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Os mini Craques e a infância de Maneco Vieira Dias

Apesar da nossa tenra idade, no início dos anos 70, eu, o Minguito, o Né Gonçalves e outros amigos do nosso Musseque Prenda, nos reuníamos por razões várias, em casa da Tia Esperança, debaixo do Cajueiro de esplêndida sombra, onde nos perdíamos, transportados em viagens de sonhos inolvidáveis.

Falávamos das nossas malambas da época, do corpulento Afonso Baleia que amolgava a chaparia de um carro com os dedos, ou do Ngana António, também conhecido por Ngana Xôto, o pescador que ficava cerca de 30 minutos submerso no mar, a plenos pulmões, e  voltava à superfície, sem sinais de cansaço.

Entrava nas conversas o Kota Sidrack, o grande guarda redes, recentemente falecido (que mais tarde se notabilizou como grande jogador de basquete do Clube militar 1º  de Agosto), e tantos outros desportistas, grandes atletas de futebol como Cata, Antas, Gomes, Lolota, Bomba, João Manuel, Miguel Braganha, Elias Bulika, Queirós, Zé Maria Reis, os guarda redes Jorge Cambaio e Cruz, o Ulaúpe, o Mário Vasco, o Candimba, o Ganino (que depois se tornou jogador e campeão de ténis em campo), ou ainda o Bernardo Manuel, o nosso Papinho, o André Kitongo, o Mateus, o Adão Silva, o Luizinho e o António Andrade, todos eles no atletismo.

Falávamos também dos caveras lá da banda que se dizia que gamavam com pau, porque protegidos pelo feitiço que usavam, conseguiam ludibriar tudo e todos incluindo os caingas (policias); dos baladores como o Alexandre, o Pirata, o Cambuta, o Xaxado, o Botelho, também conhecido por Zorro, o Santana que batiam feio. O Tumba Tumba e a sua turma das zaragatas, desafiavam com o seu porte físico, quem causasse distúrbios ou atacasse a malta conhecida do bairro, como descreveu o falecido cantor Zecax, numa das suas últimas canções… Enfim, muitas malambas!

Discotequeiros como Júlio Soares, João Gomes, Zé Luís, Zé Neto, eram os grandes animadores das farras la no nosso Musseque aonde grandes passistas como João Maria de Sousa, João Maciel, Jorge Burity, Jorge Airosa, Nando Saturnino, Passito Feijó, os irmãos Beto, Zé Maria e Chico Reis, sem falar do mais velho Parreira, que dava grandes passadas somente com a cabeça e acompanhado de forma magistral pela dama.

O Augusto Manuel ou Lindo Malanjinho fazia parte do grupo de bangões do Prenda, que integrava o Ramalho, o Fiúza, o Raúl, o Jorge Monteiro, o João Gonçalves, etc.

No carnaval tínhamos como maior referência o Grupo União 54 no Bonda Iá MBulungo, grupo que perdura até aos dias de hoje.

Aqui fazemos apenas algumas referências, mas em breve traremos histórias e vivências pormenorizadas. No meio das nossas conversas, o Né intercalava com algumas canções e dedilhava já na sua guitarra sons maravilhosos. Foi assim que eu e o Minguito decidimos aprender a tocar vários instrumentos musicais, dentre estes os de percussão que eram e continuam a ser o nosso forte.

Nessa época em casa dos nossos pais (Minguito e Maneco) ensaiavam os Dikanzas do Prenda da famosa música Brinca N´areia e na outra extremidade, na zona do Batola tínhamos os Jovens do Prenda. O nosso Pai, o senhor Pedro André Tomás, era o líder dos Dikanzas. O Kota Dino Kapakupaku, músico que dentre outros conjuntos passou pelo instrumental 1º de Maio como uma das vozes principais, frequentava a casa e na época por via dele conhecemos muitos artistas de referência. Tio Dino, como carinhosamente chamávamos, um dia lhe farei a homenagem merecida.

Pela nossa casa passavam várias pessoas, sobretudo nos momentos de ensaio dos Dikanzas. A Tia Esperança sempre que saísse dos seus afazeres passava lá por casa para cumprimentar e saber se estava tudo bem, mas quando encontrasse o conjunto a ensaiar, vezes sem conta puxava uma da sua cartola como surpresa agradável, pois era uma compositora e intérprete de mão cheia, e quando dissesse: “eu vou cantar”…todos paravam para lhe ouvir e acabavam mesmo por lhe acompanhar com alguns acordes e da sua voz bonita e melodiosa saiam canções de encantar.

E foi nesta senda que surgiu o Catembé que os Dikanzas do Prenda gravaram, na voz do solista e vocalista Zeca, que tinha como guitarra baixo Faustino. Porém, com a Tia Esperança havia um senão.

Sempre que terminasse de interpretar e lhe solicitassem para repetir a resposta estava preparada: “já esqueci” rsrsrsrsrsrsrs. De seguida se retirava em direcção à sua casa, que era próxima da nossa, ao encontro dos seus filhos Antoninho, Madalena, João, Jaime, Nando, o Né e a Isaura sua caçula, que tanto amava e por quem tanto batalhava, como tantas mães que dão o melhor de si para garantir o pão e a educação escolar que não tiveram.

Os encontros para as guitarradas e não só, foram acontecendo sempre debaixo da árvore e cada vez com maior frequência. Quando demos por nós já vínhamos tocando juntos numa harmonia perfeita, o que originou a ideia da criação de um conjunto muito por culpa dos Dikanzas e dos Jovens do Prenda, conjuntos de referência do nosso pequeno mundo que tantas prendas musicais nos ofereceu.

Passaram por lá o Nando e o Né Gonçalves, o Pedrito e o Chi Feijó, o Minguito e Maneco Vieira Dias, o Dadinho, e o Hugo do Solo, tendo sido atribuído ao conjunto o nome de Mini-Cracks. Eram pré-adolescentes e adolescentes alguns dos quais duplas de irmãos e primos, sendo o Maneco o mais novo.

Para época, eles já eram muito ousados e como diz Né Gonçalves numa da suas canções “e deram o primeiro salto / da sombra do cajueiro / para o primeiro palco / no Las Palmas misturaram / harmonias, conchas do mar, poesia / deixaram marcas naquele chão”.

Foi assim a aparição pública deste conjunto feita no Club Recreativo Las Palmas, no Musseque Prenda, onde, levados pelo João Gonçalves a fazer o papel de “empresário do conjunto”, tocaram usando os instrumentos do conjunto os Kiezos, com o Maestro Marito à guitarra solo, viola baixo Humberto Vieira Dias e integravam Fausto Lemos, Kituxe, Adolfo Coelho, Juventino e Vate Costa. Eram os Kiezos que varriam salões na sua máxima força.

A subida ao palco e consequente exibição foi bastante aplaudida. Entretanto, antes da actuação aconteceu um episódio que quase inviabilizava a apresentação. E sabem o que aconteceu? Aguardem um pouco e em breve saberão…

Luanda, Outubro de 2020.

 

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