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A filosofia em África – Luís Kandjimbo

Por razões que se prendem com a qualidade do trabalho realizado em vida pelo escritor e historiador guineense Djibril Tamsir Niane (1932-2021) (na imagem), falecido no passado dia 8 do corrente mês, presto aqui homenagem a este vulto do pensamento histórico africano.

Na qualidade de membro do Comité Científico Internacional da UNESCO, ele teve a responsabilidade de coordenar o volume IV da História Geral de África da UNESCO (África. Do Século XII ao XVI). Por isso, é-me grato reconhecer uma dívida cujo fundamento foi a leitura da sua obra, “Soundiata ou A Epopeia Mandinga”. Trata-se de um trabalho de apropriação dos materiais da tradição oral através dos quais o narrador griot revela, entre outros factos civilizacionais, a implantação do Islão na África Ocidental.

Escritor e historiador guineense Djibril Tamsir Niane (1932-2021).
(DR)

Uma filosofia africana
Ora, no enunciado disjuntivo do ante-título, está subjacente uma resposta que, à luz da teoria dos conjuntos, permite identificar uma filosofia islâmica enquanto parte do continente africano, não podendo ser confundida com a filosofia árabe. Trata-se exactamente da filosofia que se desenvolve no período tratado no volume IV da História Geral de África da UNESCO. Mas, o tópico desta conversa traz igualmente à mesa o comportamento dos intelectuais do renascimento europeu que, a partir de determinado momento, se traduziu na negação da herança islâmica e afastamento relativamente às suas fontes árabes, a que acresceu o silêncio sobre os eruditos africanos e árabes, tendo todos eles deixado de fazer parte da memória cultural europeia. Foi em 1991 e 2002, sucessivamente, que o Conselho da Europa tomou a decisão de reconhecer a contribuição da civilização islâmica, tendo recomendado a inserção de referências expressas nos manuais escolares dos sistemas de educação da Europa.

Como se pode imaginar, os antigos preconceitos contra o Islão estão na origem de manifestações ideológicas contemporâneas. Essa reivindicação do legado filosófico islâmico é bem revelador do que se passa na União Europeia, onde as tradições grega, romana e cristã, tendencialmente, são apresentadas como dominantes e exclusivas. Mas, em contrapartida são ignoradas outras tradições, nomeadamente, a oriental, judaica, africana e islâmica.

Na sua história da filosofia africana do período faraónico, o professor congolês Théophile Obenga apresenta uma proposta de periodização em que o terceiro e quarto períodos, correspondem, respectivamente, à “filosofia magrebina” e às “escolas medievais de Tombuctu (universidade de Sankoré), Gao e Djenné”. É a articulação entre estes dois períodos que permite evitar equívocos como aqueles que consistem em confundir a filosofia árabe com a filosofia islâmica. Na verdade, trata-se de dois períodos da filosofia africana.

Duas décadas após a publicação da referida obra do professor Théophile Obenga, dois representantes da nova geração de filósofos africanos, Ali Benmakhlouf e Souleymane Bachir Diagne, vêm ao debate com a tematização do lugar dos Africanos na história da filosofia islâmica, fazendo lembrar as teses sobre a “tripla herança”, (africana, islâmica e ocidental), defendidas pelo malogrado escritor, filósofo e cientista político queniano Ali Mazrui.
Com o seu conjunto de trabalhos sobre a filosofia islâmica africana, desconstruindo o reducionismo da escritofilia como monopólio do Ocidente, Souleymane Bachir Diagne retoma as palavras de Cheikh Anta Diop, ao afirmar que, quando no século XX o francês Levy-Bruhl falava da “mentalidade primitiva”, os Africanos já tinham andado a discutir os textos de Aristóteles nas suas versões em árabe.

Ao atacar os argumentos de Mamousse Diagne, outro filósofo senegalês, Souleymane Bachir Diagne, considera que antes de reduzir a questão da filosofia africana à de uma “razão oral” africana, é necessário, antes de mais, ter em conta o que foi escrito e ensinado nas disciplinas filosóficas em África, por exemplo, no campo da lógica, na tradição aristotélica.

De resto, os nomes de Platão e Aristóteles eram bem conhecidos em cidades como Tombuktu, antes da implantação da escola de tipo “europeu”. Comparado com os melhores centros de Marrocos e de outras partes do mundo muçulmano, Tombuktu era um dos centros de erudição da filosofia islâmica na África Ocidental de que Ahmad Baba Al Timbukti al Sanhadjî (1556-1627), discípulo do mestre Mohammed Baghayogo, na época detentor de uma biblioteca com 1600 volumes, é uma das figuras cimeiras. Por essa razão, as bibliotecas de Tombuktu tinham sido confiscadas e os livros transportados para Marraquexe. Mas a reputação de Ahmad Baba não foi afectada. Apesar do exílio forçado em Marrocos, continuou a dedicar-se ao estudo e ao ensino.

Em 2015, o filósofo marroquino Ali Benmakhlouf, que prefere a adjectivação de inspiração linguística (árabe) com remissão para o território de origem em detrimento da categorização civilizacional (islâmica), publicou “Pourquoi Lire les Philosophes Arabes” (Para quê Ler Filósofos Árabes?) com o propósito de denunciar a “anonimização”, a omissão das referências históricas e, consequentemente, chamar a atenção para a importância da tradição filosófica árabe na Europa medieval, durante o renascimento europeu. É essa tradição filosófica islâmica a que Benmakhlouf designa como sendo a “tradição da humanidade” que remonta aos clássicos do pensamento árabe al-Kindi, al-Farabi e al-Ghazali. Na Idade Média, outros nomes renovam a filosofia islâmica: Ibn Sina (Avicena), persa; Ibn Rashid (Averroes), árabe andaluz, península ibérica; Ibn Bajja (Avempace), árabe andaluz, península ibérica.

A marginalização
“A Filosofia Africana Pré-colonial em Árabe” é o capítulo III do “Compêndio de Filosofia Africana”, assinado pelo filósofo senegalês Souleymane Bachir Diagne. Ele sublinha a ideia segundo a qual a filosofia islâmica não deve ser entendida como filosofia que provém directamente do Islão. Enquanto disciplina filosófica, tem as suas raízes na tradição grega clássica. É daí que vem a palavra “falsafa” que deriva de “philosophia”. No entanto, os temas tratados têm estreitas conexões com a tradição por ser islâmica.

Quando se lê “Tarikh al-Sudan” de Abd al-Raḥmān al-Saʿdī’s (1596-1656?) e outras narrativas históricas que constituem fontes do período em análise, compreende-se a latitude das relações que as comunidades do Songhay, na África Ocidental, estabeleciam com o maghreb e a península ibérica islâmica. Esse espaço civilizacional que se estende até ao Norte de África, prolonga-se pelo território ibérico, banhado pelo Mediterrâneo e pelo oceano Atlântico. A este respeito é relevante considerar que o comércio trans-sahariano impulsionou igualmente a circulação de livros e manuscritos.

Assim se explica a amplitude da difusão das obras que formam a ossatura da história da filosofia islâmica afro-árabe-hispânica em cuja galeria Ibn Bajja, também conhecido como Avempace, ocupa um lugar cimeiro. Apesar de ter nascido em Zaragoza. Mas as vicissitudes da vida fizeram com que tivesse morrido, por envenenamento, em 1138, na cidade marroquina de Fez. Isto quer dizer que, após a perseguição sofrida em Espanha, passou os últimos anos da sua vida reflexiva em Marrocos. Por isso, o professor Théophile Obenga inscreve-o na lista de filósofos magrebinos, ao lado de Ibn Batuta (Tanger, 1304-1377) e Ibn Khaldun (Tunis,1332-1406).

A marginalização e “anonimização” da filosofia islâmica, a que se refere Ali Benmakhlouf, tem um dos seus arautos entre intelectuais e escritores do renascimento europeu. Destacam-se os seguintes nomes e respectivos pensamentos: “Dificilmente serei persuadido de que algo de bom possa vir da Arábia” (Francesco Petrarca, 1370); “Não se pode encontrar nos gregos tudo o que não seja puro e erudito, que não seja refinado e criado com a maior perspicácia. Mas não se encontrará quase nada nos árabes que não seja rançoso e fétido” (Leonhart Fuchs, 1535); “Acho a opinião de Averróis mais nojenta do que o diabo” (Pietro Pomponazzi, 1503-1504).

No século XIX, o escritor e filósofo francês, Ernest Renan, é outro dos que disseminam sentimentos negativos contra a filosofia islâmica. No prefácio do seu livro, “Averroes et Averroisme”, formula pensamentos que são prova disso: “Sou o primeiro a reconhecer que nós não temos nada ou quase nada a aprender nem com Averróis, nem com os Árabes, nem na Idade Média”.

A “tripla herança” está presente em África. Não há preconceitos. Recorrendo a uma estratégia semelhante a de Ali Benmakhlouf, Souleymane Bachir Diagne identifica os temas relevantes que sempre caracterizaram a filosofia islâmica. Um tema filosófico dominante entre os proeminentes pensadores diz respeito à relação da erudita tradição escrita e da lei do Islão com os costumes, hábitos e moral tradicionais dos povos Africanos.

A diferença entre as abordagens de Ali Benmakhlouf e Souleymane Bachir Diagne reside precisamente no modo como se define a filosofia praticada actualmente por filósofos magrebinos, do Norte de África. Será uma filosofia árabe ou filosofia islâmica?
Neste caso, o elemento civilizacional relevante no processo de categorização filosófica parece ser a religião que constitui o fundamento de um pensamento suportado por sistemas linguísticos. Portanto, pode dizer-se que estamos perante uma filosofia africana islâmica.

* Ensaísta e professor universitário

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FonteJA
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