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Ano novo, velhas danças?

1 – Já é tempo de se dissiparem dúvidas. É necessária alguma rebeldia, que deve ser acrescentada à que tem razão de existir, persistência que tem adeptos na sociedade para, no bom sentido do termo, pressionar o Governo a fazer mais coisas que as que vem fazendo. O Governo tem desenvolvido trabalho que não deve, de modo nenhum, ser menosprezado. Pelo contrário, deve ser enaltecido.

Mas tem que fazer muito mais em prol da melhoria de vida da população que é, sem exageros, uma autêntica desgraça. Por isso, justifica-se uma frente, bem organizada, contra a incompetência, contra o roubo e a falta de patriotismo que ainda nos assalta.

Contudo, nada virá de profícuo se optarmos pelo silêncio e formos movidos pelo desespero, pela raiva, contra tudo e contra todos, apoiando grupos dispersos, atirando disparates sem sentido para o ar. Assim, a pressão não poderá resultar. Vejo a gente esperta do costume, políticos falhados, facções contestatárias, falanges alvoroçadas a postar-se contra este pensamento. É um problema deles.

Posiciono-me no lugar que penso ser o melhor e não tenho qualquer problema em subscrever, no essencial e a título de exemplo, o artigo assinado por Carlos Pacheco, publicado na semana passada, no diário português “Público”. Sou de opinião que muitos angolanos deveriam ler desapaixonadamente essa peça.

Há muito que, como ele, também me questiono sobre o incompreensível silêncio dos intelectuais angolanos, ou, como Pacheco classifica melhor, das classes cultas angolanas. Como cada um estará certamente com a sua razão, há que respeitar a vontade de cada qual.

Cada um no seu silêncio, que fique então onde quiser estar. Eu faço ouvir a minha voz há muito tempo, sem me deixar influenciar por qualquer dos dramas que invadem as cabeças dos que preferem ter a boca calada e remoer ódios por dentro. No caso do historiador angolano Carlos Pacheco, em momento dado da nossa história recente, foi designado por quem se achou com o direito de o fazer, como um historiador maldito, um filho ou mensageiro do diabo.

Sobre o seu trabalho, uma área em que não pesco nada, não me quero imiscuir, portanto, não me compete opinar. Porém, enquanto cidadão livre, não posso ficar indiferente perante o julgamento público que se faz de um cidadão que, porventura terá pecado, por ter uma opinião sobre a história recente do país, diferente daquela que a maioria de nós entende ser a verdadeira.

O que me leva a abordar o tema é, em suma, aquele que faz de nós, neste como noutros aspectos da sociedade, um povo pequeno, que tem dificuldade em aceitar a diferença entre as pessoas, a opinião contrária e, a partir daí, debater seriamente, com base na verdade e desmascarando a mentira, sobre o que é falso ou realmente verdadeiro sobre nós próprios. Resumindo, o que é melhor ou pior para Angola.

Sou, decididamente, dos que pensam que só as diferenças nos podem unir e só através do debate que rompe silêncios absurdos, poderemos almejar e alcançar uma sociedade melhor, decente, mais feliz, sem os problemas e os preconceitos que nos afligem desde o tempo antigo até ao actualmente da nossa vida.

Conheço Carlos Pacheco de longe, de vê-lo passar. Creio que nunca trocamos um bom-dia, uma palavra sequer. Até já sofri os efeitos da sua ira desenfreada quando um dia resolveu, num dos seus “amaldiçoados” escritos, incluiu-me a mim e a Associação Chá de Caxinde à qual presidia, no rol dos privilegiados pelo Governo, um facto que não era verdadeiro, como é sabido.

Era precisamente o contrário. Verdadeiros poderão não ser também alguns dos capítulos e episódios da história que relata e divulga. Como não serão, provavelmente, algumas das histórias que retratam o nosso país e que nos têm sido “impingido” por vários autores, como sendo verdadeiras.

Mas quem sou eu para dar opinião sobre elas? Compete isso, sim, a quem domina esses assuntos e os viveu, a quem deveria ter iniciativas válidas e através de diálogos civilizados, promover o debate, convidarem especialistas das várias áreas da cultura, da economia, do ensino e outras, residentes no país, e também, por exemplo, intelectuais como Carlos Pacheco, a enfrentar o debate na sua terra, nas universidades, nos fóruns adequados.

Como Pacheco uma série de outros quadros angolanos da enorme diáspora angolana, que dominam áreas do conhecimento que internamente e por razões consabidas, são difíceis de serem estudadas aqui na perfeição.

Seriam esclarecidas nesses encontros, as nossas dúvidas e melhoradas as nossas insuficiências, tanto pelos cidadãos comuns como pela comunidade estudantil angolana. Haverá coragem para isso? No actual contexto, só mesmo um pouco de vontade política permitiria isso. Mas seria bom se acontecesse.

2 – Entramos no Ano Novo com a esperança de que 2020 não se repetirá com o seu impressionante desfile de desgraças que abalaram o mundo, deixando, pelo menos em número de mortes, marcas iguais ou maiores que as da Segunda Guerra Mundial. Com a chegada da vacina contra a Covid19 aos quatro cantos do mundo, a esperança redobra e nós, por cá, queremos naturalmente que a vida melhore, que a economia cresça e que as desigualdades diminuam.

Há dias, foi dado um ténue sinal de mudança, num acto em que a governadora de Luanda, exonerou e nomeou, num só momento, um enorme número de funcionários públicos. Administradores e seus adjuntos e mais alguns. Notei, contudo, que uns foram substituir outros, trocando de território de actuação, ocupando as mesmas cadeiras.

É de longa data a história da dança das cadeiras na nossa governação e antevendo que 2021 nos presenteie com mais uma movimentação, bem necessária diga-se em abono da verdade, lembro que nesta tradicional dança, enquanto a música corre, vão dançando os pares escolhidos, sempre próximos das cadeiras posicionadas em círculo na zona da decisão que, entretanto, vão sendo retiradas, uma a uma, à medida que a música pára.

E ganha sempre o par mais vivo, mais atento e próximo de quem comanda a música. Os outros são eliminados, por incompetência ou por serem contra as regras da dança.

Lamentando ter de me lembrar de bailaricos em tempo impróprio, fico por aqui, desejando a todos os que me dão alguma atenção os melhores votos de um Ano Novo próspero. Saúde, felicidades e muita esperança para o povo angolano. Até domingo à hora do matabicho.

 

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