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A síndrome do isolamento cultural entre as nações da África Austral

As embaixadas africanas na SADC devem transformar-se em verdadeiros pólos de promoção e intercâmbio cultural, fomentando a Diplomacia do Renascimento Cultural.

A SADC (Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral), foi criada em 1980, já lá vão 39 anos. Há um objectivo da fundação da SADC que demora a ser realizado, ou a ser, pelo menos, conversado pelos políticos: “Aumentar e consolidar conhecimentos sociais e culturais entre os povos da região.”

(D.R.) Emblema da SADC

Passados mais de 50 anos do início do processo de emancipação do continente, prevalece a síndrome do isolamento na paisagem multicultural da região Austral da África.

Sam Mwale, perito em assuntos políticos residente em Nairobi, escrevia no East African de 6 de Abril de 1998: “Da forma como as coisas estão a correr, o desenvolvimento económico do continente acontece no vazio cultural e filosófico. (…) Não parece razoável falar de uma África que funciona quando as filosofias económicas e políticas que lhe servem de base são pensadas e financiadas pelo Ocidente, mas inacessíveis ou irrelevantes para a África autêntica. (…) Aquilo que ‘funciona’ é pseudo-ocidental e torna-se deveras difícil neste contexto justificar o emprego da palavra ‘renascimento’.”

No dias 14 de Agosto de 2000, foi assinado em Blantyre, o Protocolo da Cultura, Informação e Desporto.

O artigo 7º do Protocolo (Fluxo e Troca de Informações) preconiza que:

(D.R.)

“1. Os Estados Membros empenhar-se-ão no desenvolvimento de uma infra-estrutura de informação regional a fim de facilitar a troca de informações nas áreas da cultura, informação e desporto.

Por seu turno, o artigo 8º (Interacção Regional), refere que: “Os Estados Membros deverão facilitar e promover uma maior interacção e o intercâmbio entre agentes culturais…”.

O Protocolo da Blantyre prevê, no artigo 15º a prossecução dos ideais de integração regional através da organização e o estímulo à organização de festivais culturais.

 GEOFONIAS INSULARES

No século XXI, o mapa geo-político do continente africano é composto de regiões linguísticas de matriz europeia, sendo essas línguas eurocêntricas que determinam a comunicação internacional dos Estados, entre si, e com o resto do Mundo.

(Foto: D.R.)

Neste momento, a África e os países africanos enfrentam uma crise de comunicação cultural. A nível da região Austral, as línguas europeias apresentam-se como uma barreira para a construção de uma fraternidade cultural idealizada entre Angola e os dois Congos, a Zâmbia, a Namíbia, o Zimbabwe e o Gabão, e até mesmo com Moçambique, país de língua portuguesa, bem como dos restantes países da SADC.

Partindo da realidade vivida no espaço da África Austral e parte dos Grandes Lagos, constata-se que o panorama da cooperação cultural é determinado preferencialmente pelo nível das relações económicas e comerciais, mais do que pelo nível dos laços espirituais, histórico-linguísticos e geográficos.

A comunidade dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa), em detrimento do conceito de independência, continua ainda submetida a uma camisa de forças linguística, que criou ‘territórios insulares’ no seio das sub-regiões africanas, cada uma delas agrupada segundo a cultura linguística ocidental.

Estamos perante o fenómeno das insularidades euro-linguísticas, cujas fronteiras são as línguas de origem indo-europeia, no caso vertente, o português, o francês e o inglês.

(Foto: D.R.)

Por exemplo, a juventude angolana não conhece quase nenhum dos génios da música congolesa ou gabonesa, para não falar dos artistas ou dos jogadores de futebol namibianos ou zambianos, mas muito facilmente nomeiam os europeus ou americanos. Para um cidadão angolano ler Os Intérpretes, de Wole Soyinka, ou Tribalices de Henry Lopes, tem de esperar pela tradução proveniente de Lisboa ou do Brasil.

O drama destas geofonias insulares em África reside na constatação de que, para poder comunicar e, desse modo, conhecer os produtos culturais regionais, o cidadão da África Austral tem de ter uma tríplice competência linguística ocidental (português, francês e inglês).

Esta realidade euro-linguística, da qual é impossível se absterem, sob pena de perderem o comboio da História Universal e a sua ementa de Progresso Tecnológico, impõe que o ensino até aos doze anos das crianças deva forçosamente contemplar competências linguísticas eurofónicas, do português, do francês e do inglês que depois os alunos irão aprofundar até ao fim do ensino pré-universitário, para poderem dialogar com os países vizinhos e com o resto do mundo.

Nesta era da Globalização unipolar, a inserção do cidadão africano no universo dos benefícios civilizacionais do Planeta (Ciência, Tecnologia e até o Emprego ou o Desporto), para além da aprendizagem de uma língua nacional africana, requer a fluência do Português, do Inglês e do Francês.

Trata-se de uma necessidade do desenvolvimento humano na África Austral (SADC) a massificação do ensino das três línguas indo-europeias (Inglês, Francês e Português), através do uso acumulado dos meios de Comunicação Social, redes sociais e redes vivas comunitárias.

DIPLOMACIA CULTURAL DOS PAÍSES-MEMBROS DA SADC

Durante a 20ª Cimeira da União Africana (UA), foi levantada por diversos teóricos uma questão crucial: não será este o momento privilegiado para reforçar o papel da Cultura como factor de progresso social e força condutora da inovação?

Os Chefes de Estado e de Governo da União Africana, reunidos na sexta sessão ordinária em Cartum, no Sudão, nos dias 23 e 24 de Janeiro de 2006, formularam a Carta do Renascimento Cultural Africano.

Este diploma internacional indica pistas para acções que cada governo, enquanto órgão público e cada cidadão, na sua esfera particular, enquanto agente cultural individual, pode e deve promover com vista ao reencontro sub-regional e, quiçá, inter-regional.

A Carta advoga o intercâmbio e a divulgação de experiências culturais entre os países africanos. Contudo, esta tarefa não tem sido fácil para os Governos da SADC, devido, em certa medida, à realidade das insularidades euro-linguísticas herdadas da colonização (com duas faces da mesma moeda, uma permeável ao diálogo com o Ocidente distante e a outra impermeável ao diálogo transcultural regional).

Perante este quadro, os artistas e intelectuais e os Governos africanos têm um guia sempre disponível na própria Carta do Renascimento Cultural Africano, que deve sair das gavetas e dos ecrãs dos computadores para passar a fazer parte da praxis do homem e da do agir político no Continente-berço.

A Carta do Renascimento Cultural Africano, no seu Artigo 30º, reconhece que é vital estabelecer uma cooperação cultural inter-africana enquanto contribuição para a compreensão e o enriquecimento mútuos das culturas africanas e entre a África e o resto do mundo, e com a diáspora africana.

O Artigo 31º indica a forma mais adequada de se alcançarem estes objectivos, através das seguintes acções:

  • reforçar as capacidades, nomeadamente das instituições especializadas da Comissão da União Africana a fim de capacitá-las a coordenar, assegurar o acompanhamento, a avaliação e a harmonização das melhores práticas sobre políticas, programas e redes;
  • organizar eventos culturais, tais como festivais, simpósios, eventos desportivos e exposições de arte;
  • criar centros de pesquisa e incentivar o intercâmbio de programas culturais;
  • comprometer-se a assegurar que os valores culturais africanos são expressos com o máximo de impacto a fim de promover e fortalecer o sentido de identidade africana entre os africanos.

Para o alcance da tão ansiada fraternidade cultural entre os países que conformam a região, a SADC carece de uma diplomacia do renascimento cultural africano.

O ponto de partida é o recurso ao intercâmbio cultural nos domínios das chamadas linguagens universais: a música, a dança e a pintura. Com estas linguagens, é possível conceber o esboço do transculturalismo regional.

(Foto: D.R.)

De início, poder-se-ia começar pela música, visto que o CD é de fácil transportação. Para este intercâmbio, serve o potencial da rádio e da televisão (no caso do DVD) e os serviços culturais das embaixadas.

Cada Adido Cultural ou secretário da respectiva embaixada pode dirigir-se às instituições que produzem ou comercializam a música e adquirir regularmente as gravações feitas. Depois, é uma questão de encaminhá-las aos média dos seus países. Desse modo, o público da SADC poderá conhecer as linhas de força, tendências e inovações musicais da região toda.

CONCLUSÃO

A criação destas redes culturais, porém, só será possível se reunirmos os intelectuais da região e dos PALOP numa mini-cimeira da SADC, para além das costumeiras cimeiras dos Chefes de Estado ou de Governo.

Foi preciso aparecer a pandemia do Ébola, em três países do oeste de África, para a própria Natureza provar que os problemas da África não são iguais aos da Europa nem aos da América do Norte. Por isso, as soluções sócio-económicas e culturais que são elaboradas nesta região africana não podem ser as mesmas da chamada Democracia Ocidental.

Os líderes precisam cada vez mais de ouvir, não só os seus conselheiros particulares, mas também os intelectuais sem partido que cristalizam grande parte das aspirações da Sociedade Civil Africana. O Ébola provou que a África chegou a um ponto crítico em que tem de repensar aspectos da sua herança cultural que não mais se coadunam com a explosão demográfica das grandes cidades como Luanda.

O momento histórico exige uma mudança de paradigma sócio-cultural – ancorada em dois pólos: o desenvolvimento endógeno (descortinar a imensa pequenez dos nossos problemas invisíveis sob o manto da macro-economia) e a fractura da tradição extemporânea – que pode conduzir ao verdadeiro renascimento.

A grande e quase incontornável mobilidade migratória dos africanos criou no continente um historial de transmissão viral, não só do Ébola, que está a ter um enorme impacto em quase todas as dimensões do desenvolvimento. Já é tempo de se aproveitar essa dinâmica natural, simples, da sociedade civil, para se criar o diálogo regional pela disseminação do vírus da cultura no circuito transfronteiriço e diplomático.

As embaixadas africanas na SADC devem transformar-se em verdadeiros pólos de promoção e intercâmbio cultural. A SADC e a UA, para além de expressarem a linguagem e vontade política dos governantes, devem também expressar a linguagem cultural dos intelectuais e dos artistas, desde os griôs do campo aos escritores da cidade. É urgente a reinserção cultural de cada um dos países na região.

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BIBLIOGRAFIA consultada

Declaração Solene sobre o 50º Aniversário da OUA/UA http://summits.au.int/fr/sites/default/files/50%20DECLARATION%20PO.pdf

Documentos da 21ª Cimeira da UA sobre Panafricanismo e renascimento africano (19-27 de Maio de 2013

Pan-Africanism. http://summits.au.int/en/sites/default/files/AUEcho_27012013_v2.pdf

20ª Cimeira da UA, 21-28 Janeiro de 2013 AU ECHO, published by the Directorate of Information and Communication of the African Union Commission.

Carta Africana do Renascimento Cultural

 

 

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