar um milhão de jovens para os quartéis, onde aprenderiam a construir estradas e cantarem o hino nacional.

Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, denunciava um plano para contaminar indígenas de propósitos só para prejudicar o governo. Ela garantiu que estava encaminhado um pedido de prisão de governadores e prefeitos.

Então ministro da Educação, Abraham Weintraub falou de seu ódio em relação ao termo “povos indígenas”, “povos ciganos”, e de sua vontade de prender ministros do STF. Teve de deixar o país pouco depois para não ser julgado.

Nelson Teich, que assumira o Ministério da Saúde no lugar do fritado Luiz Henrique Mandetta, ponderou que o medo do (ainda) novo coronavírus impediria que a economia fosse tratada como prioridade. Durou cerca de um mês no cargo.

O resultado mais imediato da reunião foi a queda do ministro mais popular do governo, o ex-juiz Sergio Moro. A reunião selou o divórcio entre o presidente e a Lava Jato, operação da qual colheu dividendos políticos nas eleições de 2018 e se livrou logo em seguida, declarando que havia acabado com a corrupção no país.

Para isso, comprou briga para mudar a direção-geral da Polícia Federal e o comando da superintendência do Rio, onde os filhos eram investigados.

Moro, constrangido pelo chefe a assinar uma portaria liberando o acesso da população a armas —para reagirem, explicou o presidente, contra decretos de prefeitos e governadores para conter a proliferação do vírus— se demitiu pouco depois. Ele saiu atirando e acusando Bolsonaro de querer fazer exatamente o que ele disse que faria na reunião: interferir na Polícia Federal.

Não se pode dizer que não foi bem sucedido.

A exposição do vídeo, um mês depois do encontro, escancarou a indigência do governo prestes a (não) liderar o maior desafio histórico do Brasil e do mundo neste século.

O roteiro da tragédia estava todo desenhado.

Um ano depois, passa de 380 mil o número de compatriotas mortos pela covid-19.

Teich percebeu que seria voz vencida naquele manancial de absurdos e pediu o boné. Foi substituído por Eduardo Pazuello, obediente general que nada entendia do assunto, mas referendou a estratégia do presidente em combater o coronavírus à base de negacionismo, aposta na imunidade de rebanho, compra, fabricação e distribuição de medicamento sem eficácia comprovada e boicote, hoje felizmente suspenso, à vacina desenvolvida graças aos esforços do “bosta” que governava o estado de São Paulo.

Pazuello cairia menos de um ano depois e se tornaria o principal alvo das investigações sobre ações e omissões do governo na CPI da Pandemia.

O troca-troca na equipe de lá para cá mostra que o governo Bolsonaro é um veículo que parou para trocar pneu e nunca mais voltou à estrada.

Walter Braga Netto, ministro que apresentaria, naquele dia, uma versão tupiniquim do Plano Marshall de reconstrução nacional (do qual ninguém mais ouviu falar), trocou a Casa Civil pelo Ministério da Defesa, de onde Fernando Azevedo e Silva foi demitido por ser discreto demais e bolsonarista de menos. Com ele caíram os três comandantes das Forças Armadas.

Para o lugar de Weintraub, na Educação, Bolsonaro escolheu um professor que havia mentido na entrevista de emprego e no currículo. Carlos Decotelli caiu sem assumir e foi “substituído” por Milton Ribeiro, que promoveria a passagem de outras boiadas no sistema educacional.

De lá pra cá, sobrou apenas poeira da promessa, feita em 2018, de governar com uma equipe de técnicos, sem políticos de carteirinha nem lastros ideológicos.

Desde que a polícia descobriu que o encrencado ex-assessor Fabrício Queiroz estava acolhido no sítio do advogado da família Bolsonaro em Atibaia (SP), Bolsonaro abriu cada vez mais espaço ao “centrão”, hoje no comando das Comunicações e da Secretaria de Governo.

Tudo para ficar bem com o Congresso e desbaratar o fantasma do impeachment que passou a rondar o Planalto ao longo da crise sanitária, política e econômica.

Um ano depois, o Bolsonaro incendiário daquela reunião ainda alterna os figurinos. Uma hora sinaliza que vai enfim se comportar. Na outra, ameaça botar fogo no parquinho. Mesmo sabendo que desde o começo do ano já não conta com as costas largas do “amigo” Donald Trump, derrotado em sua tentativa de permanecer mais quatro anos na Casa Branca.

Quis o destino que a reunião que consagrou a boiada completasse um ano de aniversário no dia em que, sob nova direção, os EUA organizam um evento virtual para afinar as diretrizes dos esforços por um novo pacto de preservação ambiental na Cúpula dos Líderes sobre o Clima. Caminhando na prancha do navio desde a famosa reunião, Salles tenta vender para gringo ver a imagem de que o Brasil é um parceiro confiável. Faz isso com uma carta de intenções esvaziada após o chefe da PF no Amazonas, onde fica a maior parte da floresta, criticar o ministro por ficar ao lado de supostos criminosos na luta pela preservação ambiental. Foi o fim da linha para o delegado, como foi para tanta gente que não se alinhou ou ousou expor as ações destrutivas do governo para o público.

Como se vê, muita coisa mudou desde a tal reunião. Menos a ânsia, ora aparentemente domesticada, de transformar o país em um grande deserto, inclusive de ideias, dominado por jagunços armados até os dentes.

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