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Escolas devem ter especialistas capazes de realizar o diagnóstico precoce do autismo

Pessoas com Síndrome de Asperger têm dificuldade em “ler” outras pessoas, bem como de reconhecer ou entender os sentimentos e intenções dos outros, e expressar as suas próprias emoções. Torna-se muito difícil para elas a interacção na sociedade.

“É importante que as escolas públicas tenham psicólogos, psicopedagogos e outros especialistas que possam auxiliar o diagnóstico precoce da Síndrome de Asperger, para que seja possível proporcionar à criança com o espectro um melhor acompanhamento e assegurar-lhe boa qualidade de vida”, defendeu, em Luanda, o pedagogo e pós-graduado em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem, Ngangula de Sousa.

Numa breve entrevista ao Jornal de Angola, por ocasião do Dia Internacional da Síndrome de Asperger, assinalado hoje, o psicólogo considerou primordial que as escolas se posicionem como mecanismo de ajuda ao diagnóstico da síndrome de Asperger, por ser o local onde a criança passa a maior parte do tempo e o professor ser uma figura de grande importância na vida da criança na primeira infância.

Para o pedagogo, o diagnóstico da síndrome carece sempre de intervenção de uma equipa multidisciplinar composta por vários especialistas, entre neurocirurgiões, psiquiatras e pedagogos, que juntos podem contribuir para a conclusão de um diagnóstico preciso da criança.

Em relação aos dados da Síndrome em Angola, Ngangula de Sousa disse ser difícil falar do número de crianças afectadas pelo transtorno, na medida em que existem ainda poucos especialistas dedicados ao estudo, e além disso, vem muitas vezes acompanhada com outras comorbidades, como dislexia, discalculia, TDH, o chamado Transtorno de Défice de Atenção e Hiperactividade.

Todas estas comorbidades dificultam o seu diagnóstico ou podem levar a um diagnóstico errado do problema, sublinha Ngangula de Sousa, para quem muitas famílias desconhecem a característica do espectro do autismo e a falta de especialistas dificulta uma estatística precisa em relação aos casos.

“Asperger é a forma mais leve do autismo, uma condição do espectro do autismo caracterizada por dificuldades significativas na interacção social e comunicação não verbal. Manifesta-se por tornar as crianças mais reservadas, introspectivas e com problemas de socialização com outras pessoas”, explicou Ngangula de Sousa, acrescentando que a criança com Asperger tem dificuldades em brincar com os amigos e fala muito pouco.

O especialista assinala factores genéticos ou questões de hereditariedade como as causas na base da síndrome, deixando claro que não são ainda totalmente conhecidos os tais factores, mas já existem muito mais informações que nos levam a pensar que a síndrome seja provocada por um conjunto de factores neurobiológicos, que afectam o desenvolvimento a nível cerebral.

“Na escola, a criança, geralmente durante o intervalo corre, joga à bola, ri e brinca com outras, mas aquela com o espectro do autismo é alguém que fica muito reservado, apresenta dificuldades na expressão facial e procura estar sozinho, brincar com os seus carrinhos e isolar-se das outras crianças”, esclareceu.

Ngangula de Sousa elucidou também que especialistas apontam que a síndrome afecta mais meninos do que meninas, e que cerca de 80 a 85 por cento dos casos são registados em crianças do sexo masculino, dos três aos seis anos de idade.

O especialista aponta outras características do Síndrome de Asperger, entre as quais, a aprendizagem meio lenta em alguns casos, pois o espectro compromete o sistema nervoso central que é responsável pela aprendizagem, sendo que as crianças afectadas precisam ter uma rotina diária, sentar-se sempre na mesma cadeira, estar na mesma posição e o gesto do professor obedecer a uma repetição.

Neste sentido, é necessário que a criança com Asperger seja vista e tratada como normal, pois, apesar de apresentar um processo de aprendizagem mais lento ou com algum comprometimento, é uma criança normal, que com a terapia e acompanhamento pode ter uma vida normal e contribuir para o desenvolvimento da sociedade.

Para tal, Ngangula de Sousa aponta como forma de tratamento e desenvolvimento da fala, interacção e coordenação motora a musicoterapia, o teatro, terapia ocupacional, considerando importante que o trabalho de ajuda seja feito também com os pais que muitas vezes se culpam por terem um filho nessa condição, o que pode levar a desestruturação de muitos relacionamentos.

Testemunho de uma mãe
Angélica Tundavala (nome fictício) tem 38 anos de idade. É mãe de uma criança autista de seis anos e tem no filho o maior tesouro de sua vida. O sentimento intensificou-se muito mais quando descobriu que o filho apresentava comportamentos atípicos, um dos quais, foi a evidente regressão no processo de desenvolvimento da fala.

“Do nada, o meu filho, que já articulava palavras como mamã, papá, e às vezes repetia o que lhe era dito, deixou de falar e não quis socializar com mais ninguém senão com os próprios progenitores”, lembrou.

A inquietude, a falta de sono e a preocupação excessiva tomou-lhe conta de dias e noites. Nada mais era o mesmo, quando Angélica se apercebeu de que algo se passava, o que lhe motivou a fazer pesquisas no Google e a falar com algumas pessoas que podiam ajudar.

“Cedo, meti o miúdo numa creche onde podia ter acompanhamento em terapias e comecei a ir a consultas. De lá para cá, esta tem sido a minha vida”, disse Angélica, lembrando com satisfação que as terapias e acompanhamento permitiram que o seu filho fosse matriculado numa escola normal, apesar de contar com a ajuda de terapeutas de tempo em tempo.

Angélica disse à nossa reportagem que hoje, o seu filho tem apresentado grandes melhorias, a nível da fala, interacção e socialização. Diz sentir-se feliz, porque apesar de tudo, vê o filho a crescer saudável e forte, reconhecendo o lado difícil da situação, que é sempre um misto de alegria e tristezas, por conta de conquistas na evolução cognitiva do filho e tristezas por certas limitações pelas quais o menino passa.

Na opinião de Angélica Tundavala, é necessário haver, no país, escolas públicas com condições para o ingresso de crianças autistas e a existência de mais especialistas no país, para atenderem centenas de crianças que sofrem “intramuros” junto de familiares, muitas vezes, incapazes de dar solução à situação por insuficiência de ordem económica e financeira, mas também pela gritante falta de especialistas.

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