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O tempo e o bom senso (I)

1 -As pessoas da minha idade e algumas das anteriores gerações devem recordar-se perfeitamente. Para alguns de nós, na primeira metade da década de sessenta do século passado, tornou-se obrigatório escutarmos às dezanove horas, a emissão em português da Rádio Brazzaville, nem sempre captada nas melhores condições de escuta.

Às escondidas, por razões óbvias, realizávamos uma obrigação quase sagrada. Todo o angolano que se prezasse, tinha que estar ao corrente do desenvolvimento da luta armada de libertação nacional. No princípio, o programa “Angola Combatente” era difundido em emissões trissemanais, mas a partir do dia 1 de Outubro de 1969, passaram a ser diárias.

Trago este facto à lembrança sempre que nos dias de hoje, me planto à frente do televisor, esperando pelas mesmas dezanove horas de todos os dias para, agora através do ecrã da TPA, ficar informado sobre o andamento de uma outra luta da qual não se tem sequer ideia do tempo de duração, uma difícil batalha contra a morte, de cariz bem diferente da outra que se travou nas matas e chanas, onde todos lutaram pelo objectivo supremo da conquista da liberdade.

Naquele longínquo tempo não se perspectivaram pandemias, os vírus conhecidos e os mais perigosos inimigos eram identificados com o colonialismo e com o imperialismo internacional, assim nos ensinavam os nossos mestres.

Pensava-se em tréguas e negociações, situações que infelizmente estão distantes nesta luta contra o coronavírus. Apesar das naturais dificuldades da época, as notícias assinalavam o sucesso da luta e a força da guerrilha. Entusiasmavam-se e consciencializavam-se os compatriotas do interior, estes submetidos ao jugo colonial, despertando-os para a luta pela independência de Angola.

Hoje, às dezanove horas de todos os dias, aguardo que a televisão me mostre um alto representante do Ministério da Saúde a informar sobre o rescaldo do dia em termos da Covid-19.

E fico a saber quantos angolanos morreram, quantos foram infectados, quantos estão em situação crítica e quantos foram recuperados. Fico também, todos os dias, com a certeza da enorme fragilidade, nos seus diferentes aspectos, do sector da saúde e da assistência e segurança social na República de Angola.

2 – Confesso que tenho dificuldades de me explicar em relação a isto. Não sei se terei ainda a oportunidade de viver no país há muito sonhado porque, em boa verdade, não tenho referências sobre os alicerces em que está a ser ou vai ser implantado o país com que sonhamos, nós e os das outras gerações, anteriores e posteriores à minha, e com que sonham os das gerações actuais e futuras.

O tal país que pretendemos que surja, nos surpreenda e nos proporcione enfim a vida boa, simples e segura, com saúde, escola e trabalho garantidos, em que se possa viver tranquilamente, sem sentir a dolorosa sensação de que se está a ser roubado e enganado a toda a hora, de que os seus direitos estão a ser usurpados, onde o cidadão normal sai do trabalho e vai com a família ao teatro, a um bom concerto musical ou ao cinema, onde se organiza para acompanhar o seu clube de futebol ou de outras modalidades, a sua associação, o seu grupo, em excursões pelo país e pelo estrangeiro, onde acompanha os filhos e netos a um museu, a um jardim ou a um espectáculo para crianças, sem que seja necessária a chamada de um génio que transforme em normais as coisas que hoje nos parecem mágicas, que a vida nos possa transmitir uma relaxada sensação de naturalidade em tudo quanto possamos fazer, e não sejam consideradas impossíveis as coisas mais banais desta vida.

Confesso que por várias razões, e sobretudo pelas atitudes negativas de muitos dos nossos compatriotas, nomeadamente dos que assumem e exercem cargos políticos e governativos, associo ao meu desencanto permanente um bom pedaço de vergonha.

Sinto essas sensações quando me vejo impedido de apontar com exactidão, aonde fica situado na verdade o nosso país, no mapa limpo da vida, onde se plantam os países decentes, onde a ladroagem é castigada. É com uma mágoa profunda que sou obrigado a reconhecer que o nosso país fica a muitos quilómetros de distância, está na rectaguarda dessa fila.

E nessa perspectiva observo que isso aconteceu porque na época antiga da luta inicial em que idealizámos o país mas adivinhar o futuro era proibido, já se robustecia um regime nascido e criado sem o escrutínio rigoroso dos erros que se cometiam, e da identificação daqueles que se opunham aos princípios que levaram ao nascimento do amplo movimento e vaticinaram um país bom para se viver.

Não fossem esses “defeitos de fabrico” que nos transportou à falsa ideia de que o país era destinado apenas a uma parte de nós todos, não teríamos chegado aos tempos de hoje, desiludidos e a lamentar constantemente o modo fácil e negligente com que se destruiu o pensamento da base económica e social de um país portentoso, colocando-o na posição deplorável que conhecemos.

É esta, quanto a mim, a triste verdade. Negligenciou-se claramente a ciência que é sempre indispensável aos projectos, quaisquer que eles sejam, de dimensão incomensurável, quando o projecto é o da Nação: a ciência da estratégia! Foi aí que se errou e se tem errado rotundamente, na falta de estratégia.

Não se podem conquistar êxitos sem que sejam definidas estratégias. Podem ser muitas as batalhas que se vençam, mas se as estratégias não se mostrarem eficazes em relação aos alvos a serem atingidos, na escolha dos melhores aliados para desenvolver o modelo de vida mais adequado às pretensões de todo um povo; se a estratégia nacional de combate à corrupção, se a transparência dos actos e integridade não tivessem chegado como chegaram com muitos anos de atraso e sem estratégia.

Se acaso a estratégia tivesse sido estudada correctamente enquanto se lutava de armas nas mãos, teríamos provavelmente hoje um país diferente, distante da sociedade que pretendemos moderna porém, infelizmente uma sociedade podre, cheia de elementos perigosos.

São eles aliados da corrupção, inimigos do seu combate, contrários à corporização de mudanças, adeptos da arrogância, do poder absoluto e dos mais variados vícios, sabotadores declarados de projectos que defendam a mudança, inaptos nas demonstrações das suas ideias, usuários de uma forma desastrada de fazer política, mascarando o distanciamento do real e verdadeiro regime democrático e de direito que todos os angolanos de bem aplaudem e perseguem.

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