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Amor em tempos de cólera

Inspirados pela magia literária de Gabriel Garcia Marquez, acreditamos na nova aurora de liberdade proclamada em 2017 pelo Presidente João Lourenço, mas, três anos depois, parece que estamos a sucumbir às agruras de um “amor em tempos de cólera”.

Vivemos tempos de metamorfoses políticas vulcânicas. Aqui e lá fora. Vivemos tempos que estão a dar lugar, aqui dentro, ao nascimento de novos movimentos sociais que não se constroem inspirados em dogmas partidários.

Vivemos tempos de dinâmicas incompatíveis com o descompasso da selecta agremiação que assentou arraias sobre vários tentáculos dos poderes em Angola.

Vivemos tempos que estão a dar lugar ao nascimento de movimentos que estão a nascer do pulsar das ruas, da explosão de emoções, do apelo a novos voluntarismos e do içar da bandeira do populismo.

Vivemos tempos de abate público do enriquecimento ilícito, de hinos à democratização da distribuição da renda nacional e de cobrança de mais e melhor educação e ensino, mais e melhor emprego e mais e melhor habitação.

Vivemos e sentimos o crescendo destes hinos e destas cobranças porque vivemos tempos “de pobreza e mais desemprego”. Vivemos tempos que nos fazem sentir que “os poderes estão distantes dos cidadãos”.

E que, comunicando “com eles pelas redes e pela televisão, ficam com a ideia de que são amados ou entendidos porque acham que são populares.”

Vivemos tempos de cólera para uns, mas, para quem os tempos são radiosos, ”nunca se passa nada e o que se passa, fica escondido”. Vivemos tempos em que “muitos deles se esqueceram há muito do que é a vida normal ( e por isso) não vivem sem estarem acompanhados por um séquito de assessores, consultores, cortesãos e criaturas de gabinete, que lhes medeiam a vida publica”.

Mas, como vivem enclausurados em redomas de vidro, ”esquecem-se de que quase toda a vida é pública”. Disfarçados de homens sérios e comprometidos, “adoram ser tratados como príncipes e estarem permanentemente no púlpito”…

Com estes príncipes escondidos no armário, o Presidente trouxe-nos tempos de esperança, mas a dinâmica dos novos tempos rapidamente se encarregou de destapar a crise de pessoas, de valores e de ideais que envolve e aniquila a nossa sociedade.

Vivemos tempos de esperança que se estão a esfumar, agora, ante a cólera da irracionalidade política e de um radicalismo estreito, que se estão a revelar altamente nocivos à inevitabilidade da despoluição do ambiente político que nos rodeia.

Vivemos tempos de precariedade, que, estando a tomar conta do dia a dia, não podem tornar-se no nosso modo de vida. Vivemos tempos de protestos, mas os movimentos sociais que os desencadeiam, em vez de serem hostilizados pelo poder das baionetas, precisam de ver atendidas as suas inquietações e o seu descontentamento.

Vivemos e haveremos de continuar a viver tempos de protestos que existirão sempre que as vítimas das injustiças sociais se sintam excluídas, como por aqui se sentem cada vez mais largas franjas da população.

Se a substituição do antigo elevador social que, durante décadas, nos provocou danos colossais torna incontornável e inadiável a descompressão social e a instauração de um clima de descomplexado debate económico, este desafio não pode, porém, deixar de ser visto em primeiro lugar como um desafio de natureza política.

É certo que há ressentimentos nos protestos, mas é preciso diagnosticar as razões que estão na origem da reivindicação da mudança sem cair na tentação de ceder a uma deriva autoritária, que se arrisca a perder espaço e a mergulhar num terreno demasiado movediço.

Fazê-lo é, pois, um imperativo inadiável que se impõe para pôr fim à crescente ausência de preocupações em relação às pessoas comuns.

É um imperativo que se impõe para pôr fim ao vazio existente entre governantes e governados criado pela incapacidade dos primeiros lidarem com a diferença e de encararem com naturalidade as adversidades sociais.

É ainda um imperativo que se impõe para pôr fim à barreira que opõe aqueles que se batem pela construção do jango da conversa e aqueles que se batem pela edificação do muro da desconversa.

É preciso, por isso, começar a desconstruir com urgência essa contradição partindo do princípio de que não ver isso é o mesmo que pretender querer hipotecar o futuro enterrando o presente.

É preciso ver para além do presente para que a celebração da liberdade proclamada pelo Presidente em 2017 não seja transformada num velório…

É verdade que, diante deste desafio, o Presidente, no início do seu mandato, introduziu uma promissora dinâmica de abertura, mas essa abertura, apanhando o MPLA com “as calças na mão”, está a destapar agora um unanimismo que, afinal, sempre foi postiço.

Com essa abertura, passamos, em contraponto, a enfrentar a tentação para a instauração do monopólio do pensamento social à volta de um círculo restrito e o avanço do império da arrogância e do estrabismo político.

Mas atenção: o avanço desse império tem estado a provocar danos de vária ordem em vários domínios da nossa vida. Por isso, estamos agora perante um desafio que nos obriga a parar para pensar.

Pensar, mesmo sabendo, como adverte J.R. Guzzo em relação ao Brasil, que, por aqui “pensar ( também) é uma das actividades humanas mais odiadas neste país”…

E ao parar para pensar, o Presidente fez bem ao apostar no rompimento com a cristalização cerebral das mentes mandantes e ao ter decidido abrir as persianas da sociedade para proporcionar a entrada de ar fresco, mas, ao fazê-lo, esqueceu-se da carga pesada que transportava às costas.

Ao fazê-lo esqueceu-se de desempoeirar a carroçaria e manteve atado à cintura um partido, que, tendo ideias calcinadas e uma visão entorpecida do mundo actual e permanecendo fiel às antigas taras leninistas, está a caminhar em sentido oposto a qualquer perspectiva de atracção de boas vontades e de abertura e de crescimento reformista em Angola.

Ao fazê-lo esqueceu-se que está amarrado a um partido que foi ao mercado e adquiriu uma bicicleta profissional de alta velocidade, mas, postos em prova, os seus ciclistas não estão a ter pernas para dar as pedaladas exigidas pelo contra-relógio.

Ao fazê-lo esqueceu-se que está amarrado a um partido que pior do que tropeçar, começa a não ter folego para se levantar e, quando o fizer, desmembrado, corre o risco de nunca mais apanhar o comboio…

Ao fazê-lo esqueceu-se que está amarrado a um partido que à esquerda finge exaltar o pluralismo, mas, a direita, se embrulha com a bandeira da acefalia do unanimismo e promove a asfixia das liberdades, a exclusão e a perigosa ideia de que pode tratar os activistas como novos frustrados.

Ao fazê-lo esqueceu-se que está amarrado a um partido que, parado no tempo, exibe na montra uma cúpula de dirigentes que foge do debate como o diabo da cruz e, quando não tem escapadela, parece padecer de paralisia cerebral, não se importando de fazer o papel de meros papagaios de um discurso descartável.

Ao faze-lo esqueceu-se que está amarrado à um partido em que a generalidade do discurso político da sua cúpula revela tão baixo e desajustado teor de massa crítica que, nalguns casos, parece estar enquadrado em 1992, como se a realidade sociológica de hoje pudesse ter recuado no tempo trinta anos…

Aqui chegados, este partido tem um líder e caberá ao líder libertá-lo destas amarras ou correr o risco de sucumbir ante os desafios que se aproximam.

A liderança de João Lourenço, como adverte Reginaldo Silva, está agora confrontada com o imperativo inadiável de pôr a máquina que o rodeia “a viver em harmonia – a única forma de se conviver pacificamente em civilização – sem estarmos em sintonia, sem fazermos parte da mesma confraria, sem estarmos de acordo, desde que não ultrapassemos os limites das nossas divergências em nome da liberdade de todos”.

Aqui chegados é hora de percebermos que no passado o silêncio, a omissão e a cumplicidade acabaram por empurrar quem governava para muitos excessos.

No presente não está a ser diferente. O mesmo silêncio, a mesma omissão e a mesma cumplicidade podem voltar a ajudar a empurrar o país para o cadafalso.

Por isso, se nas ruas há uma geração a exigir mudanças, por que razão a geração que está no poder, também não faz a sua parte? E fazê-lo o que significa? Significa ter a noção de que o mundo que reclama a mudança viaja nu quem governa, às vezes, parece querer continuar confinado numa ruela.

Significa reconhecer que o excessivo dirigismo que se abate sobre a nossa sociedade, está a mutilar a criatividade dos cidadãos. Significa tão somente governar bem.

Mesmo em tempo de cólera. É avisado, porém, saber que, se não o fizer, alguém ocupará o seu lugar e o fará por si. Sem lhe pedir licença…■

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