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A curva mais apertada de João Lourenço…

Livre da sombra do seu antecessor, a dezoito meses da sua primeira grande prova de fogo eleitoral “a solo” ao nível do Estado, na semana passada João Lourenço começou a fazer a curva mais difícil e apertada da sua carreira política.

Se, pela frente terá de enfrentar um palco salpicado de espinhos, por detrás, será acossado por uma multidão de cobradores que, arrevesando-se todos os dias por múltiplas arenas, depois de conferirem a folha de promessas apresentadas em 2017, prepara-se agora para lhe exigir o pagamento da factura.

Anestesiado pelo mesmo erro de paralaxe cometido em 2012 por José Eduardo dos Santos com a promessa da construção de um milhão de casas, o Presidente acabou por se colocar também à mercê de cobranças eleitorais incontornáveis depois de ter prometido criar 500 mil postos de trabalho e transformar Benguela numa Califórnia subsaariana…

Sonhar não é proibido, mas há sonhos que, estimulados por promessas fantasiosas, não se sonambulizam em voz alta sob pena de se transformarem em verdadeiros pesadelos perante o acossamento de grupos de pressão que, não deixando a sua memória ser manipulada, ao contrário dos políticos, recusam registar as promessas governamentais a lápis…

Sonhar em voz alta destapa por isso ingenuidades imperdoáveis que, na alta política, quando resvalam para riscos eleitoralistas, pagam-se caras e colocam a cabeça dos seus promotores na boca esfomeada dos lobos…

As obras que não se fizeram e as promessas que não se cumpriram, desiludem os cidadãos, mas não estando tudo perdido, talvez ainda haja tempo para corrigir o tiro à mão…

E corrigir o tiro à mão significa, desde logo, colocar em relevo os interesses da cidadania sobre os interesses partidários ou de grupos económicos, como única forma de conferir confiança a uma nova narrativa política que, num derradeiro sprint, seja capaz de reverter o actual estado de desânimo da população.

Significa reconhecer que, estando por aqui, há muitos anos, a inércia associada à incompetência, a eficácia social dificilmente fará reverter esta situação se, em vez de apostarmos em consensos com recurso a génios de diálogo e a mestres de compromissos, continuarmos a ceder terreno à falta de coesão governativa.

Significa reconhecer que, ultrapassada há muito a fase da euforia, como confessa agora um alto dirigente do MPLA, já não podendo “os subsídios aos combustíveis” salvar viaturas que não aguentam longas caminhadas, os estragos provocados por práticas de auto-mutilação política, estão-se a revelar piores do que o custo de manutenção de carros de alta cilindrada…

Significa reconhecer que, contaminada pelo vírus da governação anterior, a bola de neve em redor da corrupção, sob novas formas e com novos actores em cena, prossegue a marcha a galope, mas, em contrapartida, os cidadãos começam a demonstrar não ter medo de retaliar as injustiças de que estão a ser vítimas, incubando um potencial de conflitualidade social de contornos perigosos.

Significa que esse combate insistir em desferir golpes apenas na árvore, deixando à deriva a floresta, a governação arrisca-se a ficar refém de uma visão afunilada do poder, que lhe poderá provocar na arena política irreparáveis amargos de boca…

Significa por isso reconhecer que se o combate à corrupção e à impunidade, assumido com coragem pelo Presidente, é crucial para restituir credibilidade às instituições e atrair a confiança dos investidores e dos credores, esse combate, não pode, porém, ser um fim em si mesmo da governação.

Significa que a crescente tentação para a reactivação do lápis vermelho da censura nos órgãos de comunicação social controlados pelo Estado, como ilustra o recente caso da TV Zimbo, constitui um violento e vergonhoso soco no estômago das liberdades democráticas e encerra uma perigosa negação dos valores proclamados pelo próprio Presidente…

Significa que, perante o dever de promover a pluralidade de opiniões como cimento das sociedades livres, estamos a assistir ao retorno de uma perigosa ameaça da afirmação da imprensa como veículo denunciador dos abusos dos poderes e como instrumento de escrutínio à aplicação das regras de um Estado democrático e de direito.

Significa que, entalada entre a pressão da sociedade civil e os interesses dos poderes políticos, a PGR, implacável nalguns escândalos de corrupção, mas, enviesando a avaliação envergonhada de outros escândalos, corre o risco de ver deteriorar-se a sua credibilidade e de assistir a uma clara fragilização da confiança que nela depositam os cidadãos…

Significa ter noção de que, não havendo em política espaço para milagres e não sendo os homens incorrosíveis ao tempo, o Presidente tem de se preparar para enfrentar a tempestade de manifestações de contestação social e política que irão explodir em catadupa à medida que se aproximar o fim do seu primeiro mandato.

Significa que, perante esta ameaça real, antes de dar novos passos em frente, ou afasta da sua companhia forças de bloqueio que andam intencionalmente a desintegrar as peças da engrenagem governativa ou arrisca-se a ser vítima do alastramento das labaredas do fogo eleitoral…

Significa que a turma dos “jobs for the boys” que o rodeia e que desfila, a tiracolo, nojento servilismo, não pode continuar a minar a clarividência política ou a corroer a lucidez crítica que, por aqui, os cidadãos tendem a exigir cada vez mais dos governantes.

Mas, significa também que o país não pode continuar a ser dirigido por lideranças cuja única “utilidade pública” consiste em acomodar-se em luxuosos gabinetes para pagarem as facturas das multinacionais estrangeiras que, de mangueira em punho, lhes petrodolarizam as mentes ou para contratarem capatazes para lhes garimparem os diamantes que lhes erguem como uma das tribos mais predadoras do continente africano.

Significa ainda que não pode continuar ancorada em lideranças que, com recurso ao tráfico de influência, estão hoje entregues a um desenfreado processo de “pesca ao corrico” de licenças de arrastão de peixe e de marisco num sector que, transformado na sua nova “joia da coroa”, está agora de novo a ser a ser palco de um assalto, ”a mão armada”, em grande escala por parte de alguns altos mandatários dos poderes públicos.

Significa, por isso, que precisamos de ter elites capazes de tornar a sociedade unicamente dependente da escola, de uma boa educação, das competências profissionais e da liberdade criativa e crítica dos cidadãos.

Significa ter elites que ajudem a “desbolchevizar” a mentalidade de caserna incrustada em políticos que, fechados nas fortalezas partidárias, julgam-se senhores do discernimento nacional.

Significa ter elites dispostas a denunciar aqueles que para maquilhar a sua incapacidade governativa, não se importam de evocar as relações de amizade privilegiada que mantem com o Presidente para, ao nível do Executivo, satisfazer os seus apetites pessoais ou fazer prevalecer os interesses de determinados grupos.

Significa ter elites, que sendo implacáveis para com a mediocridade e a imbecilidade dos personagens de telenovelas que andam a transformar a nossa vida pública numa comédia política, tenham a capacidade para ajudar a ultrapassar a actual crise de ideias e de valores que anda a arruinar a nossa sociedade.

Significa ter elites abertas a reparos e às críticas da opinião pública. Significa ter elites avessas a governantes que insistem em querer continuar a viver segundo as suas (desmedidas) ambições, e não segundo as suas (reais) possibilidades e segundo os seus (lícitos) rendimentos.

Significa ter elites que percebam que o nosso maior problema não é a baixa do preço do petróleo ou a escassez de recursos financeiros, mas a falta de inteligência e o excesso de entulho no cérebro de muita gente iluminada que comanda as nossas vidas.

Significa ter elites que induzam os políticos e governantes a interiorizarem que o nosso maior problema não é nem nunca será o excesso de liberdade, mas a falta de democracia e de um verdadeiro Estado de Direito, que, por aqui, continua a ser escrito por linhas tortas…

Significa ter elites capazes de fazer sentar no “banco da escola” a maioria dos governadores provinciais, com o fez esta semana a Ministra das Finanças, para que aqueles percebam que o dinheiro do Estado não pertence a quem está sentado na principal poltrona do prédio da Mutamba e que não sendo o Estado uma fonte inesgotável de recursos públicos, não podem gastar mais do que têm à disposição…

Significa ter elites que, se, pretendem ver reproduzida mais riqueza, multiplicados os empregos e reduzida a pobreza e se estão realmente comprometidas com o combate contra a corrupção e a impunidade e pela ética republicana proclamado pelo Presidente, então esse combate não pode redundar na exaltação do miserabilismo espiritual, na liquidação da classe média ou no extermínio dos ricos.

Significa, enfim, ter elites cultas, modernas e desenraivecidas, que tenham frontalidade política e lucidez intelectual para alertar o Presidente contra derrapagens que poderão fazer a viatura embater numa muralha de betão armado, atirando o país irremediavelmente para a cova. É isso que queremos? ■

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