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História, tradição e governação

Qualquer dirigente africano que se preze deve necessariamente conhecer bem a História do seu país e, por decorrência lógica, a História Geral de África, ainda que, desta última, conheça apenas a síntese evolutiva.

Sem ter consciência e conhecimento do tempo dos nossos ancestrais mais longínquos e do esforço humano que lhes foi exigido na
era colonial sem dividendos para os povos africanos, ninguém no poder constrói com seriedade uma nova era de liberdade e prosperidade.
A razão é muito simples e a resposta foi dada por Yoweri Museveni, quando, numa entrevista onde lhe perguntaram se se sentia confortável ao permanecer tanto tempo no poder, respondeu: “Eu estou a trabalhar para a minha família, os meu filhos e os meus netos”.

O que Museveni e muitos dirigentes do período pós-colonial não conseguiram interiorizar é que cada cidadão africano almeja ter uma vida estável, um bom emprego – a base da estabilidade social e familiar – saúde e educação de qualidade, saneamento básico e participação nos destinos do país. Um dirigente africano não pode desconhecer a matriz histórica fundamental da independência:
a reconversão do estado de subserviência e de pobreza em estado de bem estar e riqueza material da maioria da população.

O desconhecimento desta matriz histórica psíquica do cidadão africano leva o poder a ter de usar constantemente a força repressiva contra a indignação popular.

Porque não adoptar a outra solução, menos fácil, mas, por isso, mesmo, mais assertiva? A solução das condições de vida dos povos. Essa solução passa por um constante e permanente contacto com as massas governadas.

E, creiam-me sinceramente, começa na Escola de base, onde o professor deve interagir com cada pai, mãe ou educador da criança de cada turma. É o Estado, na sua forma mais rudimentar afectiva de representatividade, a tocar no povo. Passa pela administração municipal ou comunal, onde o administrador deve interagir com a Escola e a comunidade, criando espaços de lazer para as crianças em cada quarteirão com 40 famílias.
O mesmo é dizer que o desenvolvimento começa com um olhar sobre as crianças. Essa empatia cria o sentimento de patriotismo assente no homem e não no território, na bandeira ou nos monumentos.
A África venceu o colonialismo, mas infelizmente restou-nos uma noite pós-colonial, assente na Tradição do poder africano.

O poder tradicional não ultrapassou os marcos da monarquia sem castelos nem indústria bélica de ponta como ocorreu na Europa e que foi a base para a sua industrialização e a tecnologia cibernética.

É essa Tradição do Poder, assente nos sobas, mwatas e dikotas à volta do Rei e do seu séquito de mulojis e kimbandas que perdura nos sistemas de governação africanos. Tanto é assim que fomos capazes de reorientar a própria Constituição para um paradigma de jisabu: “o cabrito come onde está amarrado”.

Governar, em África, no século XXI, exige criar um paradigma de poder autêntico, mas contemporâneo. Governar não é assumir as forças da ordem contra o cidadão, como fez o exército chinês na Praça de Tiananmen, em 1989, mas assumir a ordem constitucional a favor do cidadão, salvaguardada pelas forças da ordem. As armas do Estado devem proteger o cidadão e não agredir o cidadão.

Angola é um país oriundo de vários reinos e sob esse prisma talvez nos possamos imaginar um colosso imperial, até porque temos um subsolo riquíssimo e uma terra fértil. Esta realidade multi-étnica e linguística não se coaduna com o centralismo administrativo. Angola, hoje, é Luanda.

O resto do país é mato por desbravar. O capital financeiro não chega ao interior. E o desenvolvimento, as indústrias, as comunicações, a saúde, a educação também não aportam ao interior.

O que nós somos, na grande maioria dos milhões que somos, é uma população a sonhar com melhores dias de vida. E a base desses dias melhores é o TRABALHO por iniciativa própria, ou o EMPREGO condigno, com um salário que dê para viver como um ser humano.

Ora, a maior parte dos espaços de trabalho em Angola é a própria rua, que não assegura o pão nem a reforma, e emprego é o que mais falta. Por tudo isto que aqui se disse, chegaremos facilmente à conclusão que o combate à corrupção não tem valor nem significado, se não for para trazer emprego massivo e urgente em todo o território nacional.

O combate contra a corrupção e as outras políticas públicas em nada resultarão, caso não venham enquadradas num discurso novo, anti-cabritista, que empreste um verdadeiro significado a uma vida conseguida através do trabalho socialmente útil.

É preciso revitalizar o conceito de trabalhar para viver, ou seja, de que o cidadão pode e deve viver só do seu trabalho. Temos de abolir e desvalorizar a tese em voga de que “ninguém fica rico só com o seu trabalho”. E isso deve começar no topo da governação.

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