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Nos EUA houve relatos de efeitos na coagulação do sangue com as vacinas da Pfizer e da Moderna

Parecem ser fenómenos raros, ao nível de um num milhão, que começam a tornar-se visíveis porque estão a ser administradas muitos muitos milhões de doses de vacinas contra a covid-19. O cientista James Bussel estudou-os.

Na Europa foram detectados casos de formação de coágulos sanguíneos e hemorragias em pessoas que tomaram a vacina contra a covid-19 da AstraZeneca e isso levou à suspensão da imunização com esta vacina. Coincidência ou efeito adverso? Espera-se uma resposta nesta quinta-feira da Agência Europeia de Medicamentos (EMA). Mas interessa saber que nos Estados Unidos, com as vacinas da Moderna e da Pfizer-BioNtech, que usam outra tecnologia, foram detectados casos com algumas das mesmas características. A probabilidade de acontecerem, no entanto, é baixíssima.

No universo de cinco milhões de doses da vacina da AstraZeneca administradas na União Europeia, foram detectados pelo menos 30 casos graves de fenómenos trombóticos (formação de coágulos sanguíneos) e hemorragias, causadas por uma diminuição do número de plaquetas, alguns dos quais resultaram em morte, que é o que a EMA está a investigar, para tentar perceber se se há uma relação causal ou se é apenas uma coincidência.

“Um baixo nível de plaquetas e coágulos sanguíneos são coisas aparentemente opostas”, explicou ao PÚBLICO James Bussel, pediatra e hematologista da Faculdade de Medicina Weill Cornell, em Nova Iorque (EUA), que estudou casos de duas dezenas de pessoas que desenvolveram trombocitopenia imune (uma doença caracterizada por um nível muito reduzido de plaquetas) após serem imunizadas com as vacinas da Moderna ou da Pfizer-BioNtech – as duas mais usadas nos Estados Unidos, onde a da AstraZeneca não tem ainda autorização para ser usada.

“Normalmente, se o número de plaquetas ficar demasiado baixo, pode-se ter hemorragias. Mas se há ao mesmo tempo a formação de um coágulo importante, isso é não o esperado. O mais normal seria ver as plaquetas muito baixas e uma hemorragia, ou plaquetas pelo menos normais, e coágulos”, explica James Bussel sobre o inusitado dos casos europeus.

Muito raro
Nos EUA, estudou vários casos a partir da história de um médico de 56 anos de Miami, Gregory Michael, que morreu em Dezembro devido a complicações de trombocitopenia (teve uma hemorragia cerebral) dias depois de ter recebido a vacina da Pfizer-BioNtech. Com uma pesquisa na base de dados do Governo dos EUA onde são registados os efeitos adversos das vacinas, Bussel e a sua equipa encontraram 20 casos semelhantes, relatam num comentário publicado publicado na revista American Journal of Hematology.

“O ponto principal é que é difícil saber se isto está associado à vacinação ou não, porque a incidência não é muito alta”, diz Bussel. “Quando fazemos a aritmética, e isso está no artigo, na verdade há menos casos do que o que seria de esperar normalmente [sem ter havido vacinação]”, afirma o cientista. “Isto não significa que a vacinação não esteja a originar casos de trombocitopenia imune, mas apenas que não podemos distingui-los dos que teriam ocorrido de qualquer forma, por coincidência, depois de a vacina ter sido administrada”, explica James Bussel.

A sua equipa estima, assim, que seja um efeito muito raro: “Diria que a probabilidade é um num milhão”, diz. “Nos ensaios clínicos realizados para as vacinas da Moderna e da Pfizer, que [no total] juntam 74 mil pessoas, não foi detectado, tanto quanto sei”, acrescenta James Bussel. A confirmar-se a sua hipótese, este efeito adverso começaria a ser agora notado porque milhões de pessoas estão a ser vacinadas contra a covid-19.

O cientista norte-americano faz questão de sublinhar que não tem acesso a informação pormenorizada sobre o que se está a passar na União Europeia com a vacina da AstraZeneca. Mas, pelo que tem visto relatado, o problema parece mais grave do que com as vacinas da Moderna e da Pfizer-BioNtech. “É difícil saber, mas parece ser pouco mais frequente, ser mais grave e mais invulgar”, considerou.

Desde logo porque junta dois problemas aparentemente opostos, a formação de coágulos e a redução do número de plaquetas – células que são activadas quando há danos nas paredes de um vaso sanguíneo para aderirem à parede do vaso e formar um tampão, para evitar o derramamento de sangue. As plaquetas interagem com outras proteínas para formar coágulos que tapam a ruptura e, num organismo saudável, esta reacção só vai até certo ponto, até estarem reparados os danos.

Mas alguns medicamentos podem interferir nesse processo – sabe-se que outras vacinas, como as do sarampo, rubéola, gripe, podem diminuir o número de plaquetas. Outros medicamentos aumentam o risco de formação de coágulos. E infecções, tanto bacterianas como virais, podem desencadear doenças que interferem nos processos de coagulação – a própria covid-19 o faz, por isso em alguns casos os médicos administram medicamentos anticoagulantes do sangue aos pacientes.

O problema é identificar quem estaria em risco se tomasse a vacina – porque muitas pessoas não fazem ideia de que sofrem destas doenças do sangue. “Há sintomas que acompanham estes problemas, dores de cabeça, nódoas negras, febre, sangue na urina, mas em princípio o paciente não saberia”, diz James Bussel.

Isto não quer dizer, no entanto, que a opção seja o abandono das vacinas contra a covid-19. “Bom, a covid-19 é muito perigosa, e há outra vaga de doença a acontecer na Europa”, frisa James Bussel. Recorda que estes efeitos são muito raros, e há a possibilidade, pelo menos teórica, de seleccionar uma vacina com efeitos adversos que parecem menos graves. “Estou a inventar isto, mas imaginemos que escolhe entre a vacina da AstraZeneca agora e a da Pfizer ou da Moderna daqui a três meses. Mas os governos é que estão a gerir as escolhas sobre a vacinação”, conclui.

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