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PTS quer uma “nova realidade política” em Cabo Verde

Com 29 anos, o presidente interino do PTS, Cláudio Sousa, defende que o partido foi reactivado por jovens que querem “abrir a sociedade a uma nova realidade política”. O Partido do Trabalho e da Solidariedade concorre a seis círculos eleitorais nas legislativas de 18 de Abril em Cabo Verde.

Cabo Verde tem eleições legislativas a 18 de Abril. Na corrida eleitoral estão seis partidos – MpD, PAICV, UCID, PTS, PSD e PP – para eleger 72 deputados em 13 círculos eleitorais: dez no país e três na diáspora. MpD, PAICV e UCID concorrem em todos os círculos eleitorais; PTS em seis círculos (Santiago Sul, Santiago Norte, São Vicente, África, América, Europa e o resto do mundo); PP em seis círculos (Santiago Sul, Santiago Norte, Boa Vista, África, América, Europa e o resto do mundo) e PSD em quatro círculos (Santiago Norte, Santiago Sul, África e América).

Cláudio Sousa é o presidente interino do Partido do Trabalho e da Solidariedade (PTS), uma formação que defende ter sido reactivada por jovens que querem “abrir a sociedade para uma nova realidade política”. Licenciado em história, técnico municipal e agricultor, o jovem de 29 anos diz que Cabo Verde é um país rural e que a retoma económica depois do choque da pandemia no sector turístico passa pelo investimento na agricultura, pecuária e pescas. Cláudio Sousa defende, ainda, a nacionalização da Cabo Verde Airlines e o investimento em hospitais e recursos humanos.

RFI: “A economia sofreu com a pandemia. Que propostas para a retoma económica?”

Cláudio Sousa, Presidente interino do PTS: “Em primeiro lugar, nós temos que procurar adaptar nessa nova realidade, tentar compreender melhor o que se passa no mundo e tentar aproveitar as oportunidades que vão surgindo para tentar retornar às nossas atividades económicas. Temos que verificar se a vacinação que está a ser proposta é adequada e se não vai comprometer a saúde pública nacional.

O que nós queremos neste momento é uma retoma da economia porque a situação do país não é muito boa e porque mesmo antes da epidemia/ pandemia da covid-19, a situação económica do país já estava péssima e com a pandemia a situação acabou por piorar cada vez mais.”

RFI: “Quais é que são, então, as propostas para estimular essa retoma?”

Cláudio Sousa: “Nós temos uma economia muito centralizada no turismo e com a crise da pandemia ficámos perante uma realidade em que todos os hotéis fecharam as portas, restaurantes, bares… é uma crise que afectou em cheio a indústria turística. Para diversificarmos a nossa economia temos uma proposta bem clara que é investir mais no sector primário que é o sector de produção a nível nacional.

Cabo Verde é um país rural e a agricultura, pecuária e pesca é a base da economia nacional e que emprega mais cabo-verdianos. Eu acho que a nossa economia vai respirar um ar de alívio com um investimento redobrado no sector primário. Nós vamos produzir e vamos melhorar a dieta alimentar a nível nacional, melhorar a nossa economia porque uma economia sem produção é uma economia fictícia, o que é o caso cabo-verdiano porque nós não produzimos praticamente nada e vamos tentar aumentar a produção nacional e a industrialização desses sectores é o caminho para suprimir o desemprego e levar Cabo Verde num caminho mais saudável.”

RFI: “A privatização da TACV avançou mas acarretou muitas críticas. Agora a companhia está em perigo com a pandemia. O que fazer?”

Cláudio Sousa: “A nível de transporte também, o país está muito mal servido. Nós estamos perante um governo que está a privatizar quase tudo sem levar em consideração os verdadeiros interesses do povo cabo-verdiano. A TACV está numa situação complicada. Uma solução clara é nacionalizar esta empresa, tentar recuperar aquilo que ficou. Um sector tão importante para a economia nacional como o sector dos transportes, nomeadamente do transporte aéreo, não pode estar nas mãos de sectores privados estrangeiros que não estão comprometidos com o desenvolvimento nacional. A nacionalização desta empresa e de outras empresas-chave de sectores importantes para a economia nacional, eu acho que a nacionalização deveria ser o caminho.”

RFI: “O mesmo também em relação aos transportes marítimos inter-ilhas?”

Cláudio Sousa: “Sim, sim porque a CV Interilhas que é uma empresa pública que os nossos governos ofereceram praticamente de bandeja ao sector privado estrangeiro. A CV Interilhas 51% pertence aos portugueses e 49% a nacionais. A nacionalização seria o caminho para que nós tenhamos o controlo do nosso país.”

RFI: “O sistema de saúde foi posto à prova com a pandemia. Que investimentos propõe para a saúde face à crise sanitária?”

Cláudio Sousa: “Essa crise sanitária veio pôr a nu aquilo que era uma realidade nacional. Nós temos dois tipos de serviços de saúde: temos um serviço de saúde destinado às pessoas que têm alguma posse e temos um tipo de serviço de saúde destinado às pessoas da classe baixa da nossa sociedade. Nós também vemos a nacionalização deste sector porque a privatização da saúde é um negócio muito vergonhoso, mas por outro lado muito lucrativo nas costas do povo. Todos os anos nós verificamos centenas, para não dizer milhares, de pessoas que pertencem à classe baixa da população que morrem nas filas dos hospitais à espera de um atendimento médico.”

RFI: “E então o que é que propõe?”

Cláudio Sousa: “Nós propomos melhoramento de estruturas e infra-estruturas em certas regiões do país. Na ilha de Santiago temos necessidade de hospitais e de mais profissionais de saúde, mas também nas ilhas periféricas como Santo Antão, Boa Vista, nós temos muitas regiões do país que estão abandonadas por este governo que é muito centralista. Nós achamos que numa sociedade justa, um cidadão comum deve ter acesso aos serviços médicos e nós devemos ter os médicos necessários e em número suficiente para dar cobertura à população. Num país como Cabo Verde, nós precisamos de um médico para cada mil habitantes e também propomos um estomatólogo para cada 3000 habitantes e 55 técnicos de saúde para cada dez mil habitantes. Propomos uma redução do preço dos medicamentos. Para transformar os cabo-verdianos num povo saudável, temos que garantir a segurança alimentar e auto-suficiência também.”

RFI: “A bipolarização política continua no país entre MpD e PAICV. O que é que o PTS tem feito contra isso e porque é que ainda não se conseguiu afirmar?”

Cláudio Sousa: “Nós não estamos num Estado bipolarizado. No caso cabo-verdiano nós não temos dois partidos, nós temos um só partido. Tanto o MpD como o PAICV ambos pertenciam ao PAIGC e, depois, em 1981, transformou-se em PAICV. Em 1990, o PAICV dividiu-se em dois: uma ala ficou no PAICV, uma ala foi fundar o Movimento pela Democracia, mas tudo isso para falsificar uma transição verdadeiramente democrática. Em Cabo Verde ainda estamos no sistema de partido único porque quando estamos a votar no MpD estamos a votar no PAICV e vice-versa. É uma elite que governa a sociedade.

O PTS – nós somos jovens que vieram de vários grupos sociais, nomeadamente de grupos de cidadãos que participaram nas últimas eleições autárquicas de 2020. Queríamos dar o nosso contributo ao nível legislativo para candidatar-se à Assembleia Nacional, mas essa candidatura só é possível dentro de um partido político porque os grupos de cidadãos estão limitados em participar directamente nessa eleição. Então, nós tivemos que entrar dentro do PTS, mas o PTS é um partido que estava praticamente desactivado e tem uma história interessante, tem uma história de luta do povo cabo-verdiano e nós queremos dar continuidade. Acreditamos que vamos abrir a sociedade para uma nova realidade, mas ainda vivemos uma única realidade desde 1975.”

RFI: “O que defendem relativamente à regionalização?”

Cláudio Sousa: “Não é necessário regionalizar o país se traçarmos uma política de desenvolvimento nacional equilibrado, redistribuindo os recursos de uma forma equilibrada entre as regiões e o país. Cabo Verde é um país regionalizado. Nós somos um arquipélago formado por dez ilhas, sendo nove a metade. Regionalismo no verdadeiro sentido da palavra vai ser muito prejudicial para o desenvolvimento nacional porque estamos a dar a continuidade a uma política neocolonialista que é de balcanizar cada vez mais os nossos países. Resolvendo este problema de redistribuição de uma forma equilibrada e justa dos recursos entre diversas partes do país, eu acho que vamos resolver este problema e não vamos chegar ao ponto de regionalizar o país porque ao regionalizar o país estamos a engrossar a máquina burocrática sem resolver o problema do povo.”

RFI: “Como é que vê a questão da segurança em Cabo Verde e o que é que precisa de ser feito?”

Cláudio Sousa: “Nós temos que apostar na nossa própria segurança. Nós temos governos que já assinaram acordos internacionais que comprometem o futuro do país, que comprometem a acção da geração futura. Eu acho que nós deveríamos apostar numa segurança interna. Nós temos policiais, nós temos militares, deveríamos mudar a lógica da governação porque os nossos agentes de segurança do Estado ainda carregam um certo comportamento de agentes neocolonialistas porque temos uma corporação nacional de polícia que sustenta que eles têm cerca de 140 anos de existência e nós somos um país que tem cerca de 46 anos de independência. Eu acho que isso é uma contradição. Como é que uma instituição do país é muito mais velha que o próprio Estado? Estamos a continuar uma tradição colonialista fascista em Cabo Verde, nós temos que mudar a lógica de governação. Também dentro das Forças Armadas, nós temos que valorizar mais os nossos militares porque os nossos jovens militares que contribuem para a defesa nacional ganham muito mal, cerca de mil escudos. Eu acho que nós devemos investir mais na segurança interna e confiar a nossa segurança a nós mesmos.”

As últimas eleições legislativas em Cabo Verde ocorreram a 20 de Março de 2016, tendo o Movimento para a Democracia (MpD) vencido com maioria absoluta, ao eleger 40 deputados, o PAICV 29 deputados e a UCID três deputados.

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