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Conversa na Mulemba: É preciso dar o País à manivela (II)

Prometi na conversa anterior que voltaria ao assunto porque não havia esgotado os temas. Antes de tratar outros, porém, revisito dois dos anteriores porque me parece importante chamar a atenção para o que vai acontecendo neste cenário de crise, e que está a afectar aquilo que julgo fundamental preservar, de modo a não resvalarmos para o abismo. Começando pela economia, é da mais elementar justiça reconhecer que no domínio da produção agrícola e industrial se registam mais progressos nos últimos dois anos do que nos dez anteriores, quando nos havia sido garantido pelo Chefe do Executivo da altura uma espécie de paraíso com os investimentos na Zona Económica Especial e nos projectos agrícolas de larga e média escala.

Reverter esses dois desastres, que mostram como o erário foi delapidado e mal tratado, tem sido osso muito duro de roer. Todavia, devo continuar a chamar a atenção para o modo como algumas correcções de tiro estão a ser feitas, pois corremos o risco de dentro de poucos anos termos de voltar a corrigir um mal que podia ter sido evitado. Um exemplo é o que se passa com as cooperativas de agricultores familiares. Não será atirando dinheiro para cima dos problemas que estes poderão ser resolvidos. O abandono a que estiveram votadas ao longo dos anos não lhes permite capacidade de gestão para enfrentarem os desafios que o Executivo lança. As boas práticas internacionais recomendam para estas situações muita prudência e abordagens experimentais tipo piloto. Financiar cerca de 300 cooperativas sem garantias de eficácia e eficiência é um acto verdadeiramente temerário e voluntarista a que o Executivo está a dar cobertura por interesses nitidamente eleitoralistas.

As declarações do Embaixador francês cessante (Novo Jornal, 2/10/20) sobre a impressão causada pelos empresários angolanos que acompanharam o Presidente João Lourenço por ocasião da sua visita à França é vergonhosa e só choca a quem anda distraído. Antes dele, já muita gente disse o mesmo por cá. Não é por acaso que os bancos comerciais (que se sabe também não serem santos, nem movidos essencialmente por patriotismo) argumentam falta de confiança nos projectos e seus promotores para não os financiarem.

As reservas em relação ao PRODESI residem exactamente aqui. Entre os erros das últimas quase duas décadas, no domínio da microeconomia, aparece sempre em primeiro lugar o vazio na formação e capacitação de empresários e gestores, incluindo os das cooperativas.

O segundo tema revisitado é o da comunicação social. Apesar de ter manifestado reiteradamente que a abertura da sociedade é o maior ganho da governação do Presidente João Lourenço, incluindo a possibilidade de órgãos privados que apoiaram o ex-Presidente José Eduardo dos Santos estarem agora a criticar, nem sempre justamente, o actual Executivo, associo-me àqueles que têm manifestado a sua preocupação com o caminho por que se está a seguir nos últimos meses.

Censura, omissões, unanimismo e propaganda estão de regresso aos órgãos de comunicação social públicos e teme-se que o pouco que resta de bom e sensato venha a desaparecer à medida que aumentem as dificuldades do Executivo e do MPLA em gerir os dossiês que inevitavelmente continuarão a vir à luz do dia e que se aproximem os pleitos eleitorais. Já critiquei a ressurreição de certas “solidariedades” com o rosto do Presidente estampado em camisolas, mas fiquei estupefacto com a ideia de mau gosto de exibir esse mesmo rosto numa cerimónia em homenagem ao finado Luther Rescova.

Este é apenas um exemplo, dos muitos a apontar, das dificuldades que se deparam ao MPLA em fazer política sem ser através da propaganda, o que está a provocar inevitáveis danos à imagem de João Lourenço. Mas a apreensão de todos os que desejam uma Angola credível e respeitada, para o bem de todos, mas todos mesmo, angolanos, e necessária para que o mundo mude definitivamente de opinião sobre o que é o nosso País, aumenta quando se vêem e antevêem medidas que reforçarão o controlo governamental, e, consequentemente partidário, sobre a comunicação social em geral e tornarão cada vez mais difícil a actividade privada nesse domínio. Finalmente, o modo que se geriu a comunicação da morte de Luther Rescova prova uma vez mais a incapacidade comunicacional institucional e o resultado é a onda de especulações que rodeia o assunto.

Há cerca de um mês o tema da Polícia estava na berlinda. Não apenas pela morte do médico Sílvio Dala, caso que provocou enorme celeuma, não apenas pelo acto inqualificável em si, mas pelo modo desonroso como foi tratado pelas autoridades, começando por uma tentativa de omissão, provocando uma onda de protestos da classe médica e da sociedade civil numa altura em que as atenções deveriam estar concentradas na solução dos graves problemas que enfrentamos.

A Polícia Nacional estava na berlinda igualmente pelo inaceitável número de mortes de civis indefesos provocadas pelas Forças de Defesa e Segurança desde o início do período de excepção que se vive, o que originou a ira de muitos cidadãos, explicando a danificação de edifícios policiais, um deles com uma imagem física simplesmente deplorável, o que revela também as condições em que a corporação trabalha. A actuação da Polícia Nacional tem merecido muitas críticas ao longo dos anos, o que a transforma numa instituição merecedora de pouca confiança por parte dos cidadãos.

Estou de acordo com quem diz que não se deve confundir a árvore com a floresta, e que a actuação de alguns elementos das forças policiais não implica a condenação da corporação por inteiro, e sabe-se que esta esteve sempre infiltrada por marginais, muitas vezes com inconvenientes conveniências. Em quase todo o mundo a polícia é vista com pouca simpatia, mas tenho constatado ao longo dos anos melhorias, não apenas no desempenho global, onde cidadania já não é uma ideia estranha, mas também no comportamento urbano de muitos agentes.

Uma das mais significativas mudanças tem sido no modo de agir durante as manifestações. Talvez por maior comedimento resultante do caso Sílvio Dala, pude constatar o modo como os agentes se portaram diante dos manifestantes no dia 3 de Outubro passado, que por sua vez não fizeram provocações gratuitas, bem pelo contrário, tentaram atrair alguns agentes para a sua causa, o que revela que comportamentos salutares tornam tudo mais fácil e as tensões diminuem ou nem sequer têm lugar. Nada comparável ao que acontecia há poucos anos.

A mudança registada mostra uma vez mais que a sociedade civil em Angola tem mais força do que muitos pensam e que tal força não deve ser subestimada, Mostra também que a postura do Executivo é diferente da do tempo de José Eduardo dos Santos, ainda que haja quem insista em não o reconhecer, e que o importante não é cair no bota abaixo mas sim aproveitar todas as pontes possíveis para se conseguir diálogo, pois será com ele que se poderão dar mais passos na melhoria do ambiente político e social. A publicação da nova encíclica papal Fratelli Tutti não poderia ser mais oportuna, mas infelizmente o espaço não permite alongar-me sobre ela. Mas permite dizer que confiança é a palavra-chave para o desenvolvimento da economia, para a captação de votos, para a paz social.

Voltarei ao assunto, pois não está esgotado.

PS – É já um lugar-comum dizer-se que a partida de alguém constitui uma perda irreparável para o país ou para um grupo. No caso de Luther Rescova a perda foi muito grande. Angola perdeu um jovem que estava a introduzir na cena política angolana um novo modo de estar e agir, com real proximidade do cidadão e dando sentido à ideia do que significa trabalhar com o cidadão na solução de problemas concretos e não para o cidadão. Muito diferente dos jovens engravatados que conhecem melhor a rota aérea para qualquer cidade da Europa do que um quilómetro de estrada para o interior do País. Não sei que motivos terão levado à sua exoneração, mas foi claramente um dos melhores governadores de Luanda.

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