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“Devia haver um Decreto Presidencial de Estado de Emergência ligado à fome” – Padre Pio Wakussanga

Religioso das causas sociais dos Gambos (Huíla), que trata por «tu» o Sul do País, Padre Pio Wakussanga descreve, em entrevista ao NJ, o cenário de fome acentuada que assola aquelas paragens do território nacional, relata o fluxo migratório de angolanos que fogem da miséria para se refugiar na vizinha Namíbia e diz ser oportuno discutir-se, nesta fase de revisão pontual da Constituição, a questão da protecção às minorias em vias de extinção em Angola.

Os relatos que nos chegam apontam para uma situação de fome profunda no Sul do País, mormente nas províncias da Huíla e do Cunene. Qual é o real quadro da situação?

Eu até não diria muita, a fome é total. Total na medida em que, à excepção daqueles que estão, por exemplo, enquadrados no sector público ou na actividade privada, e que são muito poucos, ao resto esgotou as reservas alimentares que tinham criado antes de 2012. Sabe-se que houve uma estiagem prolongada entre 2012 e 2016, durante quatro anos. As reservas que as pessoas acumularam nesse período já se esgotaram. Houve chuva de 2017 até 2018. Durante dois anos, as pessoas cultivaram um bocadinho, mas para consumo imediato. Em 2019, tivemos aquela fome prolongada, que “levou” muitos gados, muitos gados bovinos morreram. Veio esta estiagem, choveu a primeira vez aí na primeira quinzena de Novembro e, depois, choveu de novo no dia 25 de Dezembro e parou. A chuva só voltou mesmo a partir do dia 15 de Março. Quase todas as lavras estão completamente baldias, vazias. A fome é total. Até à semana passada, havia mais de sete mil angolanos que estavam já do outro lado da Namíbia, na região do Cunene, nas duas regiões fronteiriças com esse país, uns caminharam a pé, durante mais de 200 quilómetros, saindo de Angola, sobretudo das províncias da Huíla e do Cunene. Relatórios por escrito até agora não temos, mas temos acesso a jornais que são publicados na República da Namíbia, que relatam tudo isso.

Dizem que, de tanta fome, há pessoas a comer raízes.

Isso. Aqui nessa região da Huíla e do Cunene há uma árvore chamada Mutunda, cuja raiz, quando esmagada, produz alguma farinha como fosse farinha de mandioca. Então, aquilo é escavar de verdade a raiz da Mutunda.

Há pessoas a morrer de fome?

Absolutamente há. Infelizmente, a Medicina não reconhece a morte por fome, não há nenhum diagnóstico que diz que o fulano morreu de fome, o que se passa é que a pessoa fica meses sem se alimentar convenientemente, vem uma situação e cai. Está a cair chuva agora, sim senhor. O tempo da sementeira tradicional já passou, e as pessoas ainda não conseguiram entrar no rio e mudar-se, que é a tradição do antigo modo de fazer agricultura, para cultivar os cereais como o milho e o massango, para passar para a agricultura intensiva, que é feita de tubérculos, batata-doce, mandioca e hortícola. As pessoas ainda não entraram, digamos, neste ritmo de poderem permutar com cultura de ciclo curto e rápido, não conseguiram.

Quais as outras formas que as pessoas usam para tentar “matar” a fome?

Os frutos silvestres e as folhas. Por exemplo, há um relato de alguém que morreu na fronteira com os Gambos, consumindo uma semente, algo parecido com feijão silvestre, chamada matcheketcheke. Comeu o matcheketcheke, fermentou a barriga, foi socorrido, e, de acordo com os relatos dos populares, morreu. Mas isso é aquilo que chega ao público. Nós temos relatos que ainda não conseguimos compilar tudo, mas, por exemplo, na área onde estou, tenho relatos de que pelo menos cinco ou seis pessoas morreram de fome.

São crentes do seu rebanho, das paróquias que dirige aí nos Gambos?

Eu vivo nos Gambos, e então, os catequistas já me relataram aí alguns casos. Portanto, as pessoas estavam enfraquecidas e foram-se apagando e morreram completamente.

Há muita gente a recorrer à Igreja para conseguir algo para comer?

Todos os dias, temos gente às nossas portas, à procura de alguma comida. Nós também não temos. O que vamos fazendo é partilhar o que nós cozinhamos. Já temos consciência de que, enquanto temos a panela no fogo, há pessoas que estão lá fora à espera também da mesma panela, então o que nós fazemos é aumentar um pouco de água, um pouco de arroz, um pouco de fuba e partilharmos; um prato para nós e outro prato para aqueles que estão lá fora à espera que se alimente de alguma coisa. É a única coisa que temos, e é a única coisa que fazemos.

E a Igreja tem sido apoiada para responder a estas solicitações da população?

Pelo menos a nível da Missão e da Paróquia é o apelo que fazemos e estamos à espera que o apelo resulte. O que se passou há dois ou três anos é que tivemos alguns apoios de irmãos nossos que estão em Luanda, organizaram várias vezes algumas solidariedades, mandaram-nos camionetas que nos chegaram. Também alguns angolanos que estão fora do País, angolanos e estrangeiros, reuniram-se e mandaram apoios. Nesta altura, fomos comprando alguns alimentos, quando o saco de fuba de 25 quilos custava muito baixo, estava por aí no valor de 5 mil kwanzas. Hoje em dia, o saco de fuba está à volta dos 14 mil Kz. Estamos a lançar o apelo àqueles que nos ajudam dentro e fora do País. Entretanto, a situação de crise é quase generalizada, muitos estão descapitalizados, não têm dinheiro, estão a lutar contra a Covid-19. Ainda assim, há pessoas que se juntaram e querem apoiar-nos, mas as coisas ficaram pesadas. Estamos à procura de quem possa vender-nos milho, porque o milho é um pouco barato. O que ocorre é que já não temos milho no mercado, o milho todo acabou por ser vendido. Os vendedores estão a misturar entre o milho seco, que é o pouco que sobrou e o milho fresco que acaba de sair das lavras.

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