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História: Vamos “beber um Samora”, disse Julius Nyerere a Henry Kissinger

Presidente tanzaniano propôs brinde com vinho a que deu o nome do primeiro Presidente de Moçambique

“Beba um Samora”, foi o convite para um copo de vinho feito pelo então Presidente da Tanzânia Julius Nyerere quando em Abril de 1976 se reuniu em Dar Es Salaam com o então Secretário de Estado Americano Henry Kissinger.

Documentos recentemente divulgados pelo Departamento de Estado revelam os dois estadistas numa atmosfera amigável e jovial quando nesse dia se reuniram para discutir a situação na então Rodésia (hoje Zimbabwe), África do Sul e Namíbia.

Nesse encontro Kissinger declara logo de início que “estou pronto a colocar o poder dos Estados Unidos em apoio à libertação da Rodésia, em termos inconfundíveis, para que Smith (Iam Smith primeiro-ministro da Rodésia) e Vorster (John Vorster primeiro-ministro sul-africano) não possam ter mal entendidos”.

“Eu não gosto de fazer viagens de boa vontade mas gosto de ver resultados e estou disposto a admitir erros do passado”, disse Kissinger acrescentando querer colaborar com África e “trabalhar consigo”.

Depois do Presidente tanzaniano afirmar que “libertação não é suficiente, precisamos de desenvolvimento económico”, Nyerere pede “pressão sobre o regime da Rodésia, pressão sobre Vorster na questão da Namíbia e em último lugar para mudança na África do Sul”.

“Podem não poder dar-nos armas, mas o que é vocês nos podem dar?”, interroga Nyerere ao que Kissinger responde acreditar que “sem governo de maioria não pode haver paz e desenvolvimento africano independente”, para depois avisar que “em casos como Angola onde exércitos estrangeiros estão presentes isso é um problema para nós”.

O Presidente tanzaniano sublinha que “a Rodésia e Namíbia são as nossas prioridades, a África do Sul é mais difícil”, acrescentando que “África compreende a questão colonial mas não compreende totalmente o problema da África do Sul e não pensou bem em como resolvê-lo”.

Kissinger discute depois com o Presidente tanzaniano um discurso que irá fazer em Lusaka na Zâmbia e pede a opinião do presidente sobre o seu plano de apelar aos países vizinhos da Rodésia para encerrarem as suas fronteiras com a então Rodésia.

Julius Nyerere.
(DR)

O interesse de Kissinger em encontrar-se com Samora Machel

Kissinger manifesta depois interesse em encontrar-se com o Presidente moçambicano Samora Machel numa reunião da UNCTAD em Nairobi ao que o Presidente tanzaniano responde que “não posso garantir o presidente mas tenho a certeza que posso organizar pessoal sénior”.

Depois de mais discussões sobre o discurso que Kissinger irá fazer em Lusaka, Nyerere diz a Kissinger que as relações do seu país com Moçambique “são muito amistosas”.

“Não temos o mesmo sistema deles, não lutamos uma guerra de guerrilha, fizemos um pouco de agitação uma coisa muito britânica”, diz Nyerere no meio de risos que depois afirma que os britânicos “não compreendem totalmente o que se passa em Moçambique’.

“Eu também não”, diz Kissinger no meio de risos das duas delegações.

Mas, diz Nyerere, “damo-nos muito bem com eles”.

“Eles respeitam muito os chineses por construirem a Frelimo”, acrescenta Nyerere que depois diz ter discordado dos chineses “na questão de Angola” e “também com a Zâmbia”.

“Foi muito doloroso”, disse o Presidente tanzaniano.

Kissinger insiste em querer encontrar-se com representantes de Moçambique.

“Vou enviar uma mensagem e essa mensagem poderá ser a sua declaração em Lusaka. Vou dizer que devem enviar alguém, o ministro dos negócios estrangeiros”, responde Julius Nyerere.

Samora Machel e Julius Nyerere.
(DR)

Venha um Samora

Depois de terminadas as conversações Nyerere oferece um copo de vinho a Kissinger que recusa.

“Você é um abstémio”, diz Nyerere que acrescenta que “eu também era um abstémio, até à vitória em Moçambique”.

“Nunca lidei com Portugal e não conhecia o vinho português”, recordou o Presidente tanzaniano.

“Depois Samora (Samora Machel Presidente de Moçambique) descobriu quantidades e quantidades de vinho nas caves lá e mandou-as para mim. Por isso vão servir-lhe agora”, insistiu o Presidente tanzaniano no meio de risos, diz a transcrição.

“Desde que Samora me enviou o vinho eu chamo-lhe Samora. Digo sempre: Tragam-me Samora”, disse o Presidente tanzaniano e segundo a transcrição estas palavras foram acompanhadas de risadas.

O documento não diz se Kissinger bebeu ou não um Samora mas diz que Kissinger descreveu o futuro Presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan como “um antigo actor, não sabe o que diz mas diz isso com muita efectividade” ao que alguém na delegação responde:

“Daria um bom embaixador”.

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FonteVoA
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