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Tunda Mu Njila: Os três D do novo MPLA – Luzia Moniz

«Queremos uma Angola onde os eleitores não sejam surpreendidos com líderes políticos sem escrúpulos, que afinal são cidadãos estrangeiros e, por isso, executam uma agenda política contrária aos interesses de Angola e dos angolanos”.

A citação supracitada consta da reacção do Bureau Político do novo MPLA à indignação generalizada pelos tristemente célebres acontecimentos de Cafunfo, região diamantífera da Lunda, onde 20 manifestantes anti-Governo, segundo activistas, seis de acordo com as autoridades, foram mortos pela Polícia.

O parágrafo citado tem como destinatário Adalberto Costa Júnior, mestiço, actual líder da UNITA, que, durante o exílio político, adquirira nacionalidade portuguesa que, no entanto, renunciou quando se candidatou à liderança do partido do Galo Negro, há dois anos.

Pegando na declaração do novo MPLA, as participantes do programa da TPA “Política no Feminino”, só com gente afecta ao MPLA, deitaram achas na fogueira do racismo atiçada pelo partido no poder.

Em uníssono, o grupo pôs em causa a angolanidade do líder da UNITA e as suas condições para ser candidato à substituição de João Lourenço no Palácio das Colinas de S. José.

Para além da UNITA, de outros partidos na oposição e de activistas, o repugnante “massacre” de Cafunfo mereceu a pronta condenação da Igreja Católica em Angola, nomeadamente da sua Comissão Episcopal de Justiça, Paz e Migrações, que qualificou o sangrento incidente como “acto macabro”.

O coordenador daquela instituição ligada à Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), padre Celestino Epalanga, diz mesmo ser “inadmissível que, em quase 20 anos de paz e depois de um período muito longo de conflitos, o País tivesse de assistir a mais este massacre”.

Alinhando pelo mesmo diapasão, o arcebispo de Saurimo, D. José Manuel Imbamba, no seu “desabafo em voz alta” no Facebook, lamentou o sangue “derramado inutilmente”, questionando se havia necessidade para “tanta violência e desumanidade”.

“Os problemas sociais, de miséria, exclusão e analfabetismo são mais do que evidentes no Leste. Em vez da política dos músculos, não seria mais sensato cultivarmos a política do diálogo para juntos resolvermos e venceríamos as assimetrias sociais gritantes tão notórias?” – questionou.

Em Cabinda, o bispo D. Belmiro Chissengueti também engrossou o coro dos indignados, ao escrever que o sucedido em Cafunfo “é muito grave”, defendendo “investigações independentes para se responsabilizar publicamente os culpados”.

“Este País é grande demais e nele cabemos todos. É muito rico, mas é preciso que se deixe de roubar e se distribua a riqueza mediante a diversificação da economia geradora de empregos. Não podemos continuar neste paradoxo que faz das zonas de exploração de riqueza verdadeiros pântanos de pobre”, atirou.

Também o bispo da Diocese do Luena, Jesus Tirso Blanco, não conseguiu ficar indiferente e foi lapidar: “nada pode justificar esse tipo de execuções sumárias sem crime cometido”.

Enquanto isso, ao tentar justificar o massacre, o comandante-geral da Polícia, Paulo de Almeida, ameaçou políticos, activistas e manifestantes com o aumento da repressão contra todos que, em ano pré-eleitoral, ousarem confrontar o Poder instalado, denunciando fracassos, mazelas e carecas de um partido completamente esgotado e submerso em três D: Desespero, Descrença e Descontrolo.

Desespero, por politicamente as coisas lhe estarem a correr mal e pela sua incapacidade de debelar a instabilidade política para onde arrastou o País, em que cada manifestação contra a sua política acaba em mortes e/ou feridos.

Desespero pelo avanço da oposição, proporcionalmente ao aumento da sua impopularidade e do seu líder, quando as manifestações contra o Governo se espalham pelo País todo e diáspora.

A truculenta e discriminatória declaração do novo MPLA traduz um partido em dificuldades de se adaptar aos novos tempos, preferindo continuar a actuar como se de jure ainda vivesse na ditadura do monopartidarismo. Até a linguagem e metodologia que usa remonta a esse tempo.

Nessa sua cruzada desesperante, o novo MPLA recruta, para a sua defesa, gente sem idoneidade, condenada em tribunais na Europa por crimes diversos, como burla, e transforma algumas participantes do programa “Política no Feminino” em “Quintino Moreira” do comentário político.

Descrença na própria estratégia, bem como na sua capacidade para alterar o actual status quo que tem a fome e a miséria como protagonistas e elementos avaliadores do desempenho do poder e do seu esgotado regime.

Sem trunfo na manga para a jogada eleitoral que se avizinha, ciente de que o selectivo e desacreditado combate à corrupção não serve como bandeira político-eleitoral e com medo de um resultado eleitoral fraco, a descrença funciona como catalisador da desorientação reinante no novo MPLA.

Os actuais inquilinos do “Kremlin” sabem que, para evitar entrarem para a história como coveiros ou pré-coveiros do partido no poder, precisam de ter uma vitória robusta nas próximas eleições, à semelhança do que tem acontecido até aqui.

Sabem que a oposição interna não os perdoará de um eventual e provável enterro partidário.

Com essa descrença na sua própria estratégia, o MPLA de João Lourenço adopta o mesmo método da UNITA de Jonas Savimbi que, na impossibilidade de vencer o adversário, através do civilizado combate de ideias e de programas, usava linguagem xenófoba e racista.

O novo MPLA, ao praticar “bullying racista e xenófobo”, na expressão do seu antigo secretário-geral, Marcolino Moco, fica mais próximo da UNITA do passado recente que envenenava o ambiente político, caluniando o então líder do partido no poder de santomense, estrangeiro, comportamento rejeitado pela maioria dos angolanos.

Descrente, o novo MPLA deixou cair a máscara, hipotecou a urbanidade política, abandonou a sua própria lengalenga de garante da PAZ e da Reconciliação Nacional e, em vez de usar bocas de aluguer do estilo jornabófias e brigadas digitais, como fazia, decidiu sujar directamente as mãos no populismo anti-sistema.

Quando se esperava que o partido membro da internacional socialista pugnasse pela concórdia, o MPLA vem a público fazer um discurso de ódio, provando que faz da intolerância política a sua principal arma.

Forjados no exílio, durante a Luta de Libertação Nacional, os dirigentes do MPLA usaram, muitas vezes, nacionalidades estrangeiras, como argelina, marroquina, congolesa, guineense (Conackry), tanzaniana, cubana e outras para se deslocarem e chamarem a atenção da comunidade internacional para as atrocidades do regime colonial fascista português.

Solidário, o mesmo MPLA atribuiu passaportes angolanos a timorenses da Fretilin, quando o seu país estava ocupado pela Indonésia e a saharaui da Frente Polisário em luta contra Marrocos.

Hoje, transformada em frente oligárquica, centrada na manutenção do poder e na consequente prosperidade económico-financeira, a direcção do MPLA decidiu-se a enveredar por um discurso de extrema-direita que consiste na categorização dos cidadãos, sobretudo dos adversários políticos, em função da sua origem e cor da pele.

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