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Vem aí o Lobo Mau – Alexandra Simeão

Somos muitos os que crescemos com o conto infantil O Lobo Mau e os três porquinhos, que relata a existência de um Lobo Mau que vivia na floresta onde moravam os três porquinhos. O porquinho mais velho saía todos os dias para trabalhar, e os seus dois irmãos mais novos, que eram preguiçosos, ficavam a brincar na floresta. E uma das suas brincadeiras preferidas era gritar junto das casas da aldeia “vem aí o Lobo Mau”, deixando a aldeia em alvoroço, enquanto eles se riam da partida que, sistematicamente, pregavam às pessoas crédulas, sabendo que não havia nenhum Lobo Mau a caminho da aldeia, aliás eles nem nunca tinham visto o Lobo Mau.

Até que um dia, brincando distraídos na floresta, os dois porquinhos não repararam que a olhar para eles estava, de facto, o Lobo Mau. Em verdadeiro pânico, gritaram para anunciar que estava ali o Lobo Mau, mas a aldeia ignorou-os por acreditar que era mais uma vez a brincadeira estúpida a que os porquinhos os tinham habituado. E ninguém se mexeu. Então, eles correram para a casa do mais novo que era feita de palha e o Lobo Mau soprou e a palha voou. Trancaram-se na segunda casa que era feita de capim e o Lobo Mau soprou e o capim voou. E, por fim, trancaram-se na casa do irmão mais velho que era feita de tijolo e o Lobo Mau não conseguiu que o seu sopro derrubasse a casa. Foram salvos pela chegada do porquinho mais velho que afugentou o lobo, e os dois porquinhos mais novos aprenderam uma grande lição: a mentira torna-se inimiga de quem a pratica e retira a credibilidade, mesmo quando quem a usou durante anos, diz uma verdade.

Veio-me a lembrança dos três porquinhos pela mesmice do argumento usado pelas autoridades sempre que alguém não concorda. Se olharmos para o histórico das nossas manifestações, em que se destacam as promovidas pelos 15+2, o derradeiro argumento foi que um grupo de jovens munidos de livros e lapiseiras, calçando chinelos, estava a planear uma rebelião para concretizar um golpe de estado e tomar de assalto o Palácio Presidencial. Este argumento foi tão exaltado que serviu de prova para a prisão dos 15+2. Conseguiram agigantar de tal forma a imaginação que até uma brincadeira do Facebook, em que surgiu um suposto governo, serviu para chamarem alguns dos seus integrantes, que nada tinham a ver com a brincadeira, como declarantes. Foi a exacerbação do ridículo. No final da saga, o mundo inteiro percebeu que a montanha tinha parido um rato e nem a peruca da vergonha usada no julgamento foi capaz de esconder a dissonância cognitiva que, de vez em quando, sobressalta os nossos dirigentes.

Recentemente, outros jovens se manifestaram contra o desemprego e foram impedidos de chegar ao Primeiro de Maio, pois havia a informação de que os mesmos pretendiam derrubar a estátua do Dr. Agostinho Neto com as próprias mãos (como Hércules) e à dentada, estátua essa que, por ser considerada pelos detentores da informação um “símbolo nacional”, exigia todas as medidas de força possíveis e imaginárias, matando um inocente que morreu devido a uma “queda aparatosa”, batendo com a “cabeça no lancil”, que estava no meio da estrada. E a montanha voltou a parir um rato.

Sempre que um Sindicato, Ordem, Associação de Estudantes ou grupos de jovens não formalizados protestam sobre qualquer assunto, vêem logo os especialistas, que vivem na sala de espera de qualquer fezada, argumentar que “foram aliciados”, “que são do partido x ou y”, “que representam interesses estrangeiros”, “que pretendem o retorno à guerra ou à insubordinação popular”, conferindo um atestado de menoridade a todos os eleitores que, de forma reiterada, apontam o dedo às causas da dor colectiva. Ainda não usaram este argumento contra a Igreja Católica, mas não faltar muito, tendo em conta a crescente indignação de alguns bispos. E em todas as vezes que isto acontece a montanha pare mais um rato.

Os exemplos são exaustivos e sempre explicados de forma contraditória, atabalhoada e sem o recurso ao contraditório, para que todas as partes sejam ouvidas ou que o assunto possa ser avaliado por instância independente e culminar com um competente a exemplo do que também não aconteceu no Monte Sumi.

Fica claro que, para o MPLA, Angola não tem problemas, que todos os cidadãos comem quatro faustosas refeições por dia e não há fome. Todos os cidadãos em idade escolar estão dentro do sistema de ensino que é competente, universal, gratuito e rigoroso e têm um risonho futuro garantido. Que o sistema nacional de saúde é eficaz, abrangente e capaz de cuidar de todos os doentes deste País e que temos uma das melhores seguranças sociais deste planeta! Fica também provado que não há desemprego, que a água jorra em todas as torneiras e que a energia deixou de ser uma preocupação, por isso podemos pegar fogo aos nossos geradores. O acesso à justiça é universal, e todas as províncias estão em pé de igualdade no que diz respeito ao acesso aos Direitos Humanos, Civis, Políticos e Económicos. Fica assim provado que vivemos no paraíso graças à eficiência da gestão política, económica e social do MPLA, partido que governa Angola há 45 anos, e que todas as críticas, insuficiências, reclamações, petições, greves, manifestações são uma prova provada de reiterada má vontade de um bando de cidadãos insensíveis e manipulados por interesses ocultos que pretendem o retorno à guerra e à divisão do País e que não passam de uns mal-agradecidos, incapazes de reconhecer quão fantástica é a sua miserável vida, permitindo provar a inutilidade de todos os programas de combate à pobreza, porque, afinal, já não temos pobres.

De tantas vezes que já ouvimos esta versão dos factos, depois de termos assistido a uma longa guerra civil cuja existência do exército inimigo, competente e armado de forma contundente, de acordo com os relatos que sempre justificaram a compra de armamento, pois o inimigo era forte, ainda assim nunca conseguiu tomar o poder pela força, ainda insistem na versão dos três porquinhos, quando o que se passa mesmo é a miséria, a dor, o abandono a que a maioria do povo foi encurralada e de onde não consegue sair, por causa da má gestão, da delapidação nojenta do erário e da insensibilidade institucional que continua a priorizar o acessório e que, desta forma, nunca irá conseguir garantir a paz no prato da maioria das famílias angolanas. Angola está dividida e a soberania ameaçada há muito tempo, quando de um lado estão os ricos e do outro estão 30 milhões de pobres.

Nesta altura, a melhor, mais sábia e prudente atitude é o diálogo, a auscultação com concertação, a cedência de espaço para libertar as angústias e colocar os problemas e a assunção das responsabilidades pelo fracasso da construção de um país para todos, apelando à união dos esforços e ao entendimento comum, sem militâncias. O caminho é o da sinceridade, da capacidade de se colocar no lugar do outro, saindo da grandeza do poder, que, como já vimos, a todos pode ser retirado, por mais forte que se considere, desde que incomode ou deixe de ser necessário.

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