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Tuberculose retraída face à pandemia da Covid-19

Faz já umas semanas que a tosse de Pedro Rodrigues não passa. As dores no peito, o cansaço e a perda de peso também são cada vez mais irritantes para o morador do município de Viana, que não sabe o que tem, mas evita o hospital… por algum tempo.

Dias depois, o jovem sente cada vez mais dores no tórax, principalmente quando tosse. A seguir, os escarros carregam manchas de sangue, além de estar já com ligeiras dificuldades respiratórias. É nessa fase que a família decide levá-lo ao Hospital Municipal de Capalanca, de onde é transferido para o Sanatório de Luanda.

Nessa altura em que o calendário aponta para um dia qualquer de Dezembro de 2019, o diagnóstico está feito. Pedro desenvolve uma tuberculose. Por isso, no Sanatório, faz o tratamento ambulatório, por seis meses. As melhorias, tempos mais tarde, são visíveis.

O jovem, progenitor de três rebentos, volta assim à mecânica e ao serviço de moto-táxi, sempre que, na primeira actividade, “as coisas estão fracas”. Dedica horas e tempo a mais ao trabalho. Descuida a medicação, a alimentação. Mas, também, faz um retorno às drogas e ao consumo exagerado de bebidas alcoólicas.

Não demora para regressar ao Sanatório. Há três semanas que ocupa a cama 84, da sala 12, do hospital provisório, em situação ainda pior.

“Se estou vivo e a falar para vocês é graças a Deus”, refere, quando pede um espaço para aconselhar os jovens a fugirem das drogas, do tabaco, das noitadas. “Essas coisas só destroem as nossas vidas. Matam-nos devagar…”, diz, enquanto é parado pela tosse.

O corpo “desvigorado” de Pedro exige algum esforço para certos movimentos. É preciso cuidados para fugir da dor. Por isso, devagar, baixa-se e pega um embrulho de pano branco, desloca a máscara do rosto e deita ali o cuspo, ou melhor, o catarro.

Nesse momento, o Rafael Tati está a descarregar uma série de flashes sobre o aposento do hospital. Dois pacientes, com sinais de elevado emagrecimento, pedem ao nosso fotógrafo para não os “filmar”. A reclamação do homem é prontamente atendida pelo repórter de imagem, que, depois, direcciona a objectiva para outro ângulo.

Enquanto isso, outras vozes, mais gargalhadas do que falas propriamente ditas, ouvem-se do outro lado desse mesmo corredor da nave de infecciologia do provisório Hospital Sanatório de Luanda. Mais próximo, sabe-se que a conversa, acompanhada de risadas, vem da sala 8, onde a paciente Luísa Estevão anima as seis companheiras de aposento.

Tal como Pedro, a jovem Luísa, moradora no bairro Sapú 2, actual ocupante da cama 51, parece ter a responsabilidade de distrair as companheiras com anedotas, provérbios e outras conversas. Mesmo ainda muito debilitada, a jovem, que sofre da doença desde 2018, parece boa de fala.

Embora tenha feito a medicação por seis meses, Luísa, desta vez, está internada no Sanatório há quase um mês, é, igualmente, um caso de retorno. A inicial tuberculose pulmonar (fase sensível) é, agora, multi-resistente.

Pedro, que veste camisola vermelha, calções cinzentos e calça chinelas, bem como Luísa, trajada de “panos do Congo” e blusa marron, apesar de estarem na luta pela cura da TB, em mais ou menos dois anos, ainda não fazem parte da lista de doentes que deram entrada ao Sanatório e saíram sarados, como acontece com 65 por cento dos pacientes ali assistidos.

Os dois jovens são casos antigos. Mas a unidade clínica de referência nacional no tratamento da doença, entre o mês de Janeiro e a primeira quinzena de Março deste ano, registou mais de mil novos pacientes com tuberculose sensível e cerca de 200 outros com TB multi-resistente.

Os casos, desde o surgimento da Covid-19, têm estado a diminuir ao nível do Sanatório. O director clínico da unidade, Damião Victoriano, refere que, em 2019, o banco de urgência do hospital atendeu cerca de 18 mil pacientes, sendo que no ano seguinte os registos baixaram para 14 mil.

O mesmo cenário verifica-se nas consultas externas, nas quais, diferente dos 50 mil pacientes assistidos, em 2019, os números reduziram para 19 mil casos, no ano de 2020.

Essa baixa de registo de pacientes infectados pela TB, considerada terceira maior causa de mortes no país, verifica-se em todas as unidades de tratamento da doença. Por exemplo, entre 2020 e início deste ano, a doença afectou um total de 65.821 pessoas, na sua maioria, jovens do sexo masculino (dos 15 aos 45 anos).

“Os números conheceram uma redução de casos”, segundo o coordenador do Programa Nacional de Controlo da Tuberculose, Ambrósio Disadidi, quando compara os dados acima referidos com os de 2019, quando foram diagnosticados 78.305 casos, dos quais 74.105 representam 94,6% de novas infecções e recaídas.

Uma explicação, referem os especialistas, é que as limitações impostas pela pandemia da Covid-19 influenciaram a pouca procura pelos serviços de diagnóstico e tratamento da TB, daí a redução de casos registados nas unidades sanitárias.

ESFORÇOS: Elevada taxa de mortalidade
Os técnicos do Sanatório de Luanda fazem tudo para que menos pessoas morram da doença, mas, dada a chegada tardia desses pacientes, a taxa de mortalidade ainda é alta, apesar da diminuição de casos, influenciada pela pandemia do novo coronavírus.

O director clínico avança que, em 2019, a taxa de mortalidade bruta, que se dá em pacientes com menos de 48 horas no serviço hospitalar, foi de 31,1 por cento, enquanto a letalidade líquida, representativa de casos com mais de 48 horas na unidade clínica, esteve em 27%.

No ano seguinte, os óbitos também sofrem uma baixa considerável, realça o médico pneumologista Damião Victoriano. A mortalidade bruta fica em 25,9% e a líquida em 19,8%.

O especialista realça que existem variáveis para determinar a taxa de mortalidade, principalmente para a bruta, entre as quais o estado avançado da doença em que dão entrada os pacientes no Sanatório. Uns chegam com lesões muito extensas, malnutridos, com altos sinais de diabetes, de hipertensão ou de câncer, sem alguma assistência adequada. “Alguma coisa não está bem ao nível da periferia”, lamenta.

O mais grave, diz o médico, é ver casos de pacientes a morrer por TB, quando se trata de uma doença que, embora crónica e infecciosa, é curável. Daí defender maior esforços das unidades municipais, para que esses doentes não morram por uma enfermidade que pode ser combatida a partir da zona de residência.

Há ainda a questão das condições sociais dos pacientes, que influenciam, em grande medida, o comportamento da doença, desde a disponibilidade de alimentação adequada, água potável, ajuda das famílias, entre outros factores.

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FonteJA
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