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Angola e a sua Juventude

Se tivesse que eleger as palavras-chave de 2020, em Angola seriam covid-19, água, juventude e manifestações. Este foi um ano fértil em diferentes domínios e, de entre eles, o das “descobertas”, de que daremos conta de uma delas, nas linhas que se seguem.

Que Angola tem 47,3% de indivíduos com idades compreendidas entre os 0 e os 14 anos, 18,2% entre os 15 e os 24, 32,2% entre os 25 e os 64 anos e 2,4% com 65 ou mais anos (segundo o censo de 2014), já se sabia.

Que em Angola existe um ministério “vocacionado” para a maioria da população e que muito se fala desses que constituem a maioria, também já se sabia. Eis que, subitamente, parece ter-se “(re) descoberto” que Angola não somente tem jovens como tem, também, (uma) juventude – veremos a razão mais adiante. Falta “descobrir” que tem juventudes, no plural.

A literatura sobre os jovens, sobre a juventude é, felizmente, numerosa. De entre essa extensa literatura, para esta crónica destaco Bourdieu, para quem a juventude não passa de uma palavra. Será assim? Sim. E não. É uma palavra, sim, que só tem significado por ter sido ou ser atribuído por nós, enquanto indivíduos.

E não é apenas uma palavra, precisamente pelo significado que lhe é atribuído, pelo uso que dela se faz. Trata-se (a juventude) de uma categoria socialmente construída, fluida, que tem na idade (tal como a velhice e outras), nomeadamente na cronológica, a sua matriz.

A propósito das idades e do seu uso (o que nos reenvia para a sua subjectividade), diz ainda Bourdieu que «quando o sentido dos “limites se perde”, vê-se aparecer os conflitos a respeito dos limites de idade, dos limites entre as idades, que têm como objecto de disputa a transmissão do poder e dos privilégios entre as gerações» [i]. E perguntar-se-á: quererá isso dizer que a questão das categorizações (juventude vs velhice) será uma (mera) questão de poder?

Como Bourdieu, poder-se-á entender a actualidade angolana como estando em jogo uma luta pelo poder travestida de conflito geracional? Na ausência de estudos, fiquemo-nos pelas perguntas, mas vejamos, então, como a (re) descoberta da juventude está a agitar a política nacional.

Grupos, associações, encontros, reuniões, a juventude nunca esteve tão em alta como agora. E tudo isso por causa das manifestações. Manifestações protagonizadas por jovens. Quem são esses jovens? Não sei, excepto que se apresentam como activistas – e sei-o a partir do que leio. Se representam os milhões de jovens deste país? Também não sei.

Que juventude representam? Também não sei responder, excepto que são milhões os descontentes. O que penso é que, mau grado a/s morte/s, as manifestações valeram a pena.

O que penso é que apesar dos mal entendidos, as manifestações valeram a pena. Valeram a pena porque os jovens se tornaram visíveis, a juventude e os seus problemas, que são os do país, tornaram-se ainda mais visíveis – do (des)emprego, passaram para um “pacote” que integra, entre outras exigências, a realização das eleições autárquicas.

Valeram a pena por terem posto o governo e o partido que o sustenta, se não atrapalhados, se não a trabalhar mais, no mínimo a procurar comunicar mais, e melhor. Valeram a pena porque houve, seguramente, um virar de página. Mas é importante lembrar que este movimento não começou hoje.

Esta movimentação teve início com os chamados 15+2. O ano que agora termina veio despertar os adormecidos, os distraídos e também os que pensam que são os maiores, que sabem tudo, os que pensam ter tudo sob controle. As manifestações vieram mostrar uma nova Angola, porventura a primavera tardia que as eleições de 2017 fizeram emergir.

E o que parece claro é que o governo não conhece a juventude, as juventudes do seu país. Mais do que a sua força, os ideólogos (se é que o MPLA os tem!), mas também os estudiosos (nomeadamente os cientistas sociais) não acompanharam as suas trajectórias ao longo dos anos e, por isso, parecem não entender as mudanças que vivemos. Por não terem sabido interpretar os sinais, não souberam compreender o que se estava a passar, e muito menos prever.

E isso sucede porque Angola é um país para quem a juventude é um número, importante em vésperas de eleições. E isso sucede porque Angola não estuda a sua juventude – o previsto observatório continua nas calendas, não há produção científica (regular) nesta área e, as poucas existentes, são ignoradas.

Sendo uma categoria cujos estereótipos assentam na irresponsabilidade, na imaturidade, mas também no vigor, a juventude acaba por ser manipulável qb (quanto baste) e servir os interesses dos poderes instituídos. Se assim não é, como se explica que uma categoria a que se lhe associa o futuro, não seja objecto de estudo, de investigação com relação à projecção de/o futuro deste grande país que é Angola?

[i] Entrevista de Pierre Bourdieu a Anne-Marie Métailié publicada em Les jeunes et le premier emploi. Paris, Association

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FonteO País
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