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O tempo e o bom senso (V)

1– Foi na semana passada e antes dos tristes acontecimentos de sábado. Sonhei com polícias, em duas noites seguidas. Em ambas ocasiões acordei sobressaltado, depois fiquei preocupado, com uma sensação estranha de medo e pânico.

As fardas e as armas sempre me assustaram, e logo que me vi livre do torpor da ilusão fui consultar uma espécie de oráculo de sonhos, uma mania que vem do tempo das minhas avós que me contavam estórias de encantar. Acostumaram-me a adivinhar as coisas ocultas pelos sonhos e vinham da vontade dos deuses.

Que fique claro que não sou crente dessas ciências da adivinhação, mas assumo que para além de me benzer quando entro numa igreja, dou sempre uma espreitadela ao meu horóscopo sempre que vejo aquelas listas dos signos que surgem em certas publicações.

Coisas do tempo e da habituação, costumes a que nos sujeitamos. Comparo-as às vezes à amarração a que nos submetemos – estúpida, na maior parte dos casos – ao nosso partido político ou ao nosso clube de futebol que nos prendem pelo coração.

Falando dos sonhos, direi que das várias coisas que já li e ouvi acerca destas profecias, consta a de que sonhar com polícias significa que o sonhador poderá ter problemas momentâneos, mas que com calma eles poderão ser resolvidos.

Podem simbolizar autoridade ou até mesmo a necessidade de termos de nos precaver contra qualquer perigo. Muitas vezes tendemos a interpretar um sonho de acordo com as experiências por que já passamos e a mim já aconteceu isso. Algumas pessoas têm facilidade de se lembrar dos sonhos.

Eu sou uma delas e basta recordar como fiquei apreensivo depois do sonho com os polícias. E tinha razão para isso. Os problemas vinham a caminho, tal como pressagiavam as minhas fantasias.

Veio então a já famosa manifestação do dia 24, com a carga de todas as dúvidas e especulações que transportou para o pensamento dos cidadãos (a manifestação e as posições de manifestantes e autoridades, a intromissão de partidos políticos, a falta de bom senso e a incivilidade), um cocktail de factos que culminou, natural e previsivelmente, com actos de violência extrema, com polícias, cavalos e cães em actuação, e a prisão injustificada (segundo muitos), mas necessária (segundo quem os prendeu), de mais de cem cidadãos e agora, até à hora em que escrevo, com um caso de Covid-19 pelo meio, actos que vêm adensar ainda mais o nosso sombrio, trágico, obscuro e incompreensível (ou talvez não) ambiente político.

Uma ocorrência dolorosa perfeitamente evitável, se houvesse ponderação e bom senso, quer de governantes, quer de governados. Desobediência? Queimar a TPA e outros órgãos de comunicação? Maltratar jornalistas? Não se consegue conversar? Mas afinal em que terra estamos nós? O que se está a passar com a nossa gente?

2 – Que eu me lembre, pelo menos nestes tempos mais modernos – porque naqueles em que a democracia estava lá longe ninguém se atrevia a contestar qualquer gesto governativo – nenhuma nomeação mereceu tanta oposição como a que alcandorou Jomo Fortunato ao cargo de super-ministro da Cultura, Turismo e Ambiente – uma área de governação que requer muito arcaboiço –, gabinete até aí ocupado há cerca de seis meses, também com alguma perplexidade, pela jovem bióloga Adjany Freitas Costa.

Concretizava-se a segunda parte do vaticínio do meu agitado sonho com polícias. As notícias não eram auspiciosas. Tentarei explicar, a seguir, a razão de me expressar desta forma sobre o episódio que marca de um modo extremamente perigoso e por isso preocupante, o rumo do sector da Cultura no nosso país, uma área que, infelizmente, nunca foi entendida desde sempre pela nossa governação, em toda a sua plenitude.

Na verdade, a Cultura nunca foi um órgão devidamente credibilizado pelo nosso Executivo. Facilmente se chega a esta conclusão, se analisarmos com algum cuidado e ao longo dos tempos, os gestos governativos neste domínio. São próprios de uma sociedade que se habituou a olhar a cultura e as artes como se elas se resumissem apenas à gastronomia, ao artesanato, a uma ou

outra exposição, a alguns músicos, para além de manifestações populares e a concursos baratos, às quais se juntam uma série de modas de completa alienação e ausência de valores.

A Cultura não interessa, não é uma área estruturante, pensa quem manda. Resultou desse tipo de pensamento uma sociedade sem olhar crítico e sem capacidade para avaliar a qualidade, ou a falta dela, da pobre oferta cultural que se apresenta entre nós. Não me perco em considerações sobre o Turismo e o Ambiente pelo vazio que sempre constituíram essas áreas, Governo após Governo.

Só assim se pode entender que ao erro e precipitação da nomeação da inteligente mas inexperiente Adjany Costa, seguiu-se a nomeação de alguém que desde sempre tem sido catalogado nas diversas áreas por onde passou, pelo título de um desonesto intelectual, credencial bastante negativa que, desde logo, deveria ter refreado a vontade de o nomear.

Jomo Fortunato foi afastado de quase todos os lugares por onde passou, por causa da sua falta de cuidado, bom senso e há quem diga mesmo, de desonestidade. Mas, o mais bizarro e preocupante desta nomeação é o facto de o Presidente da República indicar para um cargo de alta responsabilidade, um indivíduo que ele próprio exonerou, há pouco mais de um ano, por conduta inapropriada no exercício de uma função que desempenhava em local e instituição considerada quase como sagrada.

Não se compreende. Mas afinal quem aconselha o Presidente nesta área? Como pode o PR não pedir informações sobre um futuro dirigente?

É claro que pode ter pedido e ter sido enganado como tem sido noutras situações, mas desta vez, nem o factor género foi tido em conta, como está em voga e tem sido hábito utilizado ultimamente.

Devo ainda dizer que, não sendo pessoa habituada a este tipo de situações, não tendo nada de pessoal e relevante contra Jomo Fortunato, tenho, todavia, o meu nome inscrito no movimento cultural pósIndependência de Angola e por tal facto, responsabilidades enquanto promotor de cultura no meu país.

É pois, nesta condição que, tendo em mãos inúmeras declarações de várias pessoas de variados sectores da sociedade civil e da cultura nacional, me permito afirmar que a maioria dos intelectuais, escritores e artistas, muitas pessoas da cultura de Angola, no país e no estrangeiro, sentem-se ultrajadas e indignadas por esta nomeação.

Que o país está mal, já o sabemos há muito tempo, mas que ele está quase que em queda livre para o abismo, fica legível na nomeação desta figura, um senhor que, tecnicamente falando, possui um cadastro muito conhecido e pouco abonatório, segundo inúmeras informações.

Relativamente a Adjany Costa, uma jovem que admiro de verdade, mas que foi enganada até ver que andava equivocada e resolveu ser prudente – entenda quem quiser o que pretendo dizer –, aconselho-a a dar continuidade à sua belíssima carreira de pesquisa científica, fora do ambiente tenebroso das makas políticas que se urdem no nosso país, nos corredores de ambiente sombrio dos ministérios e serviços, a maior parte delas envolvidas vergonhosamente em interesses do maldito dinheiro que transtorna a cabeça dos angolanos.

Foi um erro ter trocado o seu brilhante percurso por um cargo ministerial que se adivinhava de dificuldade extrema, onde se juntaram três áreas ministeriais, qualquer delas de enorme complexidade e sempre sujeitas a circunstâncias acidentais.

No fundo, uma área mal pensada e tão insegura como o tempo em que que foi idealizada, incapaz de sobreviver neste clima de inveja e intriga política que envolve o nosso universo socioeconómico. Quanto a mim, Adjany não se deveria sujeitar agora a uma função de consultoria.

Há consultoria e assessoria que chegue no Palácio da Cidade Alta, no meu entender e pelo que temos visto. Se estivesse no seu lugar, jamais aceitaria esse cargo, mas a verdade é que eu tenho quase oitenta anos e ela tem apenas trinta. Neste encontro de gerações emaranham-se os ciclos do tempo e do bom senso.

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