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“A actividade mineira pode conviver dentro dos parques nacionais” – Canga Xaquivuila

“O futuro está na mineração.” É a convicção do presidente do conselho de administração do Instituto Geológico de Angola (Igeo) que abre, ao VALOR, o mapa dos recursos minerais do país, detalha o que há e onde se pode encontrar. Canga Xaquivuila não tem dúvidas de que o turismo e a mineração não são antagónicos e lembra que 80% do território regista ocorrências de recursos minerais.

O Igeo é um ente desconhecido por muitos, certo?
Não é porque se trata de uma instituição pouco conhecida, o facto é que, se calhar, falamos pouco e nunca tivemos mais contactos com os media. Senão, o Igeo cá está já desde a época colonial, precisamente desde 1921, altura em que os missionários portugueses publicaram o primeiro trabalho de geologia feito em Angola e, em 1930, transformaram esta entidade em Instituto Geológico de Angola. Em 1941, passou para Instituto Geológico e Serviços Mineiros de Angola.

Designação pouco mudou…
Logo que o país se tornou independente, criou-se a Direcção de Geologia e Minas com os seus laboratórios num antigo edifício. Em 1977, com a visita do Presidente Agostinho Neto, converteram-na em Direcção Nacional de Geologia e Minas e pertencia ao Ministério da Indústria. Em 1989, foi institucionalizado o serviço geológico de Angola que tem como foco assegurar o conhecimento científico do potencial geológico e dos recursos minerais do país, elaborar estudos sobre os recursos minerais e rochas existentes e presta serviços especializados.

A lógica é assegurar, por via dos recursos minerais, o desenvolvimento sustentável.

Mas o contributo ainda é irrisório…
Na verdade, houve um período em que o instituto estava quase adormecido. Mas, nesta altura, temos a estratégia de torná-lo conhecido a nível internacional. Por exemplo, já fazemos parte da organização dos serviços geológicos de África. Já temos participado nas assembleias.

O que o país ganha com isso?
É a organização que zela pelos serviços geológicos de África. Toda a informação que produzimos, por exemplo, no âmbito do Plano Nacional de Geologia (Planageo) que ainda está em curso, só poderá constar do mapa geológico, africano através desta organização.

Que outros trabalhos concretos o Igeo já desenvolveu?
Muito trabalho já foi feito. Temos grande acervo geológico do trabalho feito há 100 anos. Temos o mapa geológico do país na escala de 1 por 1 milhão, temos o de um por 2 milhões e temos várias cartas com escalas diferentes. Neste momento, estamos a actualizar alguns mapas já ultrapassados como o da escala de 1 por 100 mil e não tínhamos outros como o de 1 por 50 mil. O país nunca teve. No âmbito do Planageo, temos mapas de radiometria e o de elevação digital que foram feitos pela primeira vez.

O que ilustram esses mapas?
Esses mapas revelam-nos as megas estruturas do país no domínio geológico.

São estruturas que concentram minerais pesados de que o mundo precisa. Se quisermos um mineral básico, já podemos orientar o investidor. Isso quer dizer que fizemos o raio X do país. No hospital, fizemos o raio X para ver os ossos é o mesmo que fazemos com a geofísica. Por exemplo, isso permitiu constatar que o território angolano, na parte leste, está coberto de areais em quase 50%. Olhando nesses dados conseguimos ver áreas com estruturas que concentram cobre. Através dos mapas, podemos notar a ocorrência de recursos minerais básicos e assim, ao invés de procurar empiricamente em qualquer sítio, a informação existente já pode garantir ao investidor onde pode encontrar determinado minério.

Das áreas por que o país está repartido (Norte, Leste, Sul e Sudoeste), qual está mais desenvolvida em termos de levantamento geofísico?
No Sul e Sudoeste já foi feito o levantamento geofísico, no Norte o trabalho está em curso mas, no Leste, a actividade está parada neste momento por constrangimentos financeiros. O levantamento feito no Sul foi para observar o potencial geológico para os materiais de construção e minerais para a indústria transformadora. Estou a falar de rochas ornamentais, areais, por exemplo. De resto, temos 30 folhas de áreas que seleccionamos como potenciais desses recursos. No fim, teremos também a cartografia hidrogeológica que tem que ver com a água, para além do mapa de metais pesados. É informação para atrair investidores. Antigamente, não havia informação para fazer prospecção, hoje já a temos. Por outro lado, o Igeo, no âmbito do Planageo, ganhou infra-estruturas condignas e condições de trabalho. Temos ‘pensólogos’ que estudam a nossa terra e foram construídos três laboratórios no país.

Que laboratórios são estes?
Temos o laboratório geocientíifico em Luanda e os regionais de Saurimo (para atender o Leste) e do Lubango, para o Sul. Nas Lundas, o foco é mais a exploração de diamantes e o laboratório de Saurimo estará especializado para atender às empresas que exploram as pedras brilhantes naquela zona. No Sul, exploram-se mais as rochas ornamentais além de minerais básicos e águas subterrâneas, daí a necessidade desse laboratório. Temos um centro tecnológico de rochas que deve dar mais valor à nossa pedra.

Portanto, os laboratórios dão apoio às empresas que entram na pesquisa, e assim se encurta o tempo de análises às amostras que tinham de ser levadas ao estrangeiro. Isso também reduz os custos operacionais durante a prospecção.

Quanto custa uma análise?
Depende do laboratório. Os custos dependem dos consumíveis entre os quais reagentes. Cada tipo de análise tem o seu preço, mas, de um modo geral, os custos variam entre 12 dólares e 220 dólares. Portanto, com os laboratórios internos deixamos de exportar amostras.

Com os dados existentes, já se sente a entrada de investidores?
Muita. Temos a autorização de promover e disseminar essa informação, por exemplo, em países onde acontecem feiras como Indaba, na África do Sul, na Austrália, no Canadá e como já falei na Organização de Serviços Geológicos de África. Levámos os dados para inserir Angola no mapa único de geologia do continente.

Que investidores de concreto já entraram?
Através da informação do Planageo, temos muitas empresas interessadas no nosso potencial mineiro. Refiro-me a algumas grandes empresas como a Rio Tinto, a Angloamerica, Vedanta, LG e tantas outras incluindo também nacionais. Toda a informação é visível através do site e, por essa via, o investidor escolhe a área em que pretende actuar.

Quanto já se gastou com o Planageo?
Em termos de execução física do Planageo estamos com 66%.

O que isso representa financeiramente?
Financeiramente, estamos em 64%, isto é, 159 milhões de dólares, mas todo o plano está orçado em 405 milhões de dólares. O nosso trabalho é macro e indica às empresas as áreas de ocorrência dos recursos minerais. O nosso país tem nove domínios geológicos. Há áreas que apresentam enorme potencial e ali fazemos um trabalho mais apertado para termos mais informação e reduzir o tempo de prospecção até chegar à mina.

Qual é o percurso para se chegar à mineração?
É muito tempo. Aliás, a prospecção tem cinco fases: reconhecimento, descoberta, depósito, avaliação e recurso. O que pretendemos é reduzir o tempo para pelo menos três anos.

Há alguma explicação particular da opção pelos russos para se fazer o levantamento geológico, em detrimento dos portugueses, por exemplo?
Os russos sempre estiveram em Angola também. Por exemplo, o mapa geológico em uso na escala de 1 por um milhão foi feito por eles.

Antes da Independência, foram os portugueses, mas depois, os russos.

Os sul-africanos também têm essa informação. Todo o trabalho que tem de ser feito tem de ser validado por um ‘competent person’ para dar credibilidade à informação que produzimos.

Isso é para dar confiança aos investidores.

Os portugueses estão então de fora?
Quando o Presidente João Lourenço visitou a Rússia, em 2019, o Igeo assinou um protocolo de cooperação com o Serviço Geológico da Rússia como o objectivo de validar os relatórios finais produzidos no âmbito do Planageo. Porque os russos conhecem a geologia de Angola, muitos são velhos, mas ainda trabalham e são reconhecidos no mundo. Eles vão validar os dados do Sul e Sudoeste do país.

Estamos a pensar nos portugueses para validar os levantamentos feitos no Norte, Noroeste e Leste do país. Portanto, não contamos só com os russos.

E a cooperação com os chineses?
Quando se concebeu o Planageo, houve um concurso internacional e a China, através da Citic, participou e ganhou a parte Norte e Noroeste.

No Sul e Sudoeste estão os espanhóis e portugueses. O Leste ficou com o consórcio brasileiro Costa Negócio.

Muitos participaram, mas são esses que melhor se posicionaram. Além disso, a China tem muita experiência na geologia.

Os chineses montaram os laboratórios, mas ainda não certificados…
O processo de acreditação e certificação do nosso laboratório, inaugurado em 2019, está em curso.

Leva muito tempo?
Não tem tempo. Há procedimentos a cumprir, logo depende. A certificação pode acontecer este ano ou não.

Há ainda quem ponha em causa a fiabilidade dos dados?
O Planageo só mostra o caminho, não a mina. A actividade de prospecção é de muito risco e, para reduzi-lo, investiu-se nesse plano.

O país precisa mesmo de explorar recursos minerais como o petróleo em zonas reservadas como de Okavango/Zambenze?
Nos países evoluídos, extrai-se a riqueza para melhorar a economia, depois é preciso reabilitar a zona de exploração e o ambiente volta à normalidade. Por isso é que temos de evoluir para que assim também aconteça aqui. De resto, o país tem de se desenvolver.

O Okavango é uma zona turística…
Pode conviver actividade mineira dentro dos parques nacionais. Fui um dos directores da Debeers na Namíbia, fiz a sondagem na faixa de Caprivi, onde os animais passam, e convivem com os mineiros.

O essencial é que a mineração não afecte os animais. Logo, pode conviver a mineração e o ambiente. Existe actividade mineira dentro dos parques nacionais.

Insiste-se na mineração, quando o país tem outras riquezas como o sector agrícola?
Temos de saber o que temos no subsolo através da prospecção. Temos de melhorar a nossa economia. O futuro está na mineração.

Mas o petróleo é esgotável?
Temos os minerais do futuro.

Como por exemplo?
Para fabricar baterias dos carros eléctricos precisamos de lítio, o titânio, o cobalto, o níquel, e elementos de terras raras.

Onde temos ocorrências desses recursos em quantidades exploráveis?
O Igeo só mostra o caminho e não os quantifica. Olhando para o levantamento, concluímos que mais de 80% do país tem ocorrência de recursos minerais.

Devo, no entanto, acrescentar que temos uma estrutura geológica no Cunene onde pode haver ferro, níquel e temos outra na Huíla com rochas verdes, onde podemos encontrar ouro. Essa estrutura vai até Cabinda. Há outra que vem da Zâmbia que pode ter cobre e titânio. Outra está no Moxico debaixo das areias, com um potencial de cobre e outros metais básicos. Temos uma estrutura de diamante que começa no Lucapa (Lunda-Norte) passa por Bié e vai até ao Namibe. Há ainda um bloco arcaico entre Moxico e Lunda-Sul. Através do mapa radiométrico, conseguimos ver todas as anomalias com minerais que produzem radiação como o urânio, potássio, plutónio que estarão entre Samba Caju (Kwanza-Norte) e Baixa de Kassanje, em Malanje.

Mas temos de investigar mais para sabermos com maior aproximação, onde estão os 17 elementos químicos das terras raras.

O que está a acontecer no Longonjo (Huambo)?
A exploração de terras raras. Provavelmente aquela pode vir a ser a primeira mina do país de neodímio, um material raro que também entra no fabrico de carros eléctricos e telefones, portanto na indústria electrónica.

Quando será concluído o mapeamento do território através do Planageo?
A covid-19 atrapalhou. Vamos fazer todo o esforço, para concluirmos o plano ainda este ano.

Perfil: UM GEÓLOGO DE GRANDE PROJECÇÃO
Mestre em ciências geológicas na especialidade de geologia e prospecção de minerais não metálicos pela Universidade de Kiev, na Ucrânia, Canga Xaquivuila responde pelo Igeo desde 2018, mas da sua folha de serviço constam passagem pela Endiama e já foi assistente técnico do presidente do grupo de prospecção da De Beers a nível mundial…

Participou em todas as actividades de prospecção feitas pela multinacional sul-africana, desde a fase de reconhecimento até a fase de recursos, especialmente na concessão da Lunda Nordeste, onde finalizou o trabalho de avaliação de recursos do Kimberlito e entregou o processo de reassentamento da vila do Mulepe, num curto período de tempo.

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