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As consequências da crise financeira internacional nas economias da África Subsahariana (1)

O estudo remonta a 2012. Continua actual e parece uma antevisão da actualidade, do autor Lito Nunes Fernandes

Nos últimos anos a África Subsaariana vinha desfrutando de um crescimento robusto com uma media anual de 5%, resultante das políticas macroeconômicas implementadas e da conjuntura internacional favorável, convertendo a região numa zona muito atrativa para o investimento externo.

No entanto, com o estouro da crise financeira internacional iniciada no mercado imobiliário norte-americano, a África Subsaariana se apresenta como uma das regiões mais afectadas, com diminuição da taxa de crescimento, caídas de IDE e remessas de africanos no exterior.

Consciente dessa realidade, o objetivo deste trabalho é apresentar uma visão geral sobre o impacto e as consequências da crise na África Subsaariana assim como as medidas que estão sendo tomadas para contornar seus afeitos e reduzir a pobreza.

Depois da quebra do gigante norte-americano Enron, os sinais já indicavam que o pior vinha por trás. Este fato acabou sendo corroborado pelo boom da crise financeira no mercado imobiliário fundamentado pela abertura de créditos com altos juros para compra de imóveis por parte pessoas qualificadas pelos próprios profissionais de mercado de ninja (no income, no jobs, no savings).

Segundo Dowbor (2009), eram feitos contratos chamados subprime para essas pessoas consideradas de alto risco, pois o contrato na realidade não representava totalmente de primeira linha, mas sim uma sub primeira linha, com o argumento de uma posterior valorização das imobiliárias.

Entretanto, à medida que os juros começaram a subir e os preços de petróleo em alça que provocou inflação, os compradores das vivendas começaram a não poder pagar, e os promotores já não atingiam as mesmas utilidades devido ao custo de crédito; as vendas desceram com os preços em queda e as vivendas passaram a ser avaliados por debaixo das dívidas contraídas (Mondragón, 2009).

Quando já não havia outra saída, os bancos hipotecários começaram a entrar em dificuldades e como as dívidas tinham sido convertidas em papeis negociáveis, se encarregaram de transmitir as dificuldades a outros bancos, instituições e investidores – e assim por diante, o que em última instância resultou numa crise financeira sem precedente desde a grande depressão de 1929.

Em relação à África Subsaariana (ASS em diante), a região vinha desfrutando de um crescimento robusto nos últimos anos com um boom de entradas de capitais privados estrangeiros conduzidos por fatores internos e externos que converteram a região numa zona muito atrativa para o investimento estrangeiro e seu lucro líquido crescendo progressivamente desde 13 bilhões de dólares em 2004 para 33 bilhões em 2007 (Macias e Massa, 2009).

O resultado desse desempenho positivo radicava nas reformas macroeconômicas realizadas pelos; pela conjuntura econômica mundial favorável, sobretudo pelo aumento da demanda de mercadorias e capital estrangeiro; assim como pelo crescimento da China (BAD, 2009).

Porém, os efeitos secundários do distúrbio financeiro procedente dos países desenvolvidos e que rapidamente se expandiu para todos os países em desenvolvimento não deixou imune á África Subsaariana; provocando que a taxa de crescimento baixasse dos 7,0% em 2007 para 5.6% em 2008 e 2.1% em 2009 (FMI, 2010).

Os policy makers africanos não imaginavam nem previram uma virada brutal no segundo semestre de 2008, sobretudo, tendo em conta o excelente desempenho depois de julho de 2007 (BAD, 2009).

Justamente esse aspecto fez com que muitos analistas e expertos adotassem uma posição otimista quanto às capacidades do continente de gerar recursos favoráveis rumo ao desenvolvimento e redução da pobreza, e a consecução dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), perante um clima muito favorável.

Na conjuntura econômica e financeira dominada pela crise; com a economia mundial estagnada e os países desenvolvidos em recessão, as economias subsaarianas se confrontam com ás graves dificuldades nas suas perspectivas de crescimento e redução da pobreza.

Ou seja, a demanda e o curso dos mercados estão em baixa e a tendência recente da alça dos fluxos de capital parece ficar sem fôlego e as promessas de aumento da ajuda ao desenvolvimento dos países desenvolvidos se encontram estagnadas (BAD, 2009).

As performances do sistema financeiro nos países africanos indicam limitadas mobilizações de recursos domésticos; seus canais de investimentos produtivos – a mobilização de poupança – têm sido muito lentos e os empréstimos do setor privado muito problemático, sobretudo para os pequenos credores (Aryeetey, 2009).

Uma das boas notícias é o abrandamento da pressão inflaccionária; a melhora da crise alimentaria; o apoio continuada da China mesmo tendo encolhido a economia do gigante asiático; e o amadurecimento e robustez das economias subsaarianas em comparação com alguns anos atrás para enfrentar situações dessa envergadura.

Este trabalho tem como objetivo apresentar uma visão geral sobre o impacto e as consequências da crise na África Subsaariana assim como as medidas que estão sendo tomadas para contornar seus efeitos negativos. Para tal, independentemente da introdução o artigo apresenta mais outras cinco sessões.

A segunda sessão trata sobre a visão geral da região antes da crise. Na terceira sessão são apresentados os impactos propriamente da crise na África. A quarta sessão faz menção das conseqüências dessa crise nas economias africanas.

A quinta sessão apresenta as iniciativas tomadas e outras que podem vir a serem tomadas para minimizar os efeitos nefastos da crise. Na Sexta sessão aparecem as considerações finais e por último as referências bibliográficas consultadas.

2. Visão geral da África Subsaariana A difícil situação que enfrenta os países da ASS dispensa comentários e explicações, devido sua especificidade e relevância; originada e provocada desde a etapa colonização e neo-colonização por parte das grandes potências ocidentais durante séculos de exploração.

Grande parte da população da região apresenta situações dramáticas de pobreza, altos índices de analfabetismo e outros factores que merecem uma abordagem especial, sendo que esta região passou e ainda passa por momentos conturbados em relação à questão de crescimento.

(D.R.)

Desde o início da década de 2000 os países da região vinham crescendo num ritmo estável com media anual de 5%, muito perto dos 7% mágicos considerados pelos especialistas como fundamental para mitigar a pobreza; nesse período só perdia para a região emergente da Ásia e superava as economias desenvolvidas e os países da América Latina.

Esse boom do crescimento foi amplamente conduzido pela alta demanda externa2 de commodities primárias, sobretudo petróleo e minerais. A demanda por commodities africanas deu origem a muitos investimentos e o estoque de IED quase duplicando entre 2003 e 20073 .

(D.R.)

A Figura 2 apresenta um panorama geral de crescimento por região na África. Nela observa-se que os países exportadores de petróleo são os que vinham impulsionando o crescimento da África e ao mesmo tempo, com o estouro da crise foram igualmente os mais afetados, devido, sobretudo a queda do preço de petróleo.

Entretanto, quando o continente atravessava a melhor etapa do crescimento, fator que levou a melhoria e redução da pobreza em muitos dos seus países e uma brusca entrada de IED desde 8 milhões de dólares em 2000 até 27 milhões em 2006 como se pode ver na Figura 1, apareceu o fenómeno da crise financeira internacional, para desestabilizar de novo uma econômica que já estava dando indícios de recuperação.

Assim, o que começou como simples estouro da borbulha no mercado imobiliário dos Estados Unidos se transformou na mais drástica crise económica jamais vistas desde o final da Grande Depressão. Inicialmente, as economias subsaharianas não sofreram as consequências directas da crise por não possuírem ligação directa com os mercados financeiros internacionais. Porém, como a maioria delas apresenta um sistema económico menos elástico, os efeitos da crise acabam sendo mais devastador para esses países.

Mesmo que a crise tenha iniciado nos países desenvolvidos, estes têm argumentos financeiros suficientes e capazes para contornar seus efeitos com seus recursos próprios, através de empréstimos domésticos e mercado internacional de capital.

Já o mesmo não se pode dizer dos países subsaarianos, devido que estes apresentam insuficiências de recursos de capital e tecnologia.

Arieff, Weiss e Jones (2009) argumentam que as economias africanas são as mais expostas e vulneráveis no sistema financeiro mundial e seus bancos não têm a fortaleza necessária que lhes ajude a mitigar os efeitos da crise. Ainda estes autores alegam que a crise financeira afeta as economias africanas por diversas vias dentro as quais se destacam: (i) a contracção do comércio global, incluindo a redução das demandas da exportação de commodities africanos, (ii) a ampla interconexão das condições financeiras além do mar e (iii) o declive do investimento direto estrangeiro e outras entradas de capitais.

(D.R.)

Em relação ao fluxo de capital apresentada na figura 3, que inclui entre outros, o IED, carteira de investimento em portfólio, as remessas dos imigrantes na diáspora, a ajuda externa e ajuda pública ao desenvolvimento; estes foram importantes para o crescimento económico dos últimos anos.

Entre 2000 e 2007, os fluxos de capital privado constituíram a mais importante fonte de financiamento externo para a região, passando de U$ 8.9 bilhões em 2000 para U$ 54.8 bilhões de dólares em 2007 (BAD, 2009).

Porém, devido à crise e recessão dos países industrializados o rendimento continuado dos fluxos de turismo e remessas de imigrantes que eram factores fundamentais para o bom desempenho dos países subsaarianos declinou-se substancialmente, assim como a diminuição da ajuda pública ao desenvolvimento que procede dos países industrializados (Ver figura 3).

A contração dos fluxos de capital para ASS tem sido acentuada nesse período e o IED em 2009 recuou cerca de 26.7% em comparação com 20084 . 3. Impacto da Crise na África Subsaariana Os países africanos vinham desfrutando nos últimos anos um robusto crescimento econômico, fator que vinha reforçando notavelmente os seus balanços.

Mas o aumento dos preços de alimentos e combustível em 2007 e 2008 que procedeu a crise financeira mundial enfraqueceu a posição externa dos importadores líquidos de alimentos e combustíveis; causando o aumento da inflação e declínio das perspectivas do crescimento económico.

Em relação aos efeitos iniciais da crise, na África subsaariana os mercados emergentes foram os primeiros atingidos, mas que rapidamente se alastrou para os outros países da região através do comércio, devido à queda nos preços de matérias-primas (minerais e não minerais) e à descida acentuada da procura por parte dos países desenvolvidos (Tywuschik e Sherriff, 2009).

A região sul liderada pela África do Sul foi à zona que apresentou a maior queda no crescimento em 2009; esse aspecto de certa forma provoca que muitas das novas indústrias de exportação subsaarianas estejam em risco de desaparecer.

O sistema financeiro subsaariano, caracterizado pelo domínio do setor bancário com um papel quase inexistente de mercado de acções, é também vulnerável aos riscos que ainda podem acontecer, mas a diferença dos países desenvolvidos; na região não houve crises sistêmicas no sector bancário, devido a que os países subsaarianos têm pouca exposição ao sistema bancário de países desenvolvidos ou a ativos tóxicos que desencadeou a crise financeira mundial (Tywuschik e Sherriff 2009).

Isto explica em parte porque o impacto limitado da crise no setor bancário africano. Porém, a maioria dos mercados financeiros africanos tem sofrido os efeitos de contagio, resultando em significativas saídas de capital. Nos seus mercados mais líquidos como da Nigéria, os efeitos de contagio foram amplificadas por uma sobrevalorização dos preços das ações antes da crise e da diversificação limitada de bens (BAD, 2009). (Continua)

 

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