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Yuri da Cunha chorou

O músico Yuri da Cunha esteve recentemente aqui na aldeia Camela Amões, numa daqueles nobres digressões em que o artista tenta reconectar-se com as suas raízes. Já encontrei-me com vários músicos sérios na minha vida.

Um dos aspectos que muitos têm em comum é um profundo senso de curiosidade. Para os grandes músicos e artistas nada está perdido, eles absorvem tudo e transformam o mesmo em obras de arte.

Quando eu propus a Yuri da Cunha que ele nos acompanhasse para uma aldeia, para presenciar a entrega de ajuda mensal para os idosos, parte do programa do Projecto Aldeia Camela Amões, ele não hesitou. Assim partimos para a aldeia do Silandwa.

Silandwa, uma aldeia no município do Chiumbo, têm a distinção de ter um microclima singular, estando entre montanhas e rios, a aldeia está coberta de mangueiras, abacateiros e até de palmeiras, que usualmente só se encontram no norte.

No passado, eu disse a Yuri que quando os mais velhos iam trabalhar lá no norte ou mesmo noutras partes do continente africano, eles tinham o hábito de trazer consigo plantas, todo tipo de plantas.

Também disse a Yuri que, aqui nesta aldeia, embora os aldeões sejam católicos e protestantes praticantes, práticas do passado, como homenagear os antepassados, criando pequenos templos para eles, ainda estavam bem vivas. Yuri queria saber mais sobre estas práticas. Os artistas, em geral, se interessam muito pelo aspectos da cultura que nem sempre estão tão óbvios.

Yuri da Cunha, pessoa profusamente humilde, é conhecido mesmo nas aldeias. A sua presença na Aldeia do Silandwa causou muita comoção, as avós começaram a cantar canções tradicionais usualmente para pessoas de grande importância. Yuri da Cunha fechou os olhos para encobrir as lágrimas, ele estava cheio de emoções.

Obviamente que Yuri da Cunha talvez não esperava aquele tipo de pobreza: Eu passei pela mesma realidade quando tive que ver como é que o nosso povo no interior vive. Comparado com o povo que vi no interior da província de Malanje, os aldeões do Silandwa estavam quase num paraíso. Em todo o caso, pobreza é pobreza.

O povo da Silandwa tinha a sorte de fazer parte de um programa de estradas, que estão a ser construídas pelo o empresário Segunda Amões que, usando os seus próprios recursos, está a construir uma rede de vias que está a acabar por completo o isolamento de muitas aldeias. Segunda Amões financiou e organizou a construção de uma das maiores pontes por cá que transformará a economia de centenas e centenas de aldeias.

Yuri da Cunha, ao ver a aldeia de Silandwa, virou para mim e disse, “cota, a vida está aqui. Cometemos um grande erro em pensar que não há nada aqui no interior. Nós, lá fora, é que estamos a morrer pouco a pouco.” Yuri da Cunha é profundamente inteligente.

Sim, ele poderá ter deixado a sua educação formal muito cedo, porém, ele nunca deixou de aprender Yuri da Cunha parece ser uma daqueles pessoas que passam por este mundo sempre a fazer os seus deveres.

No Silandwa, passamos a falar sobre a espiritualidade, de como nós africanos podemos lidar com um certo sincretismo sem termos que perder a nossa essência espiritual. Eu disse a Yuri que a vitalidade da

cultura da África Ocidental era o facto de que os criadores da sua cultura nunca tinham mesmo perdido o contacto com os seus passados. De repente, no seu iPhone, Yuri da Cunha mostrou-me um clipe interessantíssimo da escritora moçambicana, Pauline Tchiziane, em que ela ruminava sobre as contradições entre ser cristão e rejeitar tudo o que era africano. Devo confessar que fiquei altamente surpreendido pelo o clipe.

É que eu sempre pensei do Yuri da Cunha como um “entertainer”, o nosso Mr Punlunguza, o James Brown mwangolé, alguém cheio de “sex appeal” que fazia com que teríamos que mandar as nossas filhas e esposas para as lavras, se estivesse na área.

Yuri da Cunha, que estava comigo, fazia os meus alunos de Literatura em Nairóbi, Quénia, a tornarem-se altamente curiosos, com uma boa educação, como se tivessem saído de um seminário para pastores, cheio daquela generosidade típica de grande artistas. Yuri da Cunha é uma pessoa muito séria, alguém que não parava de falar dos problemas da juventude.

Ele estava visivelmente preocupado com as condições por trás do desassossego de muitos jovens nas áreas urbanas. Levei Yuri da Cunha para vários projectos aqui na aldeia Camela Amões, ele não parava de fazer perguntas e explorar formas de como os mesmos poderiam ser replicados no resto da nação.

A um certo momento, Yuri da Cunha mandou vir uns altifalantes da sua viatura e meteu uma das suas últimas composições a tocar. Toda a aldeia começou a dançar com ele. Eu notei que aquela composição tinha sido inspirada pelo Afro-beat do grande Fela Rasome Kuti.

Fela foi um músico pan-africanista, que se dedicou aos pobres, aqueles que não tinham voz na sociedade. Yuri da Cunha, com a sua música cheia de influências do nosso continente, estava a fazer o mesmo…

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