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Um passeio pela poesia cantada

É um fenómeno que acontece também noutras realidades. Em Angola há casos, em número considerável, de poetas que foram musicalizados de modo muito bem sucedido.

A obra poética de Agostinho Neto, nos primórdios da Independência, foi muito aproveitada. E Ruy Mingas foi dos mais felizes em transformar poemas com uma forte carga revolucionária em temas musicais que ficaram no cancioneiro angolano.

Hoje é celebrado o Dia Mundial da Poesia e são muitos os fazedores desta arte, cultores da palavra, que têm visto obras suas adaptadas por músicos ou são mesmo desafiados a escrever especialmente para estes. Os poemas têm ritmo e os músicos traduzem esse ritmo para a linguagem musical.

Neto na música
Em Setembro de 2018, foi feito um inventário da obra de Agostinho Neto na música angolana, onde foi visível o aproveitamento da mesma. Nele encontramos “Renúncia Impossível”, um poema musicalizado por José Kafala. Armando Carvalho, do tempo do movimento da trova e da canção política, transformou o poema “Assim Clamava Esgotado” no famoso “Não Direi Nada”, assim como deu outro ritmo a “Dois Anos de Distância”, um poema em que Agostinho Neto aborda a saudade, o amor e o sentimento de liberdade. Temos também Belita Palma que cantou, na sua linda voz, “Caminho do Mato”.

Mito Gaspar foi mais ousado e optou por traduzir poemas para Kimbundu e, desta forma, combinar com a sua proposta musical assente em misturas rítmicas que juntam ancestralidade e contemporaneidade. Transformou “Havemos de Voltar” e “Renúncia Impossível” nas canções “Hadia Tu Vutuka” e “Eme Nzambi Muenhu”. Com a primeira em 1983 conquistou o Primeiro Festival da Canção Política.

Depois de Ruy Mingas ter dado o seu toque em “Adeus à Hora da Largada”, Dom Caetano fez uma adaptação do mesmo poema para o Kimbundu, versão que, aliás, foi aproveitada por Cidy Daniel. Dom Caetano, que tem um passado de trovador (alguém lembra-se da dupla Dom Caetano e Zeca Sá?) também adaptou musicalmente “Partida para o Contrato”.

Há que mencionar ainda o disco “Vozes Para Nguxi”, produzido pela Fundação Agostinho Neto, sob a coordenação de Matias Damásio, que canta “Um Bouquet de Rosas para Ti”. Nesta obra, encontramos as canções-poemas “Meia-noite na Quitanda”, na voz de Gabriel Tchiema, “Para Enfeitar os Teus Cabelos” na voz de Sandra Cordeiro e “Confiança” por Kanda. Existe ainda um outro trabalho produzido pelo MPLA, baseado na poesia de Agostinho Neto, em que podemos encontrar Kiaku Kiadaff – “Passei a Vida”, Pop Show – “Para Enfeitar os Teus Cabelos”, Sam Mangwana – “Poema Para Todos”, Dodó Miranda – “Um Bouquet de Rosas para Ti”, Beto de Almeida – “Sobre o Seu Sangue”, Acácio Bembe – “Dois Anos de Distância”, Yuri da Cunha – “A Tua Mão Preta” e Margareth do Rosário – “Noite”.

Artistas internacionais não ficaram indiferentes a esse fenómeno. Manu Dibango transformou “Havemos de Voltar” numa memorável música e o guineense Zé Manel, após musicalizar “Voz do Sangue” no álbum “African Citizen” foi galardoado, em 2007, com o Prémio de Melhor Canção Africana nos Estados Unidos, pela Just Plain Folk Music Award, prestigiada instituição de atribuição de prémios de música. A lista de poemas de Agostinho Neto cantados em Angola e no exterior é grande.

A voz-poesia
Seguramente Ruy Mingas é dos artistas angolanos que melhor consegue transformar poemas em músicas. E nesse quesito ele “desbravou” vários autores. Não resistiu à obra poética de Neto e deu outro sentimento a “Adeus à Hora da Largada” e “Quitandeira”.
De Mário António Fernandes de Oliveira apropriou-se de “Morro da Maianga” e o transformou no clássico musical que é hoje. De “Poema da Farra” fez uma música para farrar toda a noite. Já do poeta Viriato da Cruz aproveitou o pregão da avó Ximinha em “Makezu” e, com “Namoro”, faz qualquer um viajar aos romances do antigamente. Também pegou em poemas interventivos como “Monangambé” e “Muimbu Ua Sabalo”, respectivamente de António Jacinto e Mário Pinto de Andrade e, ainda na mesma linha, foi ao Brasil onde, de Solano Trindade, cantou “Negro Está Gemendo”; em Cabo-Verde mexeu em “Mamã Terra” do grande poeta Onésimo Silveira.

Ainda da produção local, angolana, podemos encontrar na obra de Ruy Mingas “Pango Dia Penhi”, de Prata e “Benguela” e “Maracujá”, estes últimos temas musicais baseados na obra do poeta benguelense Ernesto Lara Filho. Não podemos omitir a parceria do ilustre cantor com o não menos ilustre poeta Manuel Rui Monteiro em várias composições, algumas das quais nunca gravadas e só apresentadas em ocasiões especiais.

Terra de poetas
Ruy Mingas não foi o único músico que encontrou matéria-prima nos poetas benguelenses. Waldemar Bastos, no seu álbum de estreia “Estamos Juntos”, também recorreu a Ernesto Lara Filho para o seu hoje bastante notório “Marimbondo” e depois, no disco “Angola Minha Namorada” tomou de empréstimo a Raul David o poema “Nduva”. Duas jovens cantoras, Aline Frazão e Irina Vasconcelos não ficaram indiferentes aos poetas da cidade das Acácias Rubras. Aline registou em disco “Ronda”, de Alda Lara e Irina Vasconcelos, durante um concerto, recriou textos da mesma poetisa. Vumvum Kamusasadi também recorreu à obra de Alda Lara e cantou “Testamento”. E Nelo de Carvalho deu um toque em “Talami Handi” de Gociante Patissa.

Nascido no Chinguar, Aires de Almeida Santos inspirou-se na sua musa do Bairro Benfica, em Benguela, e escreveu “Meu Amor da Rua 11”, que foi aproveitado pelo compositor cabo-verdiano Pedro Rodrigues e a Banda Maravilha lhe deu forma de Semba cadenciado. Da poesia de Viriato da Cruz os músicos não aproveitaram apenas “Namoro” e “Makezu”, que depois de musicalizado tem muitas versões. “Sô Santo”, um interessante retrato social da burguesia angolana-assimilada do período colonial, também faz parte das produções tornadas canções, desta feita na voz de Raul Indipwo, do Duo Ouro Negro. Há uma outra versão cantada deste poema na voz de Armando Carvalho, artista que muito soube mexer com a poesia de Neto.

Tonito Fortunato, compositor respeitado, reconhece a força da métrica de poemas para a música. De Agostinho Neto pegou em “Caminho do Mato”, que resultou numa interpretação de Belita Palma. Um outro feito do irmão mais velho de Jomo Fortunato foi a arte que emprestou ao “Engraxador” de Jofre Rocha. E recorreu ao poeta português Manuel Alegre para cantar “Trova do Vento que Passa”. O Duo Canhoto também tem recorrido a poesias, por exemplo, fizeram de “Cântico Sofrido”, de Chô do Guri o tema musical “Isto Não é um Poema” e de Rosa da Costa cantaram “Nao Me Provoquem”.

Fora do nosso espaço, trazemos o poema “Chamo-me Menino” do poeta guineense Tcheka, que foi apresentado musicalmente pelo seu contemporâneo Manecas Costa, produtor e guitarrista muito ligado à música angolana. Mais tarde, o DJ Dias Rodrigues chamou Micas Cabral para cantar o mesmo poema. Ainda da Guiné-Bissau, a obra poética de Amílcar Cabral é aqui mencionada para fazermos alusão ao poema “Regresso”, conhecido musicalmente como “Mamãe Velha” na voz de Cesária Évora. O português Fausto, que passou parte da vida em Angola, cantou “Flagelados do Vento Leste”, poema conhecidíssimo por toda uma geração de angolanos que o tiveram como leitura obrigatória na antiga 8ª Classe. É de autoria do cabo-verdiano Manuel Lopes.

São vários os temas e poetas que têm sido revisitados pelos músicos, não na quantidade e qualidade exigidas, mas é possível e salutar este intercâmbio. Um nome a reter nestas parcerias é o de Carlos Ferreira “Cassé”, um poeta que tem colaborado com vários músicos, muitas vezes como compositor e outras pela estrutura dos seus textos poéticos aproveitados pelos cantores. Como sempre, estes levantamentos (passeios) são inconclusivos.

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