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Vivemos uma crise de afirmação – Ismael Mateus

“Se algum dia tiver de perder umas eleições em Portugal para salvar o país, como se diz, que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal” – foi com esta frase que o antigo Primeiro-Ministro português Pedro Passos Coelho defendeu as suas reformas num clima tão adverso económica, política e socialmente como o que actualmente vivemos em Angola. E no final, ganhou as eleições.

Não teve votos suficientes para contrapor a maioria de esquerda que se formou, mas foi o partido mais votado.

Mais do que a crise económica, vivemos hoje em Angola uma crise de afirmação do próprio MPLA. Para a transição política interna não basta apenas a mudança de líder. Pelo facto dela não ter implicado uma “revolução” dos métodos de trabalho e da visão do país, o partido no poder vive hoje uma crise de afirmação e de crescimento que, em termos práticos, o paralisa e coloca à margem da realidade, muito marcada por dinâmicas sociais assentes em relações de proximidade e interpretação crítica da vontade dos governados. Mantendo os seus antigos métodos de trabalho, relações com as bases e relações de contágio governo/ partido, por vezes com muito ruído, o MPLA não se dá conta que mais do que o seu líder, mudaram também os tempos, o modo de comunicar, o eleitorado é mais jovem, mais exigente e mais instruído, mais situado com o que se passa no País e no Mundo. Não se dá conta também que já não tem um líder de mandatos sem limite e que isso define no tempo um princípio e um fim das lideranças. Esse carácter transitório dá às estruturas do partido um papel de fio estabilizador e de continuidade da agenda partidária, de procura de consensos que o MPLA vai mostrando ter dificuldade em assumir.

Hoje, todos os líderes do MPLA são conjunturais e não podem ter o mesmo carácter absolutista de outros tempos.
(DR)

Hoje, todos os líderes do MPLA são conjunturais e não podem ter o mesmo carácter absolutista de outros tempos. Em sentido inverso, o partido deveria ter uma autoridade maior no acompanhamento e condução política do governo. Fazer comunicados com a velha cartilha do “apoio incondicional ao líder”, soa a anacrónico e ultrapassado, quando, na verdade, o que é necessário é um debate contraditório para gerar decisões políticas de melhor qualidade e mais ajustadas com as expectativas dos eleitores.

Não havendo regras formais e informais da democracia interna, contrapesos institucionais e, também, os posicionamentos contrários ao discurso oficial, o partido no poder remeteu-se ao silêncio e à inacção, deixando absolutamente tudo na dependência da acção do Presidente da República/partido.

O tacticismo político do MPLA, que o levou a conduzir muito mal o dossier das autarquias ou a fazer pior com a gestão da crise com os manifestantes de rua, está a ser autodestrutivo e a colocar dúvidas nas franjas do seu tradicional apoio, o que pode ir contra si. Está, imagine-se, a permitir que a “guerra” contra o atraso económico, desemprego ou contra a corrupção se transforme numa “guerra” contra o MPLA.

A inacção política do MPLA está a permitir uma dinâmica eleitoral desfavorável que tem a ver principalmente com a falta de comunicação, fraca combatividade nas redes sociais e comunicação social e incapacidade de explicar a agenda do futuro. As manifestações de rua resultam de uma incapacidade de oferecer uma perspectiva de futuro, discussão de uma agenda para a juventude e de explicar as reformas e as políticas para o futuro e, sobretudo, de estabelecer consensos para o futuro. O caso das autarquias, que foi a gota de água a transbordar o copo, foi prova disso: a incapacidade de estabelecer consensos para o futuro, seja em relação ao adiamento como à data futura e um roadmap definitivo conjuntamente.

Essa inacção política do MPLA também facilita que se instale uma ideia de deriva governativa, quando, na verdade, apesar das adversas circunstâncias da Covid-19, há um país a resistir. Temos um país a dois andamentos, é verdade, mas por falta de agressividade comunicacional está a ganhar espaço a narrativa que promove as animosidades e os conflitos, que encontramos nas redes sociais, no discurso da oposição e de alguns padres e bispos da Igreja Católica. A outra Angola que está a acontecer nos municípios com os projectos do PIIM, o projecto Kwenda e seu impacto na vida das famílias, e como o crescimento do sector agrícola está a ser desvalorizado e estigmatizado com a marca de informação propagandística.

O curso a tomar por cada uma destas narrativas e assumpção frontal na apresentação de resultados destas iniciativas vai determinar o futuro eleitoral do MPLA. Se se mantiver a incapacidade de fazer comunicar as reformas para o futuro e fazer os necessários consensos, como aconteceu com Passos Coelho, em Portugal, o MPLA perderá capacidade para governar o país, e com isso ficar com o ónus total do (des)caminho do país.

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