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O culto do planeamento

A renomada comentarista, Sizaltina Cutaia, publicou um post na sua página do Facebook que captou a minha atenção. Ela estava a ouvir o noticiário no Lobito quando afirmou-se que as autoridades na Catumbela tinham um plano para acabar com o desemprego, uma vez posta em acção, este plano iria garantir dois mil empregos etc.

Só que, segundo Sizaltina, a notícia não foi aos detalhes. As autoridades da Catumbela tinham um plano, ponto final! Há vezes que fico com a impressão de que em Angola existe o culto do plano — afirmar que alguém vai fazer algo é mais importante do que fazer o mesmo. Adoramos as estratégias e os seus enfeites e não temos paciência de lidar com as tácticas e o seu suor.

Recentemente, no Huambo, estive com um jovem que me apresentou um magnificente plano estratégico para um projecto. Eu insisti que o jovem me desse um resumo do documento, mas ele insistiu que eu ouvisse tudo o que ele tinha a dizer. No fim, quando eu comecei a fazer perguntas detalhadas, sobre esta estratégia, o jovem sentiu-se ofendido. Para ele, aquele documento era para ser admirado e não para ser dissecado e analisado minuciosamente.

A paisagem política angolana está cheia de estratégias e planos que nunca foram além dos discursos espumosos. Uma das razões é mesmo porque existe a falta de uma cultura rigorosa de planeamento e implementação dos mesmos. No próximo mês, nos Estados Unidos, haverá uma nova administração, do Presidente Joe Biden. Uma das figuras mais notáveis é o “Chief of Staff” ou “Chefe do Gabinete” do Presidente que neste caso vai ser o advogado ron Klain. Klain tem a mesma reputação que o rahm Emmanuel, que foi chefe do Gabinete do Presidente Obama e estas duas figuras são agressivas na hora de ver a implementação de planos. Não é por nada que estes são procurados por muitas empresas privadas à procura de figuras capazes de fazerem as coisas andarem. No sector privado a motivação é o lucro — na função pública é a implementação dos programas do Governo. Os processos são essencialmente os mesmos.

A transformação de planos para a acção precisa de alguém que respeite religiosamente o painel de instrumentos no percurso aos objectivos que se pretende realizar. Há vários factores que podem causar deslizes.

Um deles têm a ver com o processo de planeamento. Há casos que o plano estratégico não é nada mais do que um “copy” and “paste” de outros planos, alguns sem nenhum relacionamento com a realidade no terreno. depois há, também, o plano que veio dos chefes sem consultar várias partes concernentes.

Um bom plano deve resultar de um processo rigoroso de “brain storming” em que todas as ideias e factores são tidos em conta. depois há, também, a cultura organizacional onde não se encoraja qualquer forma de questionamento. Isto é porque muitas das vezes as pessoas têm uma dificuldade em distinguir entre a ideia e a pessoa — lá porque a ideia veio do chefe não significa necessariamente que é o chefe das ideias!

Os subordinados, em muitos casos, fazem nada mais do que repetir as ideias do chefe. O resultado é que não se toma vantagem das várias habilidades e experiências.

Na Aldeia Camela Amões, uma das tarefas que o falecido Segunda Amões tinha me dado era ajudar na formação de quadros para gerirem vários sectores de uma forma sistemática.

Nas aulas de “Gestão de Projectos” passamos todos a ver a importância de um coordenador que estaria diariamente a ver se estava-se a ir directamente para o alcance dos objectivos ou se tinha se desviado. Era preciso saber muito bem os marcos para se alcançar os objectivos.

Numa campanha, para ajudar os camponeses em várias aldeias aumentar a sua produtividade era necessário ter alguém que seguia de perto as actividades e identificar os vários constrangimentos, em certos casos, já que a criatividade sempre foi dada muita importância, as tácticas podiam ser refeitas num instante.

Em caso das partes concernentes terem agendas que não se alinhavam tinha que se implementar mecanismos para ter todo o mundo a cantar do mesmo hinário de imediato. Claro que isto não é fácil e requer alguma experiência e astúcia.

Os detalhes do plano para a criação de empregos na Catumbela, se existem, precisam de ser divulgados. Precisamos, também, de saber porque razão vários outros planos não foram implementados. Os líderes e gerentes vão ter que ser humildes e admitir erros. Os projectos governamentais nossos não podem apenas ser objectos de estudo por académicos ocidentais. As administrações, mesmo nas áreas remotas, devem, também, ser geridas com rigor e qualidade.

 

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