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Galvão Branco: “O Estado não é um bom parceiro. O Estado não cumpre”

Em entrevista ao Expansão, o consultor aponta o combate à desigualdade social como o grande desafio do Governo depois da luta contra a corrupção, e defende que a regularização da dívida pública interna é importante para garantir a sobrevivência das empresas que estão nesta fase com grandes dificuldades de liquidez devido ao impacto da pandemia da Covid-19 na economia.

Muito se tem falado ultimamente no desenvolvimento da produção nacional, mas é difícil deixar a petrodependência. Agora estamos a entrar na Zona de Comércio Livre Continental Africana (ZCLCA) quando produzimos muito pouco. Ainda assim faz sentido?

É uma medida politicamente correcta. Mas não temos condições para sermos competitivos neste mercado. Em termos gerais, temos países muito mais competitivos que nós neste grupo. Este mercado vale cerca de 400 milhões de consumidores e nós para alcançarmos o maior número de consumidores temos que ser mais competitivos que países como a África do Sul e outros. Esta é a questão.

Ao contrário, também o mercado angolano vai estar disponível para outros países. Deve haver algumas medidas proteccionistas?

Não devemos. E isto vai-nos obrigar a termos políticas que nos tornem mais competitivos. A adesão está correcta, agora temos que ter noção bem presente o que que somos neste contexto de mercado aberto. Angola tem também contado com financiamentos de países que há poucos anos não apostavam aqui, saindo um pouco daquela cooperação tradicional. Isto é um bom sinal para o País? Estas alianças são pouco sustentadas.

O mercado financeiro hoje não tem fronteiras. Temos que considerar os aspectos que temos que corrigir para deixarmos de ser dependentes do petróleo e precisamos de manter a estabilidade política para termos acesso ao mercado e ir buscar recursos.

A China é de facto um bom parceiro e tem aspectos no País que precisam ainda da colaboração chinesa. Por exemplo, a questão ferroviária e outras. A relação com a China deve funcionar numa lógica de competitividade e eficiência. Temos défice de infraestruturas que os parceiros podem ajudar-nos a ultrapassar.

O País que tem colaborado connosco com modelos económicos e financeiros específicos é a China. Mas esta cooperação financeira com a China já foi mais forte… Acho que a política acaba por interferir negativamente nesta cooperação. A questão política hoje é um ingrediente negativo.

A China tem interesse em vir para Angola, Angola tem interesse em viabilizar estas parcerias. Os ingredientes para melhorar esta relação financeira existem. É preciso ultrapassar a questão política.

Está em curso um programa de privatizações de activos do Estado. Este é o caminho certo para reduzir custos?

Vejo com muita reserva. O PROPRIV está sujeito a determinado tipo de abordagens que não são muito condizentes com certos pressupostos.

Quais?

O propósito de tornar mais eficiente a actividade empresarial destas empresas. Mas nenhum manual de economia diz que as empresas são mais eficientes com gestão privada. A gestão privada por si só não dá eficiência na gestão.

O que é que dá eficiência à gestão?

Naturalmente a forma de gerir, a liderança, o funcionamento do mercado.

E isso pode ser feito por profissionais quer sejam públicos ou privados. Agora, há uma necessidade do Estado se libertar destes activos que se traduzem em encargos orçamentais. Mas assumir como doutrina que a gestão privada é a melhor, é apenas conversa.

E dou um exemplo: Singapura que é um país com crescimento regular, tem a sua economia assente em empresas públicas. Os principais vectores de desenvolvimento económico de Singapura são empresas públicas, mas que são bem geridas. Portanto a questão está na forma de gestão… Sim.

Alguém que me apresente um manual de economia que diga que as empresas para serem eficientes e eficazes têm que ter gestão privada. Eficiência é o que se espera com as fábricas têxteis recuperadas pelo Executivo e passaram agora a ser geridas por empresas privadas.

Não é um processo viável para torná-­las rentáveis?

É um processo que está ajustado ao modelo político. Por exemplo, a África Têxtil já foi viável e era do Estado. Esta fábrica no passado já teve gestores públicos e foi buscar uma empresa internacional que dava assistência técnica. Não é uma questão de mudar do Estado para o privado.

O que se está a fazer é desonerar o Estado em determinados tipos de encargos que têm a ver com a eficácia ou com o risco de gestão delas. Agora, enquanto princípio, não é o facto que passarem para empresas privadas que as fábricas vão ser todas eficientes.

Mas é uma oportunidade?

Como seria se tivessem gestores capazes. Posso pegar essas empresas que foram feitas com recurso a financiamento público e contratar gestores especializados nos países de onde vieram as empresas privadas que vão gerir as fábricas. A gestão é de competência e capacidade das pessoas.

Olhando para os diferentes ângulos, que perspectivas tem da economia angolana actualmente?

A nossa economia está a viver um momento excepcional. Isso não significa que não haja resiliência suficiente a nível empresarial. Mesmo a nível das micro, pequenas empresas que podem estar em constituição.

As empresas têm que estar preparadas para as várias fases do mercado devido a razões internas que a própria natureza impõe para a sua sobrevivência. A actividade empresarial não pressupõe a existência de um espaço de intervenção estável e imutável. Os reflexos que estão a ocorrer a nível da economia têm a ver com um problema de uma pandemia, mas podiam estar relacionados com outro tipo de problemas.

Os operadores que estão no mercado, seja qual for a actividade, têm que estar preparados para produzir com este tipo de situação e disporem de meios e elementos a nível interno para poderem minimizar os efeitos desta situação.

Que meios e elementos devem ser?

Uma situação que é fundamental e crítica, a tesouraria das empresas. As empresas têm que resolver os problemas do seu caixa, têm que dispor de capital de tesouraria de forma a segurar a sua operacionalidade.

 

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