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Gilberto Simão, das Indústrias Panificadoras: “Há províncias onde o pão é feito só por estrangeiros”

Líder associativo ataca o que chama de cartéis do pão, dominados por estrangeiros. No entanto, ressalva que não é contra os estrangeiros, mas sim contra as políticas que impedem que um angolano possa ter uma padaria. E acredita que isso está a afunilar os produtores nacionais.

Gilberto Simão aponta soluções e alerta que quer evitar o “descontrolo total”, insistindo na “intervenção do Governo”. Defende que os bancos deveriam colaborar, mas só colocam barreiras.

Valor Económico: Que análise faz do sector?

Gilberto Simão: A nossa associação anda na labuta há sete anos e o que identificámos é a falta de disciplina na panificação. Se não houver as mesmas oportunidades de negócio, estaremos condenados a afundar.

O que provoca esse declínio?

Não interessa saber quem está na panificação se é nacional ou estrangeiro. O que defendemos é que se acabe com a concorrência desleal. O estrangeiro chega ao país de ‘pára-quedas’ e traz consigo financiamento, por exemplo, de 100 mil dólares, a um ou dois por cento, mas o nacional, quando vai a um banco, não consegue crédito.

Lá os bancos até agradecem quando lhes pedem dinheiro, aqui é o contrário. É exactamente aí onde reside o problema. O que se pode fazer? Para criarmos um bom ambiente de negócio, temos de ter oportunidades iguais. Até à gestão centralizada da economia, em 1990, o sector da panificação estava a 100% nas mãos de angolanos e funcionava.

Só em Luanda, tínhamos uma central de abastecimento, com três moageiras: Kwaba, Kikolo e Intercomercial Moagens. Tínhamos as importações controladas. Com a ‘senhora liberalização’, entraram os estrangeiros e mataram a nossa indústria. Mas, quando começou a liberalização, a nossa indústria produzia de tudo um pouco: pneus, pilhas, fósforos, sacaria farinha de trigo, portanto, tudo funcionava.

Mas era necessário mudar para outro modelo económico, não?

O que se passou foi o açambarcamento do mercado, através do ‘dumping’ e derrubaram a nossa produção industrial. Foram criadas empresas, todas de cunho nacional e tituladas por altas patentes e governantes, que foram entregues à gestão desses estrangeiros que ‘caíram de pára-quedas’. E assim conseguiram asfixiar a nossa indústria através das importações de baixo custo, ou seja, a nossa produção encareceu e tornou-se insustentável.

Pode esclarecer melhor?

Naquela altura, a nossa Kwaba, por exemplo, vendia o saco de farinha a 3.000 kwanzas. O estrangeiro entrou no negócio para vender o saco a mil kwanzas. Assim, a Kwaba fechou por falta de protecção do Governo. Isso ocorreu com todas as outras unidades de produção em outros sectores. Portanto, não houve controlo, nem disciplina. Logo, como diz um velho adágio, ‘na terra de cego quem tem olho é rei’.

Esse ambiente prevalece?

Se o Governo não toma medidas, nós não vamos resistir. Mas o negócio do pão está há muito perdido para os estrangeiros… Neste momento, com toda a certeza, há províncias onde o pão é na totalidade feito por estrangeiros. Porque, sendo uma coisa tão fácil de fazer?

Depois, vêm alguns dos nossos governantes a justificar que os angolanos são preguiçosos, não gostam de trabalhar, ao contrário dos ‘mamadus’, que trabalham de manhã até à noite. Nós não somos e nunca fomos preguiçosos, o que falta são oportunidades.

Não têm levado essas inquietações ao Governo?

Estou à vontade para falar, porque estou engajado no comércio, na agricultura e na indústria. Neste último sector, tenho pessoas que estão a chorar, porque tinham padarias que funcionavam com 100 a 200 sacos de farinha, por dia, e de repente, passaram para irrisórios 10 sacos. Isso acontece, porque, ao lado da nossa padaria, está um estrangeiro, que, com dinheiro fácil que traz do país de origem, aluga uma mercearia do vizinho, transforma-a numa padaria e passa a comercializar o pão a baixo custo.

Se eu vendia a 25 kwanzas, ele [estrangeiro] passou a 10 kwanzas. Portanto, não é só combater as consequências, é preciso atacar as causas que levaram o angolano a alugar a sua infra-estrutura e o alvará.

A qualidade do pão também é questionável?

Claro, porque ninguém cumpre, não há organização, nem disciplina. Aliás, não é só o pão que não tem os gramas recomendáveis, mas a higiene no fabrico também está em causa e isso é pior.

É conhecido o universo de empresas do sector?

Não controlamos o universo de padarias. Nos outros países isso acontece e os governos têm um parceiro que se chama associação. O governo capacita as associações e é isso que aqui não temos. Quando falamos em capacitação, não é pedir dinheiro do Orçamento Geral do Estado, mas sim a terciarização dos serviços que o Governo pode dar.

De que forma?

Por exemplo, chega um investidor que quer montar uma padaria. Antes de se dirigir ao Ministério da Indústria e Comércio fala com a associação que conhece e tem especialistas com os quais pode trabalhar e, em três dias, tem o alvará em vez de demorar um mês. Quando se fiscaliza uma padaria, se tem condições de higiene, ou não, também a associação devia ser convidada.

Logo, é essa capacitação que queremos e que não está a acontecer. O Governo prefere fazer tudo sozinho.

Mas os vossos apelos têm chegado aos órgãos de decisão política?

Andamos a apelar ao Governo há anos, que, para um investidor abrir uma padaria, deve ter em frente um técnico capacitado com carteira de padeiro.

É fácil e não precisamos de grandes centros de formação para habilitar esses profissionais. Com os nossos associados, médias e grandes empresas podem formar essas pessoas e formalizar a actividade por meio de regulamentos.

Não falta alguma ‘agressividade’ da vossa parte?

Conseguimos reunir toda a documentação e a associação foi legalizada e os estatutos publicados em Diário da República. Tudo feito num mês, mas o problema é que a associação não é tida nem achada, por não ter nada a dar em troca.

O que isso significa?

Por altura da nossa constituição, o saco de farinha estava a 30 mil kwanzas. O que nós fizemos? Fomos aos ministérios e contactámos as grandes empresas grossistas que vendem farinha de trigo para trabalhar connosco, mas ninguém aceitou, porque também sou importador e nessa condição podia trazer o saco de farinha a cinco mil kwanzas, quando no mercado o preço já estava inflaccionado pelo cartel controlado por libaneses.

Não aceitaram, mas, ainda assim, assinámos um acordo com o Ministério do Comércio e conseguimos, com muito esforço, importar, através do Entreposto Aduaneiro de Angola, farinha de trigo que passou a ser comercializada a sete mil kwanzas e assim beneficiamos os nossos associados.

Isso funcionou durante seis meses, portanto, fomos capacitados pelo Governo para apoiar os nossos filiados, mas depois os grandes importadores deram cabo do negócio do Entreposto. Os libaneses, que estavam a vender a 30 mil kwanzas o saco, baixaram para cinco mil kwanzas.

O Entreposto começou a ficar sem clientes, não resistiu e faliu. Agora a lógica é pela redução das importações… Aplaudimos a medida de reduzir as importações. Mas, na importação, se quer destruir o outro, se a tonelada estiver a 300 dólares, pode importar a 200 dólares, falsifica a factura e vende mais barato e, por vezes, não é uma boa farinha, mas como ninguém controla, vende-se mais barato…

Há produção interna capaz de satisfazer o consumo?

Estamos a viver outra vez o mesmo problema. O Governo pensou bem em acabar com as importações e aumentar as taxas de importação, mas estamos com dificuldades novamente. Temos alguma capacidade de produção interna, mas, das três moageiras, a Grandes Moagens não querem nada com a associação. Porquê? É um problema que queremos colocar ao ministro.

Alegam que têm a sua produção já adquirida em 50% e o resto vai para a Angoalissar. Hoje, o angolano não tem dinheiro para comprar grandes quantidades de farinha e fabricar pão. É um problema que queremos colocar ao ministro, porque, quando tentamos comprar, ficamos um mês à espera da mercadoria e o filiado não pode ficar muito tempo à espera.

Além disso, nem sempre nos dão uma margem de lucro. Criámos uma cooperativa, recebemos o dinheiro dos associados e quando vamos ao importador temos problemas. As Grandes Moagens vende a um preço sem margem de manobra.

O caso nunca chegou ao Governo?

Vontade não nos falta, procuramos urgentemente falar com a nova direcção do Ministério, porque só concertando ideias e planos de trabalho, podemos organizar o nosso sector.

Há um mês, telefonei ao senhor ministro da Indústria e Comércio e estamos a aguardar pela audiência. Como é que vemos toneladas da nossa farinha de trigo de produção nacional a serem exportadas para alguns países vizinhos, nomeadamente a República Democrática do Congo e ninguém diz nada.

Com abertura da Zona de Comércio Livre da região e do continente, as coisas podem ficar ainda piores para o nosso lado, porque temos uma estrutura de custos muito elevada. Não estamos contra a projecção dos nossos produtos além-fronteiras, mas tem de ser aqueles que já satisfazem o mercado interno.

A farinha produzida não satisfaz o consumo e quando é exportada é complicado. Alguém tem de pôr mão nisso. E o preço do pão? O preço da farinha está a 20 mil kwanzas. Não é preciso ser economista.

A nossa estrutura de custos, que apresentámos ao Mistério das Finanças, traduz que o pão tem de ter 70 gramas e a farinha deve custar, no máximo, 15 mil kwanzas. Aliás, a 20 mil kwanzas o saco, quem é o angolano que resiste a vender o pão de 70 gramas a 35 kwanzas a grosso e 45 kwanzas a retalho?

O preço do pão tem de estar indexado ao da farinha. Portanto, deve haver intervenção do Governo, porque qualquer dia vai haver uma manifestação. Nós próprios, para sermos constituídos, tivemos de arregimentar os industriais à porta do Ministério para fazer barulho.

Temos de evitar que isso volte a acontecer na base da concertação urgente. Se não houver concertação, pode acontecer um descontrolo total. E… O Governo até agora está protegido por grandes importadores que têm as fileiras do pão. O cartel é produtor, importador, exportador, comerciante e distribuidor.

Ou seja, tem milhares de padarias espalhadas pelo país com trabalhadores expatriados a viverem em péssimas condições como escravos e nem sequer pagam impostos.

Gerem padarias e empregam dois ou três estrangeiros que não têm feriado, doença, nem óbito e vivem nas mesmas instalações, onde fabricam o pão. Tem exemplos? Uma vez, visitei uma padaria numa província e encontrei três estrangeiros cujo salário era pago lá fora, ou seja, no país de origem, e não pagam imposto industrial nem segurança social.

Eu sou angolano, tenho de cumprir o horário de trabalho, pagar impostos, salários e tenho fiscais à perna todos os dias, mas o meu amigo estrangeiro ao lado está numa boa. Tem um cartel que lhe traz a farinha de trigo, fermento e tudo e não tem condições nenhumas.

Isso não se passa apenas nas padarias. Ocorre até no comércio geral onde já não há angolanos a vender óleo, fósforos, sabão, por exemplo. Tudo controlado por eles e é difícil concorrer neste cenário. ‘Perderam as rédeas’, é isso? (Risos). Estamos num sistema de capitalismo selvagem.

O estrangeiro chega ao país de ‘pára-quedas’ e traz consigo financiamento, por exemplo, de 100 mil dólares, a um ou dois por cento, mas o nacional, quando vai a um banco, não consegue crédito.

Lá os bancos até agradecem quando lhes pedem dinheiro, aqui é o contrário. É exactamente aí onde reside o problema. O que se pode fazer? Para criarmos um bom ambiente de negócio, temos de ter oportunidades iguais. Até à gestão centralizada da economia, em 1990, o sector da panificação estava a 100% nas mãos de angolanos e funcionava.

Depois da liberalização da nossa economia é como dizia o saudoso Presidente Agostinho Neto: ‘Angola tornou-se num corpo inerte onde cada abutre vem debicar o seu pedaço’. Só assim se compreende o estado em que nos encontramos. O único sistema em que de facto os angolanos eram os verdadeiros donos da economia era o sistema produção e de gestão centralizadas. Um regresso ao passado…

Exactamente! Tenho muitas saudades daquele tempo. Voltemos à formação. Disse que, no sector, a formação ‘não rouba tempo nem espaço’… No nosso sector de produção, não precisamos de técnicos superiores.

Para fazer pão, não é preciso ter técnicos superiores. Se o senhor quiser montar uma padaria, em três meses posso formar um quadro. Fazer pão é fácil, o que se precisa são apenas instrumentos legais que sejam respeitados por nacionais e estrangeiros.

PRODESI BOM, MAS…

Como olha para as soluções económicas do Governo?

O Governo foi feliz ao conceber um bom programa que se chama Prodesi, criou um programa de apoio ao crédito, mas, simplesmente, peca na implementação, porque arranjou um interlocutor chamado banca e pôs as empresas a negociar directamente com os bancos. Isso está errado.

Os bancos não servem?

Os bancos são necessários, têm de intervir, mas é preciso criar uma nova pirâmide em que aparecem o Governo, os bancos, mas sobretudo as cooperativas de crédito. No Brasil, visitei cooperativas com um milhão de filiados que conseguem reunir 50 a 100 milhões de dólares.

Se tiver um milhão de filiados e pedir uma jóia de 50 dólares, terá à vontade 50 milhões de dólares e, com esse dinheiro, já se pode negociar com um banco qualquer. É isso que nós queremos. Depois temos de ter cooperativas polivalentes que prestem assistência às bases que são as micro e pequenas empresas.

Estas não devem negociar directamente com os bancos. No nosso caso, quando lá vão, deparam-se com uma rocha, ou seja, com 30 requisitos e assim nada conseguem, morrem ali.

As cooperativas são, portanto, a solução? Precisamente. As associações devem mobilizar cooperativas de crédito que negoceiam com os bancos, mas não financiam directamente a micro empresa, esse papel é da cooperativa polivalente.

Esta garante assistência técnica, ou seja ajuda na elaboração de projectos, desmatação de terreno, correcção dos solos, terraplanagem, sementeira e colheita. Portanto, a cooperativa polivalente deve ter agrónomos e meios como tractores para dar assistência a essas empresas.

É essa nova dinâmica de apoio que o Governo devia ter agora no início do ano para evitar o colapso.

E esse conselho pode ser acatado?

Os bancos têm características próprias, foram criados para ganhar dinheiro e quanto mais dinheiro melhor. Uma cooperativa de crédito não é para ganhar dinheiro, o seu objectivo não é o lucro, mas a solidariedade mútua. Fala-se muito numa agricultura que não acontece…

Temos empresas com processos em mãos há um ano porque são muitos os documentos que lhes solicitam. Temos associados com currículo, mas não têm bilhete de identidade. Então ali deve actuar a cooperativa para ajudar esse ente. Mas os promotores destas iniciativas devem viver na área de produção.

O requisito que deve haver é que o promotor de um projecto tem de ter currículo e com residência fixa no campo. E, através da associação, recebe formação para gerir o financiamento que receba.

Se isso funcionar, em vez de fechar, vão abrir mais empresas. Mas, se tivermos as micro e pequenas empresas a ir directamente aos bancos, devemos esquecer o crescimento económico de que se fala por via da agricultura. Aliás, reitero, os bancos querem dinheiro.

Se eu tiver 100 mil dólares e pedir um financiamento de 200 mil dólares, o banco larga imediatamente. E qual é o angolano que, neste momento, tem 100 mil dólares?

PERFIL GILBERTO SIMÃO:

“Os pais lutaram pelo
MPLA e eu nasci e cresci no MPLA”, começa por se definir Gilberto Simão que tem
o ‘umbigo’ enterrado no Cuanza-Norte, onde também preside à associação de empresários locais. Com a perda do pai e do avô, que seria preso pela PIDE, então, na altura, já com o curso geral de comércio, começou a trabalhar, aos 16 anos, em 1971, em Luanda.
Por concurso público, entrou para o Banco de Crédito Comercial e Industrial. Economista, formado ela Universidade Agostinho Neto, Gilberto Simão viria a ser chamado, em 1979, a dirigir a Fibrex, em Viana. “Quando assumi a direcção da fábrica, havia apenas 20 trabalhadores.
Deixei-a com 200 operários e com uma produção a substituir 50% das importações em termos de tubos de pvc, sacaria, entre outros.
A produção caiu, quando entraram os ‘pára-quedistas’”, lembra o gestor visivelmente agastado, mas considera que “quando falamos não estamos contra os estrangeiros, mas contra o ambiente de negócios que não é bom”.
“Se reparar, as grandes fábricas nos pólos industriais estão a ser adquiridas ou por ‘marimbondos’, ou por estrangeiros, porque nós não temos dinheiro e os bancos não emprestam”, remata.

 

 

 

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