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Batalha do Cuito Cuanavale mudou o curso da História

Os países membros da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) comemoram, hoje, o Dia da Libertação da África Austral, data dedicada à Batalha do Cuito Cuanavale (Província do Cuando Cubango), que foi decisiva para o fim do sistema do apartheid na África do Sul.

Ao comemorarem o Dia da Libertação da África Austral, os países da região prestam, igualmente, homenagem aos Chefes de Estado africanos que, directa ou indirectamente, ajudaram na vitória sobre as tropas do regime do apartheid em 1988, no Cuito Cuanavale.

Memorial
O memorial à vitória da Batalha do Cuito Cuanavale é um conjunto de esculturas produzidas à base de metais e de outros materiais de construção especiais. Salta à vista o Monumento da Bandeira postada num edifício de 55 metros de altura e mil metros quadrados de área útil, em formato de uma AKM, revestido de pedras graníticas e elementos em bronze que, a partir da alça de mira, é possível observar toda a panorâmica da vila e do Triângulo do Tumpo.

A fachada principal, equiparada a um prédio de 18 andares, conta, também, com o Monumento do Soldado, retratado por uma escultura gigantesca em bronze, no qual dois militares das extintas FAPLA, redefinidos numa estátua de 21,5 metros de altura e 110 toneladas de peso, erguem bem alto o mapa de Angola, simbolizando a defesa da integridade territorial do país.

No conjunto de esculturas de bronze, num espaço de 50 metros de comprimento, estão gravados os três momentos sequenciais da guerra, nomeadamente a concentração das unidades militares das FAPLA, a caminhada rumo à vitória e as unidades em defesa da vila do Cuito Cuanavale.

A denominada parede dos heróis ocupa uma faixa de 75 metros de comprimento. As esculturas em bronze, ali postadas, simbolizam a homenagem aos militares das FAPLA, a educação patriótica, a guerra, a destruição, o sofrimento do povo do Cuíto Cuanavale, a firmeza e a determinação dos angolanos na vitória.

Ao lado do memorial está o museu a céu aberto, uma exposição de todo o material bélico usado pelas FAPLA durante os combates, com realce para os tanques de guerra BMP-1 e 2, peças de artilharias de 130, D-30 e 76 milímetros, aviões de combate Mig-23 e 21, peças anti-aéreas ZU-23, lança pontes TMM e o anfíbio GSP, metralhadoras do tipo PKM, entre outro tipo de equipamentos militares usados na operação.

“Saudemos Outubro”
Em Junho de 2017 assiste-se àmaior concentração de ho-mens e material de guerra jamais vista na região e cria-se um Posto de Comando Avançado (PCA) no município do Cuito Cuanavale, onde tudo é preparado ao pormenor. Cartas cartográficas, mapas, bússolas, cronómetros, maquetas desenhadas ao solo atarefam as altas patentes das FAPLA.

Armamento moderno, esignadamente blindados BPM-1 e 2, lança-foguetes múltiplos, BM-21 e 24, canhões C-130 mm, D-30 mm, 76 mm, tanques de guerra T-55 e 62 mm, armas anti-aéreas Osaka e CD-10 M, ZGU-23, morteiros 82 e 120 mm, entre outros equipamentos militares eram testados todos os dias com tiro real, para se evitar falhas.

Altas patentes militares, en-tre os quais o então ministro da Defesa Pedro Maria Tonha “Pe-dalé”, o antigo chefe do Estado-Maior General António dos Santos França “Ndalu”, o ex-chefe das Operações Gerais, Roberto Leal Monteiro “Ngongo” e o ex-comandante da Força Aérea, Francisco Afonso Lopes Gonçalves “Hanga” , eram constantemente vistos no Posto de Comando Avançado munidos de instrumentos militares.

A missão era espinhosa e o Posto de Comando Avançado tinha sido confiado ao general Agostinho Fernandes Nelumba “Sanjar” (já falecido), na altura tenente-coronel. Incluía os generais Pedro Sebastião, Mário Plácido Cirilo de Sá (Ita), António Morgado de Azevedo, Mateus Miguel Ângelo (Vietname) e José Domingos Baptista Cordeiro (Ngueto). Na altura todos ostentavam a patente de major. Fazia também parte o major Tobias Domingos, também já falecido.

Avanço das tropas
No dia 15 de Novembro de 1987, uma forte concentração das FAPLA, equipada com material de guerra, deu início a uma operação militar de grande envergadura contra a base central de logística da UNITA na aldeia de Licua (Mavinga) e o seu quartel-general na Jamba (Rivungo), tendo sido impedida pelo exército sul-africano em socorro do movimento do galo negro.

A primeira agrupação de tropas ( integrada pela 16ª e 21ª brigada e o primeiro grupo táctico), era chefiada pelo major José Domingos Baptista Cordeiro (Ngueto) e a segunda agrupação (composta pelas 47ª e 59ª brigadas e pelo segundo grupo táctico ), era coordenado pelo major Tobias Domingos. Ambas avançaram até às margens do rio Lomba, a 21 quilómetros de Mavinga, sem grandes constrangimentos.

Simão Domingos, 56 anos, natural do Cuanza-Norte, conta que durante a Batalha do Cuito Cuanavale ostentava a patente de 1º sargento. Era tanquista de BMP-1, do primeiro grupo táctico. “Durante o avanço até às margens do rio Lomba não tivemos grandes problemas, porque as pequenas bolsas dos guerrilheiros da UNITA não ofereciam resistência”.

“Sabíamos de antemão que o mais difícil estava à frente, porque os nossos grupos de reconhecimento profundo forneceram-nos informações cruciais. Sabíamos como a UNITA tinha posicionado um considerável número de homens fortemente armados na outra margem do rio Lomba, com o propósito de impedir, a todo o custo, a travessia das FAPLA e, consequentemente, o avanço para a sede de Mavinga e Jamba”.

Refere que do Cuito Cuanavale ao rio Lomba houve combates na nascente do rio Chambinga, Cuzumbia e Mupende. As nossas tropas mostraram-se muito animadas pelo desempenho em combate dos BMP-1 e 2, muito rápidos no desdobramento e apanhavam quase sempre de surpresa as forças inimigas, além dos tradicionais T-55, BM-21, AKM, PKM, RP-7 e RPK que transmitiam confiança às FAPLA”, enfatizou.

Domingos conta que a 47ª Brigada de desembarque e assalto contornou a nascente do rio Lomba com o propósito de desferir golpes contra os guerrilheiros da UNITA, para garantir uma travessia do rio sem muitos riscos, mas nos dias subsequentes, enquanto se preparava para tomar de assalto a sede municipal de Mavinga, houve uma alteração radical no campo de batalha.

“À semelhança dos acontecimentos de 1985, o exército sul-africano veio outra vez em socorro dos guerrilheiros da UNITA, colocando no terreno a 61ª Brigada de infantaria motorizada, equipada com tecnologia monitorada por satélite, drones (aviões não tripulados), um Centro de Correcção de Fogo (CCF), canhões de longo alcance G-5 e G-6, tanques Centurion e Oliphant, AML-90, além de aviões de combate do tipo Mirage III, Buccaneer e Impala MK2”.

Na margem direita, à Oeste de Mavinga, prosseguiu, estava a 47ª Brigada das FAPLA, que foi surpreendida com golpes aéreos e de artilharia de longo alcance, seguido de ataque terrestre em todos os flancos. Pouco tempo depois, foi neutralizada parcialmente, tendo parte das tropas se refugiado para outras unidades mais próximas.

Macasso Kissumua, natural do Uíge, com 58 anos, recorda os factos como se fosse hoje. Conta que não foi fácil conter a progressão da 61ª Brigada mecanizada sul-africana, a qual se juntaram dezenas de batalhões regulares e semi-regulares das FALA, braço armado da UNITA. As unidades das FAPLA tiveram que ser astutas, apoiando-se entre si quando uma fosse atacada.

Urinar no boné
Na retirada das FAPLA para o Cuito Cuanavale, as tropas sul-africanas continuaram a encontrar uma forte resistência. Em consequência disso, começaram a utilizar armas proibidas (gás tóxico), para enfraquecer os combatentes das FAPLA. Diante dessa situação, os especialistas da defesa química orientaram os efectivos para que urinassem nos bonés e colocá-los na boca e no nariz para poderem manter a respiração. Era o tudo ou nada.

Quando as unidades das SADF (designação do exército sul-africano) se encontravam a escassos 50 quilómetros do Cuito Cuanavale, atacaram com artilharia de longo alcance G-5 e G-6 a população civil da vila e as unidades e subunidades das FAPLA que se encontravam entrincheiradas na periferia, usando obuses de fragmentação, gás tóxico e espalhando panfletos de propaganda.

Defesa das FAPLA
Forçados a retroceder até à periferia da vila do Cuito Cuanavale, no Tumpo, as FAPLA montaram uma forte linha defensiva, com o apoio da artilharia pesada e conseguiram conter o avanço da 61ª Brigada mecanizada e de centenas de guerrilheiros da UNITA.
O tenente-general António Valeriano, que comandou a 25ª Brigada das FAPLA, disse que a batalha do dia 23 de Março ficará marcada para sempre na sua memória, pela forma e o contexto em que se desenrolou.

“Foi uma guerra de dimensão mundial, não só pelos combates travados, mas sobretudo pela técnica militar utilizada com supremacia dos sul-africanos, que fizeram uso de obuses tóxicos e de fragmentação, lançados através dos canhões de longo alcance G-5 e G-6, além dos tanques Oliphant, Centurion e aviões não tripulados (drones), com os quais procuravam atingir as nossas linhas defensivas e a ponte sobre o rio Cuito”, lembra.

António Valeriano recorda a ordem militar recebida do então comandante das tropas no Cuito Cuanavale, José Baptista Domingos Cordeiro (Ngueto), in memoriam, na altura tenente-coronel. “Na véspera da batalha final orientou que capturasse vivo um katacombe (soldado sul-africano). Tentei fazer isso, mas a intensidade dos combates não me permitiu”, sublinha.

“Tinha o foco no comando táctico das tropas. As bombas caíam com intensidade, ou seja, a 25ª Brigada estava sob fogo cruzado, bem como a população do bairro Samaria, que ficava a cerca 500 metros da nossa posição. Na periferia da sede municipal do Cuito Cuanavale, onde estava o grosso das unidades das FAPLA, este disparavam chuva de projécteis contra as unidades sul-africanas”, observou

Basicamente, referiu, era a hegemonia das duas super-potências mundiais que estava em jogo. “De um lado a Rússia, e do outro os EUA, que tinham grande influência no teatro das operações combativas, tendo em atenção a ideologia política que cada um dos exércitos representava, mas no final prevaleceu a vitória das FAPLA”.

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FonteJA
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