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Costa Silva: Presidente angolano precisa de “rasgos” para evitar “grande instabilidade”

O gestor António Costa Silva considerou hoje que o Presidente angolano, João Lourenço, precisa de “rasgos” em termos de política interna para evitar uma “grande instabilidade” no país.

Para Costa Silva, nascido no planalto central angolano, fundador e membro dos comités Amílcar Cabral, que apoiavam o MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola) e contestavam o regime colonial, Angola atravessa, 45 anos depois da sua independência, um período difícil “com seríssimos riscos de instabilidade política e social”.

“A combinação do declínio das receitas petrolíferas, deterioração da situação económica do país, as expectativas que podem não ser preenchidas, ou totalmente preenchidas, na luta contra a corrupção, cria uma combinação tóxica”, explicou o gestor, autor do documento-base para o plano de recuperação da economia portuguesa para 2020-2030 e especialista na área do petróleo.

Para Costa Silva, esses “rasgos” são “conseguir aglutinar uma plataforma política para se encontrar uma saída para o país, unir os ‘players’ económicos para encontrar formas de diversificar a economia, falar com os partidos da oposição para congregar vontades, fazer ou ativar a comissão de reconciliação nacional sobre todos os incidentes que o país passou no passado, para ser um ato regenerador e dar um significado diferente à vivência que o país tem como uma comunidade, dar sinais claros de transparência, de prestação de contas”.

“São esses sinais, que vindos da liderança, depois podem mudar a conjuntura do país”, considerou o gestor em entrevista à Lusa a propósito dos 45 anos da independência do país onde nasceu, que se celebram no próximo dia 11.

Agora, “se a liderança se isolar progressivamente, se não construir estas plataformas colaborativas, se não conseguir agregar vontades”, o executivo “pode rapidamente perder o resto das expectativas e da boa vontade que existe no país”, sublinhou.

Para Costa Silva, o Presidente João Lourenço “é uma pessoa que veio do próprio MPLA, conhece muito bem qual é a situação, e resolveu escolher um caminho”, deu um passo na “luta contra a corrupção, que é essencial”. Mas “é evidente que os desafios são colossais”

É necessária “a mudança de um paradigma mental que existe no país, que é um país rendista, que sempre viveu à conta das rendas do petróleo, sem grande necessidade de fazer sacrifícios para diversificar a economia”, avisou o gestor.

Nos últimos anos, Luanda apostou em novas descobertas petrolíferas nas águas profundas, na esperança de que a costa angolana fosse semelhante ao litoral brasileiro, o que não sucedeu.

“Em função desse erro, as descobertas não ocorreram e a produção petrolífera começou a declinar. No ano passado, foi à volta de 1,37 milhões de barris por dia, quando em 2015 quase chegou a 1,8 milhões de barris por dia, portanto é um declínio de 24% em quatro a cinco anos”, acrescentou.

Para o gestor, que é também presidente da empresa petrolífera Partex, “isto mostra claramente que o futuro de Angola não pode ser o petróleo”.

Por isso, será “muito importante que, quando a economia se reativar e os preços [do petróleo] recuperarem, usar essas receitas para diversificar a economia e desenvolver ouros setores, como o agrícola, absolutamente fundamental para o país. Até porque Angola importa a maior parte dos bens alimentares que consome, o que é um paradoxo em si, porque tem solos que são extremamente ricos”, apontou.

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