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Pandemia “rouba” clientes a artesãos na cidade do Soyo

Artesãos do município do Soyo, na província do Zaire, vivem, actualmente, momentos dramáticos.

Com o surgimento do novo coronavírus, cujo impacto negativo se faz sentir em todas as actividades humanas, os artesãos nesta região vêem-se a braços com a falta de compradores dos produtos, que, habitualmente, eram turistas vindos de outros pontos do país e do mundo, ávidos de apreciarem os encantos naturais da cidade.

Perante este quadro sombrio, muitos artesãos abandonaram os ateliers e abraçaram outras actividades que os possam garantir rendimentos para o sustento das famílias.

Alguns ainda resistem à “tempestade” provocada pelo SARS COV-2 à escala planetária. É o caso de Pedro Lengue António, que continua a polir troncos, com os quais executa belos artigos artesanais.

De 35 anos, Pedro Lengue António aprendeu o ofício com o pai, com o qual ainda partilha um atelier improvisado no bairro 1º de Maio, na cidade petrolífera do Soyo.

Natural do município do Bembe, província do Uíge, o jovem artesão conta que as receitas obtidas actualmente são insignificantes para suportar os encargos familiares.

“Já não há clientes para os nossos produtos. Os maiores compradores das peças de artesanato eram turistas, sobretudo os estrangeiros”, disse, acrescentando que antes da Covid-19 o atelier funcionava com quatro mestres, dois dos quais desistiram e dedicam-se, agora, à exploração de carvão vegetal e madeira.

Falta de apoio

Pai de dois filhos e a viver numa casa arrendada, Pedro Lengue António revelou que tem feito biscates para pagar a renda de casa e outras despesas necessárias para a sobrevivência da família. “O artesanato já não rende quase nada, sou obrigado a fazer outros trabalhos para obter algum dinheiro, pagar a renda de casa e garantir o sustento da minha família”, referiu o jovem artesão, que, antes, lamentou a falta de apoio do Governo aos artesãos.

Para si, no âmbito das medidas elaboradas pelo Executivo, que visam atenuar o impacto negativo da pandemia, os artesãos deviam, também, ser contemplados, à semelhança do que acontece noutros sectores de actividade económica.

“Nunca tivemos qualquer ajuda do Governo. Apenas somos lembrados quando nos precisam para expor os nossos produtos em actos que o Governo realiza”, desabafou, sublinhando que a maioria dos instrumentos em uso no seu atelier precisa de ser substituído. Por isso, apelou à administração municipal do Soyo e ao governo provincial para apoiarem os artesãos.

“Apelamos ao nosso governo para que, pelo menos, nos ajude com ferramentas de trabalho. O dinheiro que se consegue aqui no atelier é insuficiente para comprar material, apenas serve para adquirir alimentos”, disse, visivelmente angustiado.

Em relação à matéria-prima, que são troncos de árvores, como Pau-Preto, Ntxaia e Dingui, Pedro Lengue António referiu que é adquirida do vizinho município do Tomboco e os preços variam entre cinco e dez mil kwanzas.

“Os vendedores definem os preços em função do diâmetro e do cumprimento do tronco. Tomboco possui uma vasta reserva florestal, com variadíssimas espécies de árvores propícias para a confeição de artigos artesanais”, indicou.

Pedro Lengue realçou que as figuras do pensador, girafa, elefante, rinoceronte e hipopótamo, são as mais procuradas pelos clientes.

Jovens pouco interessados no artesanato

Os preços dos artigos produzidos variam entre três e vinte mil kwanzas. De acordo com o artesão, o grau da complexidade na confeição de cada artigo é determinante para a afixação do valor. Uma estatueta da mulher mumuíla, exemplificou, é mais cara que figura de um elefante. “Fazer figura de uma mulher mumuíla é muito difícil, devido aos contornos e estilo das tranças, por isso deve ser mais cara”, disse.

Pedro Lengue sublinhou que o artesanato exige uma capacidade de imaginação profunda. Lamentou, no entanto, o facto de haver pouco interesse pela profissão, por parte dos jovens, que consideram um ofício para os velhos.

“Esta é uma arte que rende milhões noutras partes do mundo, onde produtos artesanais atraem uma procura enorme e constituem fontes geradoras de receitas para os cofres dos Estados. Antes da pandemia vendíamos muito, porque aqui na região havia muitos turistas estrangeiros. Eles ficavam maravilhados com as nossas criações artísticas”, elucidou.

Clemente Makopé, 50 anos, é outro artesão que enfrenta dificuldades para sobreviver em tempos de pandemia. Angolano, regressado há mais de uma década, da República Democrática do Congo (RDC), Clemente Makopé, ou simplesmente “Kota Makopé”, pensa em abandonar o atelier pelo facto de não haver mais rendimentos. Lembrou que antes da pandemia as vendas diárias ultrapassavam os 40 mil kwanzas, uma cifra impensável de alcançar nos dias de hoje.

“A situação está difícil. Já não vendemos quase nada. Em consequência disso, a fome aperta. Éramos oito pessoas aqui no atelier, hoje ficamos apenas duas.

Outros desistiram e preferiram fazer pequenos negócios”, disse Clemente Makopé, bastante habilidoso fruto da formação que teve numa das academias de arte da capital congolesa, Kinshasa.

“Vamos esperar que essa maldita doença passe logo, porque a vida está cada vez mais complicada”, disse o artesão, que louvou o Governo pelos esforços que tem desenvolvido na luta contra a pandemia.

“Esta pandemia afectou as nossas vidas em quase todos os aspectos, por isso, as pessoas devem apoiar o governo na luta que está a levar a cabo para conter a cadeia de transmissão da doença, cumprindo com as medidas de prevenção estabelecidas, como o uso correcto da máscara facial, lavagem constante das mãos e desinfectá-las com álcool em gel, além de observarem o distanciamento físico”, referiu.

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