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Angola perde 3 milhões de dólares nos mangais

A República de Angola perde, aproximadamente, três milhões de dólares norte-americanos (USD) por ano, como resultado da degradação dos mangais, de acordo com especialistas ambientais.

Apesar do engajamento do Projecto Otchiva no processo de reflorestação da zona, o país observa degradação progressiva dos mangais, causando a fragmentação e redução deste ecossistema, fundamental para a adaptação e mitigação das alterações climáticas.

Estimativas apontam para a existência de 50 hectares degradados de mangais em todo o território nacional, sendo que, de acordo com especialistas no ramo ambiental, um hectare de mangais conservado é capaz de movimentar cerca de 57 mil dólares/ano.

Dados das Nações Unidas indicam que cada hectare conservado é capaz de produzir até 11 mil quilogramas de marisco e 4,5 mil quilogramas de pescado diverso, que bem explorados podiam ser importantes fontes de receitas para o Orçamento Geral do Estado.

Não é por acaso que ambientalistas apontam os mangais como altamente produtivos e importantes para a acumulação de nutrientes nas águas costeiras, sendo locais com matérias orgânicas com impacto, capazes de fazer prosperar a flora e a fauna existentes.

Fornecedores de muitos serviços de ecossistemas, como a protecção costeira contra ciclones, contenção da erosão costeira e das margens dos rios, ajudam a estabilizar os sedimentos e absorver os poluentes.

De igual modo, os mangais actuam na manutenção e regulação do clima, servindo de suporte da cadeia alimentar e de viveiros para muitas espécies de peixes e invertebrados.

Da exploração correcta e eficiente dos mangais podem resultar, em particular, a produção de lenha, colheita de mariscos, produtos medicinais, estacas para habitação, madeira e produtos artesanais, suportando as economias rurais e o ecoturismo.

Segundo a coordenadora do projecto de protecção de mangais “OTCHIVA”, Fernanda Renée Samuel, a redução significativa deste tipo de ecossistema no país propicia cenários climáticos preocupantes, como o aumento de cheias, temperatura e inundações, além do declínio das cadeias tróficas e a diminuição das espécies terrestres e marinhas.

Por conta deste cenário, em Luanda, onde o crescimento económico é acentuado e a protecção ambiental diminuta, regista-se a vulnerabilidade costeira, alterações climáticas e a perda da biodiversidade, como peixes, crustáceos, aves e outras espécies.

Fernanda Renée Samuel explica que a zona costeira nacional é caracterizada por entulhos, esgotos da cidade, poluição com resíduos sólidos e líquidos, derramamentos de petróleo, entre outros químicos, alertando para o facto de a sua destruição pôr em causa a biodiversidade e a subsistência das comunidades dependentes dos mangais para a exploração de crustáceos e outros moluscos.

Nos últimos meses, adianta, a situação dos mangais a nível da orla costeira angolana tem sido preocupante, devido às actividades que afectam esse ecossistema como a construção de infra-estruturas nas províncias de Benguela, Zaire, Cuanza Sul e Luanda.

“São várias as zonas de mangais que estão ocupadas para instalações de futuros projectos imobiliários e, na base disto, está a falta de sensibilidade. Por isso, é preciso continuar a educar, sensibilizar sobre a grande importância não só dos mangais, como de outras zonas húmidas em geral”, refere.

Com uma zona costeira que se estende até mil e 650 quilómetros, voltados para o Oceano Atlântico, Angola tem uma área de mangais que representam cerca de 0,5 por cento da fitocenose total, com aproximadamente mil e 250 quilómetros quadrados.

A maior extensão de mangais em Angola encontra-se na margem Sul da foz do rio Zaire. É uma faixa contínua de mangais com 35 quilómetros de comprimento e uma largura de 13 quilómetros, cobrindo cerca de 27 mil e 300 hectares.

Os mangais também estão ao longo do litoral Baía do Mussulo, em Luanda, que é protegida da influência do mar aberto pela Restinga das Palmeirinhas. A sul da Baía do Mussulo, os mangais aparecem nas fozes dos rios Cuanza, Longa, Cuvo e Balombo.

A formação de mangais na foz do rio Catumbela, entre Lobito e Benguela, marca o limite meridional da sua ocorrência na costa do Oeste Africano.

Segundo a Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO), terão desaparecido de Angola, entre 1980 e 2006, cerca de 37 por cento de hectares em áreas de mangal, devido ao crescimento económico acentuado e a protecção ambiental diminuta. Entretanto, nem tudo são más notícias nos mangais.

A campanha de reflorestação de mangais, realizada pelo projecto Otchiva, já começou a produzir resultados, com destaque para o regresso de dezenas de flamingos, na zona dos Ramiros, em Luanda.

A par dos flamingos, também ressurgem os pelicanos, aves migratórias, depois de serem restaurados vários hectares de mangais, que estavam na iminência da desertificação.

Hoje, já é possível vislumbrar essas aves, especificamente, à entrada da Ilha do Mussulo, embora ainda se desconheçam os números reais da sua população.

Conquanto, o projecto de preservação dos mangais, que conta com a parceria da Escola ADPP, responsável por ministrar acções de formação, ainda está longe das metas.

Segundo Fernanda Renée Samuel, há muito a ser feito no campo ambiental, já que ainda se divisa a coabitação entre lixo, água e mangais, pondo em risco o repovoamento dos flamingos, em especial na comunidade do Buraco, nos Ramiros.

Factos como esses levam o projecto Otchiva a desencadear, cada vez mais, campanhas de consciencialização dos cidadãos locais, porquanto os mangais são também responsáveis pela restauração dos solos e refresco das águas.

Em países como o Quénia, por exemplo, os mangais são utilizados de modo sustentável, compatível com a presença contínua de zonas húmidas, exercendo as funções de serviços hidrológicos, ecológicos, sociais e económicos.

Protecção dos mangais

Para a protecção dos mangais, Fernanda Renée Samuel apela ao poder político no sentido da necessidade de maior intervenção, e considera imperiosa a implementação de uma lei que proteja essa planta, pela sua importância biológica, económica e social.

“É importante que haja políticas integradoras e eficientes que envolvem todos os parceiros, instituições ligadas à biodiversidade, ONG, escolas, comunidades autóctones e amigas do ambiente”, assevera.

A par disto, o Projecto Otchiva, que começou há dois anos em Benguela, actualmente já está em três cidades do país, nomeadamente Lobito (Benguela), Soyo, na província do Zaire, e em Luanda.

Na cidade capital do país, os mangais estão no Benfica, Ramiros e na Península do Mussulo, onde o Projecto Otchiva e seus voluntários já conseguiram reflorestar aproximadamente 100 mil mangas, durante o ano passado.

No âmbito da promoção e conservação deste ecossistema, que acolhe 80 por cento da vida marinha, aves migratórias e abundante vegetação, o projecto sensibiliza ainda as comunidades sobre os benefícios da compensação de carbono.

A sensibilização vai ainda no sentido da busca de recursos e procedimentos capazes de reduzir ou até mesmo neutralizar a emissão de gases de efeito estufa, empresas e países de todo o mundo investem na chamada “compensação de carbono”.

Comunidades dependem dos mangais

Dos mangais dependem a sobrevivência de muitas comunidades de pescadores, que vão a estes espaços para procederem a recolher de peixes, crustáceos e moluscos. Segundo Laurinda Pascoal, colectora de crustáceos há 12 anos, na zona do Benfica, os mangais têm sido a única fonte de rendimento para a sua família, uma vez que é através delas que consegue pagar as propinas das filhas.

“Nesta actividade consigo comprar comida, pagar luz, água e fazer pequena poupança”, refere, afirmando que tem participado nas campanhas de reflorestação e limpeza na zona dos mangais, no Benfica, e de combate ao desmatamento dos mangais”, diz.

São jovens, mulheres, crianças e velhos pescadores que aí encontram oportunidade de emprego e sustento, razão pela qual o Projecto Otchiva aconselha e realização de acompanhas nas comunidades, a fim de a exploração ser feita de forma sustentável.

Conforme Fernanda Renée Samuel, na província do Zaire algumas comunidades que também dependem da recolha de crustáceos foram consciencializadas a preservar os mangais, fonte da sua alimentação, já que os mesmos estão no nível alto de degradação.

“O projecto cinge-se na promoção de acções de educação e sensibilização sobre a importância dos mangais, bem como campanhas de limpeza, reflorestamento e investigação científica”, assevera.

Dados do projecto Otchiva referem que mais de 779 mil mangas, cerca de mil hectares, foram restaurados desde 2016, tendo sido retirados cerca de 60 toneladas de lixo.

O projecto, explica a mentora, tem parceria da empresa AmbiReciclo, uma startup que promove a economia verde, que recicla os resíduos sólidos retirados dos mangas.

Fernanda Renée Samuel esclarece ainda que, a nível das comunidades, as pessoas têm sido imponderadas no sentido de fazer melhor uso de pneus abandonados nas zonas de mangais, bem como o reaproveitamento do óleo de cozinha para fazer sabão, uma vez que esse produto tem poluído essas zonas costeiras, afectando a biodiversidade.

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FonteANGOP
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