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Pandemia gera perdas de até 40% em negócios entre China e bloco dos Palop

Algumas empresas que fazem o intercâmbio económico entre a China e o bloco dos países africanos de língua portuguesa divulgam acúmulo de prejuízos. Pandemia gerou retração de 15% nas trocas sino-africanas em 2020.

Nas fotografias que pendurou no escritório de Macau, Charles Shi aparece ao lado de vários líderes africanos. Aperta a mão a George Weah, ex-futebolista e atual Presidente da Libéria, e surge também numa imagem com o estadista moçambicano, Filipe Nyusi.

Até ao início da pandemia, o empresário de Heilongjiang, Norte da China, viajava todos os meses a trabalho para diferentes países africanos onde está a investir há vários anos nas áreas da construção, imobiliária e da energia.

Com a Covid-19 e as ligações aéreas interrompidas, a atividade da “Charlestrong” – empresa que Shi fundou quando se mudou para Macau em 2012 – tem “sentido muitas dificuldades”, como conta diz à DW África. “Os prejuízos da pandemia têm sido incalculáveis”, refere.

“Os nossos projetos estão parados. Os trabalhadores não conseguem ir a África. Dou-lhe um exemplo, em Moçambique, nós temos projetos de construção, habitação e com a moeda a desvalorizar é impossível vender as casas que nós construímos e, neste momento, o Governo está a pensar recolher as casas, vendê-las e eu tive um prejuízo de 40%”, lamenta.

Negócios sofrem perdas
Em Macau, quem também tem sentido uma retração no negócio é a “Perfeição”, empresa liderada por Susana Chow, antiga presidente da Assembleia Legislativa da região administrativa especial chinesa, e que trabalha como intermediária entre empresários chineses e dos Países de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).

Além de acompanhar delegações empresariais ou missões governamentais aos países de interesse, a “Perfeição” presta consultoria e faz estudos de mercado.

Zhou Ting, membro da direção, explica como, em tempos de pandemia, se mantém uma carteira de clientes.

“Por exemplo, há uma empresa africana que quer vender o seu café. Ginga é de Angola. Mas quando as pessoas da Ginga não conseguiram vir cá à China, nós procuramos os importadores de café aqui e usamos por exemplo, a aplicação Zoom para estabelecer um primeiro contacto, para se conhecerem, trocarem informações básicas e, depois, se estiverem interessados, podem fazer negócio”, explica.

O negócio da “Perfeição” sofreu perdas de cerca de 40%.

Zhou Ting acredita que, no pós-crise, a China vai voltar a investir no continente africano. “A capacidade produtiva chinesa é excessiva e [os empresários] querem ir para fora expandir [o negócio].”

Antes da pandemia, o empresário Charles Shi viajava todos os meses a trabalho para diferentes países africanos
(DR)

Descida nas trocas comerciais
Números divulgados pela agência de notícias Xinhua revelam uma descida das trocas comerciais sino-africanas de 208 mil milhões de dólares, em 2019, para 180 mil milhões em 2020.

Já o comércio bilateral entre a China e os países de língua portuguesa atingiu cerca de 120 mil milhões de euros em 2020, representando um decréscimo de três por cento em relação a 2019, segundo dados dos Serviços da Alfândega da China.

Com Angola, o segundo maior parceiro chinês deste grupo – depois do Brasil – o comércio bilateral alcançou cerca de 13,5 mil milhões de euros, menos 35,8% face a 2019.

A PVÁfrica, uma empresa angolana focada em energias renováveis, vai buscar à China 95% dos produtos: baterias, painéis e frigoríficos solares, entre outros equipamentos elétricos.

David Trindade, diretor-geral, admite que a pandemia “foi completamente devastadora para muitos setores”. No entanto, a PVÁfrica “nunca parou de trabalhar”. O maior constrangimento, nota, foi a demora na importação dos produtos.

“A China é a nossa maior fonte. Eu acho que a máquina nunca parou muito de funcionar. Por exemplo, nós temos um fornecedor holandês e o ano passado – para aí de março até junho-, a fábrica deles esteve mesmo fechada, nem sequer faziam entregas, ou seja, isso atrasa logo o processo. Eu acho que a China geriu isso de outra forma, acho que souberam antecipar ou programar isto de forma mais eficiente”, enfatiza David Trindade.

David Trindade, que se assume “apologista das relações pessoais”, costumava visitar fornecedores e feiras na China pelo menos duas vezes por ano. “No nosso setor, temos de nos manter sempre atualizados e tentei sempre nunca perder esse contacto”, nota.

Mas agora os negócios fazem-se, mais do que nunca, atrás de um computador.

“Aqueles encontros que eu fazia anualmente e diretamente com os fornecedores, neste momento é tudo via Zoom e Wechat (rede social chinesa). A conversa nunca deixou de fluir, mas arranjámos outros meios de comunicação”, conta o empresário de Angola.

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FonteDW
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