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Cafunfo reacende polarização e discursos de eliminação do outro

Os incidentes do Cafunfo, que têm dominado a vida política nacional, nos últimos dias, é um excelente caso de estudo para a nossa condição de sociedade polarizada.

Se por algum acaso a Polícia Nacional tivesse disparado contra sete cidadãos que num bairro de Luanda tivessem disparado contra uma esquadra, certamente não teríamos tanta atenção e tantas reacções como as provocadas por Cafunfo.
A morte em si de cidadãos é sempre merecedora de destaque e repulsa, mas com a polarização este caso tem um empolamento forçado pelo momento político e não pelas circunstâncias.
Desde o seu início, o caso Cafunfo foi altamente politizado, sendo mais ou menos evidente que cada grupo político procura instrumentalizar o caso a seu favor. E essa partidarização implicou logo um olhar diferente para a situação ocorrida e para a veracidade da versão pública posta a circular.

Dependendo do lado partidário em que se esteja, Cafunfo foi uma manifestação democrática de denúncia das péssimas condições de vida ou um ataque criminoso contra uma esquadra da Polícia. Dependente do lado em que se esteja, os pormenores têm pesos diferentes.

Para uns, um ataque armado às quatro horas da manhã justifica a legítima defesa da Polícia Nacional, enquanto para outros a tendência secessionista e tentativa de imposição de uma bandeira são detalhes menores perante a fragilidade das condições sociais da população.

Cafunfo demonstrou, com mais clareza, o facto de vivermos numa sociedade profundamente dividida entre oposição e partido no poder, em que tudo é partidarizado e o pacato cidadão não sabe em quem acreditar. As versões e a manipulação dos factos é uma prática corrente entre a oposição e o partido no poder, que usam, ambas, das mesmas “estratégias e tácticas” para vender as suas versões.

Cada uma das partes tem juristas de renome, religiosos, analistas famosos e uma dúzia de influenciadores nas redes sociais disponíveis para fazer uma defesa engajada.

Estamos a viver uma situação dramática em que, literalmente, não possuímos entidades credíveis em quem possamos confiar uma opinião equidistante. São estes os frutos do facto de termos construído uma sociedade sem valores, sem referências e altamente corrupta.

Mesmo os círculos mais conservadores estão hoje corrompidos e deixam muito a desejar em matéria de isenção. Os religiosos, que deveriam ser reservas morais, estão há muito comprometidos. Entre os evangélicos há uma ala pro-Governo sempre disponível a secundar as posições do partido no poder, em contraponto, cresceu na Igreja Católica uma corrente de padres e bispos que são declaradamente da oposição e fazem publicamente gala das suas opções partidárias.

A Igreja, que noutras paragens costuma ser uma entidade acima das lógicas partidárias, em Angola está hoje tão polarizada quanto o resto da sociedade. Não tem condições morais para oferecer equidistância e imparcialidade aos cidadãos.

Analistas, jornalistas e outros segmentos estão um pouco piores. Editores, directores e jornalistas no activo declaram publicamente o seu comprometimento político e, naturalmente, ninguém acredita que tenham condições para serem isentos nas análises e nos trabalhos jornalísticos que fazem.

Os mais velhos, que deveriam ser os “senadores” da Nação, também há muito renunciaram esse estatuto. Não conseguem vir a público sem se despirem das cores partidárias e, por isso, os seus discursos inquinados não chegam a ninguém do outro lado.

É um drama. Não é possível construir país se não se consegue sequer oferecer ao cidadão uma versão isenta dos acontecimentos, se não se conseguem encontrar figuras da sociedade com garantias de um olhar não manchado por cores partidárias, ressentimentos, vinganças, mágoas contra a outra parte.

A estratégia de polarização tem sobretudo a ver com a visão de que o nosso sucesso só é possível com a eliminação/afastamento do outro. Passa por fazer do outro um inimigo. Convencer os cidadãos de que o outro é responsável por todos os males que nos acontecem.

É uma realidade, como prova a nossa História, que descamba irremediavelmente em violência. A luta pelo poder não se faz por via da discussão de ideias e apresentação de propostas para melhorar a vida de todos, mas pela exclusão do outro. Ou nós ou eles, cada um procurando atingir a legitimidade dos adversários através da desqualificação.

A polarização afecta também a busca por soluções para problemas da sociedade, já que impede análises profundas e apontam soluções tão simples como o afastamento e a eliminação do adversário. No nosso caso, essa polarização reacende velhos ódios e discursos divisionistas entre os angolanos.

Os políticos e grupos mais extremistas de ambos os lados estão a alimentar-se do descontentamento e da intolerância para ganhar mais apoio às suas ideias e é daí que sairão as faíscas para a violência.

A ausência de estruturas não partidárias com gente comprometida com o diálogo e com a tolerância coloca o país à mercê dos humores dos políticos, o que num ano pré-eleitoral não nos fazem antever dias pacíficos.

Cafunfo demonstra haver uma certa predisposição da sociedade para alimentar confrontos e grupos polarizados e quem pugne pelo diálogo e tolerância acaba hostilizado, pelo facto dessas opiniões enfraquecerem a bolha de opiniões, notícias, artigos, vídeos e imagens que se destinam a fazer do outro o inimigo perigoso que é preciso eliminar. Não vem, por aí, bons dias para a nossa reconciliação.
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