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Guerra na Síria completa 10 anos sem paz à vista

Após uma década de uma violência inimaginável que provocou uma tragédia humanitária de proporções colossais, que transformaram a guerra na Síria num dos conflitos mais terríveis do começo deste século, os combates diminuíram de intensidade, mas as feridas continuam abertas e não se vislumbra a paz.

No entanto, em 2011, o governo de Bashar al Assad parecia desmoronar, arrastado pela onda da Primavera Árabe, que acabou com várias ditaduras no poder há décadas.

Dez anos depois e após uma vitória de Pirro, Assad, de 55 anos, continua no poder, mas à frente de um país em ruínas, exercendo uma soberania limitada num território fragmentado por potências estrangeiras, sem qualquer perspectiva de reconstrução ou reconciliação.

Em uma década, cerca de 400.000 pessoas morreram, segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH), sediado no Reino Unido e que realiza um incansável trabalho de documentação. A maioria das 117.000 vítimas eram civis.

Metade da população de antes da guerra – 22 milhões de habitantes – fugiu, dando origem ao maior deslocamento provocado por um conflito deste a II Guerra Mundial.

Parte destes sírios vive em acampamentos miseráveis no seu próprio país. Outros, mais de cinco milhões, optaram pelo exílio, expondo-se aos riscos da travessia do Mediterrâneo.

Dirigindo-se às portas da Europa, que resiste a recebê-los, os refugiados influenciam o debate político em vários países.

O poder recorreu às armas para aniquilar os bolsões de resistência, a barris de explosivos atirados do ar em bairros residenciais e a tácticas medievais de sítio para matar de fome os redutos rebeldes.

Nem os hospitais, nem as escolas foram poupados dos bombardeamentos aéreos. Bairros inteiros de Aleppo, antigo centro económico e industrial do país, foram arrasados. Assim como a sua cidade antiga e seus históricos ‘souks’ (mercados árabes), classificados no patrimônio mundial da Unesco.

O caos permitiu a expansão fulgurante de uma das organizações mais sanguinárias da história do jihadismo moderno, o grupo Estado Islâmico, que proclamou em 2014 um “califado” em terras conquistadas entre a Síria e o Iraque.

A repressão sanguinária de protestos pacíficos, a expansão dos jihadistas – catalisada pela libertação em massa de presos filiados à rede Al-Qaeda – militarizaram a revolta, que se tornou mais complexa, com a implicação de vários actores estrangeiros.

A violência desenfreada do EI e a sua capacidade de atrair combatentes da Europa incitaram o medo nos ocidentais, que deixaram de lado o entusiasmo prudente que o levante sírio tinha provocado.

A atenção internacional voltou-se para a luta antijihadista, em detrimento dos rebeldes que combatiam as forças de Assad.

Para defender os seus interesses respectivos, Washington e Teerão enviaram militares à Síria, assim como Turquia ou Rússia, que lançou em 2015 a operação militar mais ambiciosa desde o desmoronamento da União Soviética, insuflando vigor a um governo encurralado.

O ponto de inflexão foi o recuo do presidente americano Barack Obama em 2013, quando renunciou no último minuto aos bombardementos, que muitos sírios esperavam, para fazer respeitar sua “linha vermelha”, depois de um ataque químico horrendo atribuído ao poder sírio.

Num primeiro momento, os adversários de Assad desestabilizaram o seu exército, debilitado pelas deserções. A princípio, estavam os rebeldes – civis que empunhavam armas e os desertores – e depois os grupos islamitas antes da chegada dos jihadistas.

No pior momento, o governo só controlava um quinto do território e os rebeldes estavam às portas de Damasco, o seu reduto.

A intervenção do Irão e do Hezbollah libanês, e sobretudo do exército russo depois ao lado de Assad, mudou completamente o jogo.

Com o apoio crucial da aviação russa e os reforços maciços das milícias enviadas pelo Irão, os apoiantes do governo realizaram uma política de terra arrasada.

Cerco após cerco, cada cidade e cada reduto rebelde foi caindo, transformados em ruínas. Alguns os comparam ao bombardeamento da cidade alemã de Dresden, em 1945.

As imagens de destruição em massa, de crianças mutiladas retiradas dos escombros de casas, escolas e hospitais deram a volta ao mundo. Nas redes sociais, o exército de trolls sírios e russos dizia que se tratavam de cenas filmadas em “estúdios de propaganda”.

Sitiadas durante meses, a cidade de Aleppo e depois a de Guta, a leste, perto de Damasco, foram reconquistadas ao preço de milhares de mortos.

E os rebeldes viam-se obrigados a aceitar acordos de rendição.

Fortalecido por estas vitórias militares, Assad foi categórico numa entrevista à AFP em 2016: a prioridade é a reconquista do conjunto do país, “é um objectivo que tentamos alcançar, sem hesitar”.

Actualmente, as autoridades controlam cerca de dois terços do território, que abrange as principais metrópoles. Mas enormes regiões ainda estão fora do seu controlo.

“Se Assad ainda não controla todo o território, deve-se em grande parte à sua intransigência, ao facto de não ter querido negociar nunca (e) ter querido impor à força um retorno impossível à situação de antes de 2011”, analisa um diplomata ocidental.

Após acumular derrotas, jihadistas e rebeldes foram se trasladando para a região de Idlib (noroeste), seu último grande feudo, onde cerca de três milhões de pessoas vivem sob o jugo dos jihadistas do Hayat Tahrir al-Sham, ex-braço sírio da Al Qaeda.

Desde Março de 2021 vigora uma trégua com o governo, respeitada globalmente.

E uma nova ofensiva de Damasco parece improvável, pois ameaçaria provocar um confronto directo entre Moscovo e Ancara, que se tornaram grandes actores do conflito.

Vizinha à Síria, a Turquia tem 15.000 soldados no norte sírio, onde apoia grupos rebeldes.

No nordeste e no leste, as forças curdas que foram apoiadas por Washington no combate ao EI, controlam enormes regiões ricas em trigo e hidrocarbonetos.

O restante é controlado de facto por turcos, americanos, curdos ou milícias pró-Irão.

Quanto ao EI, cujo “califado” foi apagado do mapa em Março de 2019, vive um ressurgimento após ter se transformado em organização clandestina, realizando ataques sangrentos contra apoiantes do governo e as milícias curdas.

A Síria continua a ser um campo de guerra interposto entre o Irão e Israel, que continua a atacar em solo sírio posições dos grupos pró-iranianos ou do Hezbollah.

As potências estrangeiras “dividem de maneira informal o país em várias zonas de influência”, resume o especialista Fabrice Balanche numa análise.

“As fronteiras são o símbolo da soberania por excelência. O governo apresenta um resultado triste neste nível”, pois só controla 15% das fronteiras, diz.

“A melhor das piores opções que existe hoje é um ponto morto prolongado”, diz a pesquisadora Dareen Khalifa, do International Crisis Group.

Uma melhoria radical nas condições de vida dos sírios seria o início de uma saída do caminho trilhado, afirma num podcast sobre o “conflito congelado”.

Embora o balanço em perdas humanas em 2020 seja o mais baixo desde o início da guerra e os combates tenham diminuído significativamente, a economia está arrasada.

Segundo a ONU, 60% da população síria vive em uma situação de insegurança alimentar. Um relatório recente da ONG World Vision, que apoia os deslocados e refugiados sírios, estima em mais de 1,2 trilhão de dólares o custo económico de 10 anos de guerra.

“A guerra terminou no sentido de que os combates e as batalhas cessaram”, diz à AFP por telefone Hossam, um tradutor de 39 anos que mora em Damasco.

“Mas as nossas feridas continuam abertas. E agora todo mundo sofre com a crise económica. A guerra talvez tenha acabado, mas o sofrimento, não”, acrescenta.

O governo resiste em abrir as portas às organizações internacionais que poderiam ajudar a relançar a economia.

Enquanto isso, os sírios irão às urnas no verão para eleger presidente. No poder desde o ano 2000, Assad deve vencer sem problemas e para exercer mais um mandato.

Mas os jovens, muitos dos quais nem tinham nascido em 2011, vão querer um futuro melhor em cinco ou 10 anos, “perspectivas económicas, liberdade política que o sistema não pode lhes dar se não for reformado”, destaca o embaixador da UE na Síria, Gilles Bertrand.

Mazen Darwiche mantém a fé.

“As grandes mudanças precisam de tempo e sacrifícios. Não se pode dizer se as revoluções em Egipto, Tunísia e Líbia tiveram sucesso ou fracassaram. O mundo árabe está embarcado num processo que acaba de começar”, diz.

“É a primeira revolução da qual participamos. Cometemos muitos erros. Prometemos que faremos melhor da próxima vez”, sublinhou.

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FonteAngop
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