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O feiticeiro, o feitiço, os Katangueses e os Kamanyola… – Lukamba Gato

Tinha eu 21 anos de idade em 1975, quando depois do meu treino militar em Massivi, no Leste de Angola, fui enviado para Kambandua, uma comuna do município do Kuito que se situa a pouco mais de 50km da cidade do Kuito.

Na Kambadua estava estacionado um batalhão da Divisão de Infataria ligeira Kamanyola da República do Zaire de Mobuto Sese Seko e eu era o oficial de ligação.
Aquela famosa Divisão Militar foi treinada por instrutores da Corea do Norte e foi considerada durante anos como a unidade de elite das Forças Armadas do Zaire.

Foi também essa unidade que em 1978 teve de fazer face ao ataque perpetrado no Shaba/Katanga por ex-gendarmes Katangueses da Frente de Libertação Nacional do Congo, FLNC, sob o comando de Nathaniel Mbumba com o apoio das FAPLA de Agostinho Neto durante o tempo do MPLA/ partido Estado.
É importante esclarecer que os gendarmes katangueses, refugiaram-se em Angola no principio dos anos 60 como resultado das refregas que se seguiram à tentativa de secessão do Katanga, protagonizada por Moïse Tshombé.

Essas unidades foram usadas pelos portugueses na luta contra os movimentos de libertação de Angola. Uma vez terminada a guerra colonial, os gendarmes Katangueses foram colocados pela tropa portuguesa ao serviço das FAPLA. Pouco foi escrito sobre esta matéria mas eu lembro-me claramente de ter havido renhidos combates pelo controlo do Luso, hoje Luena, em que as unidades mais fortes foram os Katangueses, conforme pode explicar o camarada Alcides Sakala que tendo feito a sua formação militar na Arusha military Academy na Tanzania, teve de reforçar a Frente Leste que tinha as forças Katanguesas como “vedetas”.

Foram esses mesmos Katangueses que em 1978 foram enviados para desestabilizar o Zaire de Mobuto, conforme narrado acima.
Mas eu quis falar de um episódio que me marcou profundamente lá na comuna de Kambandua no longínquo ano de 1975.

Estando eu como oficial de ligação e responsável político daquela área, passei a ser igualmente o principal interlocutor das autoridades tradicionais e dos sekulo.
Houve um grande problema de feitiçaria numa aldeia próxima, acho ser a aldeia de Ndele. Então aconteceu o julgamento e condenação do presumível culpado que segundo narrações, teria confessado a autoria de uma dezena de mortes na aldeia.

A sentença foi inclemente: pena de morte!
Um grupo de anciãos da aldeia acompanhou o soma para poderem depôr diante de um jovem de 21 anos, a favor da eliminação física do condenado e automaticamente proscrito da comunidade.
Trouxeram como provas dos crimes, uma séries de artefactos que tinham de facto formas, cores e odores pouco comuns e em certa medida intimidatórios…
“Este feiticeiro já não pode regressar à aldeia.” Declararam peremptórios os mais velhos.

“Trouxemos para que ele seja executado aqui no quartel.”
Eu respondi favoravelmente ao pedido dos mais velhos mas coloquei uma condição:
Vamos agora queimar todo o “feitiço” que me trouxeram, os mais velhos passam a noite aqui na Administração para vermos de manhã o que acontecerá ao “feiticeiro” depois de queimado e destruído todo o seu poder. Os mais velhos aceitaram a minha proposta.

Isolamos o “condenado” e criamos as melhores condições possíveis para alojar e alimentar todos, incluindo o condenado.
De manhã reuni todos e mandamos chamar o proscrito que estava em plena forma e bem descontraído, igual a si próprio.

Depois de visto, os mais velhos decidiram regressar à aldeia, não sem reforçar o seu desejo de ver eliminado o feiticeiro.
Tive depois uma conversa mais serena com o homem que me deixou ainda mais confuso com as explicações que me foi dando. Fiquei sem saber o que era um feiticeiro e o que era o feitiço.
Mantivemos o homem sob o nosso controlo sem medidas rígidas para a sua detenção.

Passada uma semana, mais ou menos, o meu ajudante de campo vem ver-me para comunicar a presença na unidade de autoridades tradicionais. Eu pensei logo no nosso preso.

Recebi os mais velhos que começaram logo por dizer:
“Afinal houve precipitação no julgamento da pessoa que trouxemos na semana passada. Aquele não era o feiticeiro. Agora é que encontramos o verdadeiro onganga. Aquele era inocente. Não sabemos se já foi executado ou não…

Eu apenas respondi: eu sabia que os mais velhos voltariam a falar comigo sobre o Kapitango. Ele está aí e goza de boa saúde e até recebeu roupa nova e tinha direito, todos dias, a banho no Rio. Ele está aí à vossa espera.

O Kapitango regressou assim são e salvo à sua comunidade.
Posteriormente veio visitar-me na companhia da sua família. Trouxeram-me como presente, um cabrito, fuba e uma cabeça contendo mel para o “mais velho” (de 21 anos) fazer ovingundu (hidromel).

Moral da história:
Nunca tomar decisão a quente. A noite é boa conselheira. Não dar soluções simples a problemas complexos.

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