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MPF pede que Sociedade Brasileira de Infectologia dê provas que cloroquina e outros remédios são ineficazes contra Covid-19

A Procuradoria do Ministério Público Federal (MPF) de Goiás cobrou que a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) apresente provas e estudos clínicos que embasaram uma nota na qual a entidade reprovava o uso de qualquer medicamento para tratamento precoce da Covid-19.

O pedido do MPF é assinado pelo procurador-chefe da República no estado, Ailton Benedito, auto-declarado conservador e defensor ferrenho nas redes sociais do uso da cloroquina e outros medicamentos no tratamento da doença.

No documento, intitulado “Atualizações e Recomendações sobre a Covid-19” e publicado na quarta-feira (9), a SBI diz ser contra o uso de qualquer medicamento no combate à infecção pelo novo coronavírus, incluindo cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, nitazoxanida, corticoide, zinco, vitaminas, anticoagulante, ozônio por via retal e dióxido de cloro.

“Os estudos clínicos randomizados com grupo controle existentes até o momento não mostraram benefício e, além disso, alguns destes medicamentos podem causar efeitos colaterais. Ou seja, não existe comprovação científica de que esses medicamentos sejam eficazes contra a Covid-19”, explica a SBI, no documento.

A entidade ainda argumenta que a orientação contrária ao tratamento precoce com quaisquer medicamentos “está alinhada com as recomendações de sociedades médicas científicas e outros organismos sanitários nacionais e internacionais”.

No mesmo dia, o MPF de Goiás enviou um ofício dando o prazo de cinco dias para que a SBI apresente cópias de documentos e dos estudos clínicos que serviram de base para a recomendação.

Ailton Benedito questiona também se a entidade tem ciência das orientações divulgadas pelo Ministério da Saúde em uma nota publicada em agosto, na qual defende a aplicação combinada entre os medicamentos hidroxicloroquina, cloroquina, azitromicina para casos leves, moderados e inclusive graves em pacientes com Covid-19.

Por fim, o procurador pede que a diretoria da SBI declare “ausência de conflito de interesse” com empresas que estão desenvolvendo medicamentos, vacinas, insumos ou equipamentos destinados ao enfrentamento da pandemia.

Em 15 de junho, a Agência de Medicamentos e Alimentos dos EUA, a FDA, revogou a autorização para uso de emergência da cloroquina de seu estoque estratégico, ao determinar, com base em evidências científicas, que cloroquina e hidroxicloroquina não eram efetivos no tratamento da doença viral. Em 17 de junho, foi a vez de a OMS (Organização Mundial de Saúde) anunciar que iria parar com os testes clínicos usando a substância, pelo mesmo motivo.

Procurada pelo Yahoo Notícias!, a Sociedade Brasileira de Infectologia afirmou que está ciente do pedido do MPF-GO e “está tomando as providências jurídicas”.

PROCURADOR ATACOU OMS, ‘LOBISTAS DA MORTES’ E DEFENDEU CLOROQUINA
Ativo e engajado nas causas conservadoras e bolsonaristas nas redes sociais, o procurador Ailton Benedito tem dedicado atenção especial na defesa do uso de medicamentos no combate à Covid-19. Ao defender o uso da cloroquina e de outros medicamentos, o procurador constantemente usa o termo “lobistas da morte”.

Em agosto deste ano, Benedito assinou outra peça pelo MPF de Goiás pedindo a obrigatoriedade na disponibilização do tratamento ambulatorial precoce a pacientes do novo coronavírus no estado de Goiás.

Na ação, o procurador diz que a União, o Estado de Goiás e o município de Goiânia devem acatar a orientação expedida pelo Ministério da Saúde e disponibilizar os remédios para que os médicos possam prescrevê-los a quem estiver com a doença na fase inicial. A Justiça Federal, no entanto, negou liminar.

Antes disso, em março, Ailton Benedito atacou a OMS em um artigo publicado em um site de direita dizendo que, apesar de estados e municípios estarem seguindo suas recomendações, a entidade não teria legitimidade.

Benedito divulgou o artigo em sua página no Twitter acusando a entidade mundial de crimes contra a humanidade e, sem citar nomes ou fornecer dados, dizendo que ela é comandada por um “serviçal da ditadura comunista da China”.

É no Twitter que suas postagens são compartilhadas massivamente entre os seguidores do presidente Jair Bolsonaro. O perfil do procurador consta em uma reportagem da agência de checagem Aos Fatos, de maio, que mostra os perfis do Twitter que mais publicaram desinformação sobre a cloroquina.

A página do procurador no Twitter é mencionada uma vez, e aparece em uma tabela com os que mais falaram sobre cloroquina na rede social. Por conta disso, Ailton Benedito afirmou, em novembro, que processaria a agência de checagem por “violação aos direitos fundamentais”. Além disso, o procurador estimulou outras pessoas a iniciarem ações semelhantes contra agências de checagem.

Em resposta, a agência afirma que ele não é mencionado como um desinformador, e sim como um perfil que se engajou com conteúdos sobre o tema. “Ou seja, não fica claro no que ele se sentiu lesado, uma vez que a reportagem não faz acusações particularmente contra ele”.

O Brasil foi apontado como o único país do mundo onde continuam a circular com frequência notícias falsas sobre cloroquina, ivermectina e azitromicina como curas para a Covid-19.

Fake news ou boatos sobre hidroxicloroquina e cloroquina apareceram 176 vezes na base de dados — são 176 versões de informações falsas, que podem ter sido compartilhadas milhões de vezes. O campeão é o Brasil, com 75 casos, seguido da Índia (29), França (26) e EUA (24).

E, ao contrário da maioria dos países, no Brasil, na Índia e nos EUA as disputas políticas internas são o principal motor para a desinformação sobre a pandemia.

O levantamento, publicado no dia 23 de novembro, foi realizado pelo LAUT (Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo), INCT.DD (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital) e pelo laboratório de pesquisa forense digital do Atlantic Council.

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