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O tempo e o bom senso (IV)

1 – Há muito que acompanho a trajectória de Jorge Valdano, um argentino com invejável percurso no mundo do futebol (jogador, treinador, dirigente e comentador). Em todas as áreas do jogo das multidões onde se envolveu, teve desempenho elevado, notabilizou-se e distingue-se sempre pela inteligência que coloca ao serviço das suas ideias, superiormente sustentadas.

Não dispenso a leitura dos artigos que subscreve no jornal “A Bola”, nem os seus comentários na televisão espanhola, sempre que possa. Recentemente, deliciou-me com uma prosa onde define com refinada classe as qualidades futebolísticas de Lionel Messi. Com invejável capacidade de síntese, utiliza uma linguagem rara e inteligente na sua escrita futebolística.

Faço este intróito para vincar que é impossível não se gostar de futebol e de televisão quando trabalhados com elegância e inteligência e através dos jornais ou do pequeno ecrã, nos entram em casa figuras como Valdano, a nível do futebol, e apresentadores, jornalistas competentes, entrevistadores e realizadores de nível, no que respeita à televisão.

É igualmente impossível não se gostar de viver numa sociedade onde a vida seja guiada pela visão inteligente e pelos gestos cívicos dos seus cidadãos, designadamente os que ostentam o estatuto de figuras públicas, pelo progresso e sucesso das instituições onde funcionam, nomeadamente daquelas que são fundamentais na elevação do nível cultural da população, como é o caso da comunicação social, de um modo geral, e da televisão particularmente.

Posto isto, passo a manifestar o meu desagrado e preocupação pelo facto de a TPA me ter mostrado, na semana que passou, exactamente o contrário. De facto, ter decidido assinalar, da forma como o fez, os seus quarenta e cinco anos de existência, foi um acto, no mínimo, irresponsável. Um desastre, quanto a mim, um perfeito retrocesso em relação à sociedade e à sua evolução, e uma falta de respeito a todos quantos ergueram o edifício da televisão no nosso país.

A nossa Televisão Popular resolveu homenagear um conjunto de profissionais, entre locutores, apresentadores e outros quadros que deram o que podiam em prol da televisão em Angola, chegando alguns deles ao difícil posto de professor. Tudo bem, até aí, nada a dizer.

O que não me parece correcto é que se tenham esquecido dos que iniciaram verdadeiramente a caminhada, paralela aos caminhos tortuosos que levaram à edificação da República de Angola.

Um conjunto de pessoas de alta valia, de técnicos e profissionais angolanos que foram, eles sim, os pioneiros da televisão no nosso país, os professores e mestres de muitos e que, de modo nenhum, deveriam ser esquecidos nessa manifestação.

Um lamentável lapso, se é de lapso que falamos. Leviano, se foi excluído quem não deve nem pode ser excluído, por tudo quanto fica dito atrás. Uma tremenda falta de respeito, se a intenção e o gesto significam exclusão, o que transforma o assunto numa situação grave e absurda.

Entre tanta coisa deplorável que acontece entre nós, televisão incluída, o tempo tem-me mostrado factos só possíveis de registo pela ausência de bom senso, aquele gesto que é sempre necessário em momentos iguais aos que reporto, indesculpável quando é ignorado deliberadamente. Não admira, portanto, que tivessem recaído um justíssimo conjunto de críticas sobre os autores desta proeza.

Era perfeitamente evitável a situação desagradável que foi criada. É necessário que se ganhe a noção de que, tal como acontece no combate à corrupção e noutras áreas da cidadania, como a igualdade e a inclusão, as pessoas responsáveis exigem hoje com outra firmeza, formas isentas e independentes de actuação sempre que a nossa imagem pública possa ser beliscada.

Não foi há muito que o Presidente da República, enquanto Presidente do MPLA teve que corrigir um erro que persistia ao longo do tempo sobre os nomes das personalidades que foram, no decorrer dos anos, os líderes da organização política que governa o país desde a proclamação da nossa Independência.

Espero que não seja necessário o recurso às suas altas esferas, para se dizer justamente, quem foi quem na Televisão Popular de Angola. Será assim tão difícil?

2 – Nepotismo é o termo utilizado para designar o favorecimento de parentes em detrimento de pessoas mais qualificadas, especialmente no que respeita à nomeação ou elevação de cargos na função pública. Por razões óbvias, não tenho a menor dúvida que o nepotismo tem sido o causador de muitos dos problemas com que se debateu e provavelmente ainda se debate, a nossa governação, recheada que ela está de casos desta natureza.

Durante muitos anos fomos assistindo ao vergonhoso desfile de uma quantidade enorme de parentes que se arrumavam e acomodavam em cargos interessantes em ministérios, instituições, empresas públicas, embaixadas, enfim, pululavam por empregos que garantiam salários e regalias para uma parentela viciada e necessitada de visibilidade e, naturalmente, de bons lugares e competentes mordomias.

Como é fácil deduzir, na maior parte dos casos, resolviam-se situações de pessoal que para além de exibir vaidade também mostrava incapacidade funcional, enquanto eram atirados para as prateleiras os quadros qualificados, traduzindo-se esses gestos irresponsáveis em nítidos prejuízos para os diversos serviços. Trata-se de um grave problema que ainda mostra os seus tentáculos e que urge modificar.

Sempre que abordo este tema lembro-me de uma experiência vivida em 1992, no exterior do país. Nesse ano e no quadro de um acordo que visava o conhecimento e a capacitação de quadros nas várias áreas de actividade a que estávamos ligados, integrei um grupo de técnicos nacionais que beneficiaram do contacto com a realidade de sociedades mais evoluídas.

Sendo técnicos da área dos seguros, eu e dois colegas, vivemos a nossa experiência, rara e excepcionalmente proveitosa, num colosso do mercado segurador europeu: a MAPFRE, sedeada na região de Majadahonda, nas cercanias de Madrid, a capital. Este gigante do mercado financeiro mundial não se havia estendido ainda pelo mundo, como acontece agora.

Porque me lembrei da Mapfre? Apenas por uma particularidade que tem a ver com o nepotismo. Na Mapfre, por obrigação estatutária, não eram admitidos para os seus serviços, familiares de trabalhadores da empresa, qualquer que fosse o seu cargo ou a sua responsabilidade.

Um travão claro ao nepotismo. E esse hábito não era adoptado apenas na Mapfre. Julgo que continua a ser cumprida essa obrigação. Algum dia teríamos a felicidade de ver estabelecido por lei este princípio em Angola?

P.S. – A festa realizada no passado fim-de-semana no Miramar pela cantora Yola Semedo, cujas imagens me chegaram via WhatsApp e circularam livremente pelo mundo, são uma mostra desoladora de falta de bom senso da “diva” angolana da canção e dos seus seguidores. Uma pena que não se tenha noção do grave momento que vivemos!

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