InicioCrónicas e ArtigosA fome e a mortalidade infantil - Luís Bernardino

A fome e a mortalidade infantil – Luís Bernardino

Não é a primeira vez que, com destaque na primeira página, Teresa Fukiady aborda, no NJ, o grave problema de crianças angolanas que estão a morrer de fome. Desta feita, citando os números dum relatório da Direcção Nacional de Saúde Pública, são notados os óbitos por desnutrição de três anos anteriores (2017-2019), que, somados, correspondem a um total de 7.885, mas que são inferiores aos 8.413 óbitos pela mesma causa, verificados apenas no primeiro semestre de 2020!

Esta notícia tem tal gravidade que merece ser urgentemente escrutinada: ou é real e prenuncia uma catástrofe que deve ser imediatamente contrariada, ou corresponde a erro de dados ou diferente metodologia no seu tratamento. É certo que o registo e o tratamento estatístico da doença, no nosso País como noutros do continente africano, são muito deficientes, de tal modo que o que se conhece de certeza, em números, são apenas as projecções dos dados de inquéritos múltiplos periódicos, feitos a amostras representativas da População (MICS).

O facto de o sector de Nutrição da Direcção Nacional de Saúde Pública apresentar agora dados precisos é, para mim, uma agradável surpresa, face ao que encontrei, quando, há algum tempo, aí recorri para obter números para uma conferência num congresso da Ordem dos Médicos. Contudo, no texto do NJ, há algumas imprecisões e contradições que convém esclarecer, por exemplo, a referência a um número de 76.480 crianças de menos de cinco anos admitidas em seis meses nos serviços de nutrição (um número elevadíssimo!) e, mais adiante, fala-se em 21.869 admitidas nas Unidades Especiais de Nutrição. Serão os primeiros números dos atendidos nos Centros Ambulatórios e os segundos referentes aos casos mais graves que são internados?

O conceito de fome, tecnicamente designado de má nutrição, evoluiu da descrição dum processo para a entidade nosológica «malnutrição», que corresponde já a uma categoria clínica que abarca a falta de alimentos e outras condicionalidades. Trata-se do binómio malnutrição-infecção, em que opera um ciclo vicioso: a malnutrição facilita a infecção (por perda de imunidade da criança malnutrida) e a infecção (sobretudo se crónica e mantida – diarreias prolongadas, tuberculose, SIDA), potencia a falta de alimentos e provoca malnutrição. Na base das principais doenças infecciosas, que ainda são a principal causa de mortalidade dos menores de cinco anos entre nós, está a malnutrição, como ilustra este diagrama que avança com uma estimativa de 54% na importância e prevalência deste fenómeno em todos os tipos de doenças infecciosas em crianças.

Portanto, a gravidade dos números apresentados está não apenas em revelar-se a malnutrição, mas também em iluminar-se os problemas de saúde dela decorrentes e antecipar um aumento dos nossos já pesados números de mortalidade de menores de cinco anos.

Sem entrar em tecnicalidades, na nossa prática corrente, o diagnóstico de malnutrição (baseado na clínica e na antropometria – as relações peso, altura e idade) é frequentemente um segundo diagnóstico: a criança com pneumonia ou tuberculose é também, muitas vezes, malnutrida. Em geral, utiliza-se «malnutrição» como o primeiro diagnóstico quando se trata de malnutrição grave (termos como Marasmo, Kwashiorkor e Marasmo-Kwashiorkor, referidos no texto, são, modernamente, substituídos pelo conceito geral de malnutrição grave, quando o valor dos dados dos doentes está abaixo de três desvios-padrão da média). O dar-se neste caso precedência à malnutrição como primeiro diagnóstico é o indicativo da necessidade urgente de reabilitação nutricional, mas nunca se devem descartar os eventuais condicionantes infecciosos (o que poderá acontecer se a criança for directamente enviada para um centro de nutrição sem facilidades diagnósticas).

Este ciclo vicioso agravou-se na guerra com que, de 1992 a 2002, Savimbi flagelou o povo angolano: milhares de refugiados, quebra nas comunicações, baixa produção agrícola, sabotagem dos aparelhos de produção e distribuição de energia, inoperância das acções de saúde – tudo isto guindou Angola, no início do século, ao triste lugar de País com a maior mortalidade de menores de cinco anos no mundo.

Houve sensíveis progressos num clima de paz, que, contudo, ainda não tiraram o nosso País do grupo das nações onde mais morrem as crianças de menos de cinco anos. Se os números do grande e súbito aumento da malnutrição agora referidos se confirmam, e a tendência favorável das nossas estatísticas está comprometida, pelas razões aduzidas, temos de avançar com algumas hipóteses:

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