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Tortuosos caminhos da liberdade (I)

Todos os anos, esteja longe ou perto de casa, dentro ou fora do país, celebro o nosso dia, o 11 de Novembro, o dia da Dipanda e da Liberdade. Faço-o da melhor forma que posso, conforme as circunstâncias que vivo no momento, assim elas, as ditas circunstâncias, mo permitam.

Este ano, melhor dizendo, ontem, fiz o que já fizera no ano passado e no anterior, aliás, desde que tenho um telefone onde me instalaram o revolucionário WhatsApp que utilizo com maior perfeição a cada dia que passa. Ausente que me encontro do país, apressei-me a saber através do aparelho e esporadicamente pela televisão, de como estava o ambiente na terra, até porque as notícias que circularam durante a semana aconselhavam alguns cuidados e caldos de galinha. Desde logo, ficou patente a ironia da data da nossa independência estar a ser festejada em surdina com confinamentos e outros mimos pandémicos à mistura.

Dou um salto à véspera, quando no aconchego do meu velho sofá, apanhei a meio, porém a tempo de ver ainda muita coisa boa, imagens de um documento que, inicialmente pensei ser produto da TPA, o que me alegrou bastante.

Não era, todavia, porque tratava-se, afinal, de um documentário intitulado “Independência”, uma co-produção da Associação Tchiweka de Documentação e da jovem Geração Oitenta, que já corre há meses e de que já ouvira falar mas não tinha ainda assistido.

Foi muito grato ver figuras que fizeram muito por este país, patriotas de vários estratos e quadrantes políticos, homens e mulheres respeitáveis a deixarem para a posteridade testemunhos valiosos da nossa história. Penso que os realizadores dos vários canais da nossa televisão deveriam apreciar e pensar para depois tentarem apostar em experiências deste género.

Contarem, através da imagem apoiada por bons textos, o país que fomos e o que pretendemos que ele venha a ser. Bom, eram perspectivas de um razoável dia da Independência prestes a raiar, noves fora a pandemia, pensei assim, com algum entusiasmo.

Foi puro engano, porque, cedo a história dos aspectos fundamentais de Angola enquanto país independente vieram à tona e mostraram-me mesmo que sim, sobre ela há ainda muito que se lhe diga.

E vieram então as primeiras imagens recebidas de Luanda, todas elas bastante estranhas, pouco entusiasmantes. Ruas desertas em silêncios perturbadores. Eram imagens da baixa da capital que me chegavam, que foram subindo para o Miramar, galgando terreno, até chegarem mais tarde a cenários próximos do Cemitério Novo, o tal que nós, os mais velhos, assim ainda o tratamos.

E qualquer coisa me dizia que a morte, essa maldita, parecia com vontade de saltar o grande muro e aparecer por aquelas bandas, tamanha era a agitação das pessoas, mostradas nas imagens que me chegavam a todo o instante. Recebi, entretanto, o poema do João Melo, profundo na sua essência e no seu alcance.

“Onde foi que nós errámos?”. O lamento do poeta, verdadeiro e sofrido, vinha do fundo da alma. E as mensagens não paravam de chegar ao telemóvel, os sinais da chegada eram permanentes. Umas iam-me recordando com imensa tristeza, como tinha sido o nosso dia há 45 anos, quando éramos jovens e inocentes.

Admitindo com pena a velhice que nos apanhou sem luta, para sobreviver com as nossas ideias e ideais agora frustrados, a ver crescer gerações pensantes mas sacrificadas, numa trágica repetição da história.

Voltou novamente à mente em imagens, a parte substantiva do documento histórico que apreciei na véspera e regressei igualmente ao poemaço do João, mordendo pe-

daços como “…nos crimes que cometemos, sobretudo os pequenos, acreditando em redenções únicas e impensáveis…” Onde foi que nós errámos? Sou eu mesmo agora a substituir-me ao poeta e a perguntar. Entretanto, a manhã foi correndo, dando espaço ao dia quente e inesquecível.

Fui recebendo notícias, umas atrás de outras. Chega-me uma mensagem aflitiva, uma espécie de apelo, um desafio.”Vou esperar pelo teu texto, pelo que está a acontecer hoje. A POLÍCIA (assim mesmo grafado em maiúsculas) colocou o País em estado de sítio”. Uma amiga falou curto e forte.

Que diabo, penso eu, Estado de Sítio é uma medida de excepção que não é determinada pela polícia. A população em alvoroço está naturalmente preocupada. É o que é. E vejo o Luaty, sempre com a sua coragem e a sua razão, a mostrar que esta sempre prevalece quando há inteligência na argumentação.

Dos vários recados que recebi um era extraordinariamente claro e preocupante. Dizia concretamente que uma coisa é certa: Alguém já perdeu este eleitorado. Falta saber quantos serão na hora H e a quem vão entregar o voto deles. Peremptório, rematou, “a ruptura está feita”.

Não posso deixar de concordar com o meu amigo, perante a amarga realidade dos factos. Mais ainda quando observo fotos, são verdadeiras, não me parecem montagens, de cidadãos com seus cães enfrentando a polícia, desta feita no Lubango, e uma outra, não sei se fiável, de um activista morto. A polícia, por seu lado, diz que não morreu ninguém nestes confrontos.

Decididamente, o dia não estava a andar bem. Piorou ao receber mais uma imagem colorida, decepcionante. Palavra de honra que gostaria de ver um painel grande com a figura do Presidente João Lourenço a anunciar um Encontro Nacional de Reflexão sobre o papel da educação e da cultura, do ambiente familiar, da moral e dos bons princípios, nunca o do kuduro, pelo menos nesta fase, “da educação patriótica dos jovens angolanos”. Custa-me ver as fotos, quanto mais aceitar o facto ou a intenção!

Não que seja contra o kuduro, essa dança frenética que encanta e galvaniza a juventude mas que nestes tempos tumultuosos, pouco ou nada de bom trouxe à sociedade, há que admitilo.

Como admitido deve ser que não foi o mais acertado momento de se inaugurar um hotel de cinco estrelas, aparentemente, propriedade estatal por via da Recuperação de Activos do Estado, num momento difícil em que o ambiente de negócios reclama outras prioridades, como, por exemplo, a realização de um ENCONTRO NACIONAL DE QUADROS sem discriminização, um encontro para unir, despartidarizado o mais possível, capaz de inventariar a força juvenil pensante (e não apenas essa) do nosso país. Não me atrevo a envolver-me nas questões legais que a “nacionalização” do hotel suscita e foi comentada, por serem águas em que nunca naveguei.

Quero no entanto ver, estou mesmo ansioso, por saber quantos empregos duradouros vai gerar para os cidadãos angolanos, este luxuoso hotel. Seria tão bom!

P.S.- Lamento a morte da Dra. Eunice de Carvalho. Lamentei o recente desaparecimento do Dr. Sindika Dokolo. Nunca tive relação próxima com eles, porém, angustia-me a perda da vida de qualquer jovem, quaisquer que sejam as circunstâncias em que ela ocorra.

Apresento os meus sentimentos de pesar aos familiares das vítimas citadas e das anónimas que, em Angola, são permanente e inutilmente surpreendidas pela morte. Pelo respeito que lhes dedico, cumprimento muito particularmente o Bispo Emílio de Carvalho e sua estimada esposa.

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