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45 anos depois, onde foi que errámos?

Quando, há quarenta e cinco anos, “perante a África e o mundo”, sob o ribombar dos canhões, Agostinho Neto proclamou a nossa Independência, assistimos ao nascimento de um novo país, mas não assistimos ao nascimento de Angola.

Há quarenta e cinco anos, antes da proclamação da Independência, com uma história secular, embora vergastada pela colonização portuguesa e com uma população enquadrada segundo os ditames do regime fascista em vigor, Angola já era um território com um sistema de organização social devidamente estruturado.

Há quarenta e cinco anos já havia em Angola uma elite política amadurecida e uma pequena burguesia local que, junto do ocupante português, reivindicava direitos emancipadores.

Há quarenta e cinco anos quando Angola saiu da capanga colonial lusitana e conquistou a sua emancipação política, já era um território economicamente adulto e autónomo.

Há quarenta e cinco anos a agricultura era o “ouro negro” que permitia a Angola ser auto-suficiente do ponto de vista alimentar e um dos grandes celeiros de África ao mesmo tempo que a palavra “petróleo” praticamente não fazia parte das suas estatísticas económicas.

Há quarenta e cinco anos, vivíamos a ressaca de um tempo fervilhante com os musseques, por um lado, matraqueados pela fúria de colonos taxistas e comerciantes inconformados com a chegada de uma nova ordem social e, por outro lado, pela resposta inflamada e irracional de alguns grupos de marginais que decidiram lançar o caos e o terror junto das populações europeias.

Há quarenta e cinco anos, sob o fermento do ódio racial, do preconceito tribal e de um radicalismo político irracional, assistimos à erupção nas cidades dos três movimentos de libertação, que, mergulhados em desavenças insanáveis, se lançaram numa guerra fratricida pela conquista do poder que, de uma ponta à outra, “partiu” a coluna vertebral de Angola e dilacerou a alma de milhões de angolanos.

Há quarenta e cinco anos, perante a iminência de desavenças insanáveis entre os movimentos de libertação, assistiu-se à uma demissão que viria a ser fatal para o resto do nosso percurso como país, daqueles que, na frente clandestina nos meios urbanos, haviam servido de rectaguarda das guerrilhas.

Há quarenta e cinco anos, preparado em finais de Outubro sob o mais apertado sigilo, muito pouquíssimas pessoas sabiam da existência de duas versões do texto da Independência e – perante a iminência da entrada em Luanda das tropas zairenses – da intenção de Agostinho Neto antecipar por 48 horas a sua proclamação, ou seja, a leitura da segunda versão poderia dar lugar ao hastear da nova bandeira a 9 de Novembro e não a 11 de Novembro de 1975…

Há quarenta e cinco anos, a partir de Outubro, começavam a despontar sinais ténues da chegada dos primeiros contingentes das forças cubanas, mas poucos se aperceberam da presença em Angola de equipamento militar e de tropas oriundas da Guiné-Bissau e da Guiné-Conacry, que, antigos aliados do MPLA, viriam a derramar o seu sangue em defesa da nossa Independência…

Há quarenta e cinco anos, apresentando-se nas cidades como um corpo de guerrilheiros debilitado e sem estrutura para enfrentar uma guerra urbana, as FAPLA tiveram como seu principal esteio os antigos militares angolanos oriundos do exército colonial português, cujo desdobramento e capacidade de intervenção operativa foram cruciais também para travar a tentativa de balcanização de Angola por parte de forças invasoras mercenárias.

Há quarenta e cinco anos, no Salão Nobre do Palácio, é investido o primeiro Governo de Angola independente constituído, como agora, por um elenco bastante jovem, no qual o Presidente da República – “o velho” como lhe chamávamos – tinha 53 anos; o Primeiro-Ministro, Lopo do Nascimento, não passava dos 32 anos; o Ministro das Relações Exteriores, José Eduardo dos Santos ficava-se pelos 33 anos e o mais novo Carlos Fernandes, “Fumaça”, Secretário de Estado da Agricultura, tinha apenas 28 anos…

Há quarenta e cinco anos, receoso de ver o poder em Angola ficar sob o domínio de forças estrangeiras, Agostinho Neto, à cautela, ordenou que as Reservas Internacionais Líquidas parqueadas no Banco de Angola fossem transferidas temporariamente para Moçambique.

Há quarenta e cinco anos, a Televisão – TPA – a preto e branco – dava os primeiros passos, mas a comunicação social, era depositária de um passado de pluralidade informativa que, durante muitos anos, fora obrigada a driblar a censura colonial, quer ao nível das rádios, quer ao níveis dos três diários em circulação – o Jornal de Angola e o Comércio e o vespertino Diário de Luanda – e da Revista “Notícias”.

Há quarenta e cinco anos e trinta e seis meses, Lopo do Nascimento, enquanto Chefe do Governo, de regresso de uma digressão por alguns países da chamada “Cortina de Ferro”, onde foi recebido com honras de Chefe de Estado, não imaginaria que, mergulhado num refogado de intrigas internas, haveria de ser exonerado e acusado de pretender ocupar o lugar de Agostinho Neto…

Há quarenta e cinco anos, depois de se ter afirmado no Congresso de Lusaka como um dos mais fervorosos defensores da ala netista, ninguém imaginaria que, dois anos após a Independência, a 27 de Maio de 1977, Nito Alves e alguns companheiros da primeira região aliados a jovens estudantes enquadrados em vários comités de acção, haveriam de estar envolvidos numa intentona cuja resposta das autoridades culminaria numa chacina sem precedentes que acabaria por provocar traumas políticos, físicos e psicológicos que marcam até hoje a nossa sociedade.

Há quarenta e cinco anos, Mário de Almeida “Kassessa” foi nomeado primeiro Ministro da Saúde de Angola, mais dois anos depois, vítima de uma cabala intriguista movida pela clique de enfermeiros oriundos de Catete próximos de Agostinho Neto, antecipa-se à exoneração, torna-se no primeiro governante a pedir a demissão e, sem que caísse o Carmo e a Trindade, perseguiu a sua carreira como médico dos SAM Serviço de Assistência Médica Militar…

Há quarenta e cinco anos não havia produção de crude que justificasse a existência de um Ministério dos Petróleos, mas quando quatro anos depois Jorge Morais, “Monty”, cunhado de Agostinho Neto, é indigitado Ministro dos Petróleos, surge a primeira grande contestação à nomeação de um governante em Angola, protagonizada em 1978 por Carlos Rocha “Dilolwa”, que iniciaria a partir daí uma longa travessia no deserto até ao suicídio em Novembro de 1996…

Há quarenta e cinco anos, passados quatro anos, meses antes de viajar pela última vez para Moscovo, Agostinho Neto encarrega um alto dirigente do MPLA de fazer chegar uma carta com várias recomendações a Lopo do Nascimento – então em Adis-Abeba como representante da Comissão Económica das Nações Unidas para a África junto da OUA – mas esta carta só lhe chegaria às mãos largas semanas após a morte do primeiro Presidente de Angola…

Há quarenta e cinco anos, Lopo do Nascimento viria o seu nome associado à história depois de ter proferido uma célebre frase num dos comícios em Luanda: “É preciso partir os dentes da pequena-burguesia”!

Há quarenta e cinco anos desenhamos uma sociedade inclusiva, mas embriagados pela euforia revolucionária, decretamos a nacionalização dos bens de todos aqueles que se ausentavam de Angola por um período superior a 45 dias e, com esta medida, não demos conta que andávamos, afinal, a instalar um sentimento de insegurança económica que haveria de se acentuar com a sovietização da propriedade privada e a cubanização da gestão económica do país.

Há quarenta e cinco anos ainda tratávamos com deferência e tínhamos como referência os estudantes que se distinguiam no quadro de honra, mas com a coisificação de certos valores e a exaltação do acessório, a distinção com honra para o Estado virou-se para os concursos de beleza feminina…

Há quarenta e cinco anos pusemos fim ao cortejo de injustiças sociais e de discriminação económica impostas pelo colonizador e fizemos vincar a justeza da nossa luta, mas quatro décadas e meia depois ninguém imaginaria que novos detentores do poder haveriam de se entregar à um verdadeiro “genocídio” económico.

Há quarenta e cinco anos a corrupção era uma criança, mas à medida em que, numa espiral de incontrolável promiscuidade, fomos amancebando a relação entre os três poderes – Legislativo, Executivo e Judiciário – não demos conta que aos poucos estávamos a matar o Estado ao re teoria da separação dos poderes criada e defendida pelo filósofo francês Montesquieu como forma de evitar os desmandos dos governos.

Quarenta e cinco anos depois, congratulamo-nos por sermos um país portador de tecnologia do primeiro mundo, mas somos dirigidos por cérebros atados a valores quarto mundistas.

Quarenta e cinco anos depois, se nascemos dirigidos por um Executivo tão jovem como aquele que hoje governa o país, a verdade é que, entre uma e outra geração, há uma diferença sacramental.

A primeira, impreparada, imatura e voluntarista, era uma geração de causas. A segunda, melhor formada, treinada e preparada, tem-se comportado como uma geração de casos.

É contra esta geração que tem de se erguer agora um poder tolerante para com a divergência democrática, o direito ao protesto e à indignação e à existência de contrapoderes como único motor capaz de levar o país a enfrentar e vencer a nossa crise de valores.

É pela geração de causas, que, como adverte João Melo num soberbo poema dedicado a Matadi Daniel, a geração que nos governa tem de responder a esta pergunta: Onde foi que errámos? ■

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