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Beijos nunca mais

Por causa da covid-19, o cinema precisará reaprender a ser romântico e sensual. Para isso poderá tirar lições dos grandes filmes do passado.

Sim, todos conhecemos os grandes beijos da história do cinema. Há, por exemplo, o de Grace Kelly em Cary Grant, em Ladrão de Casaca (1955), de Alfred Hitchcock. É um beijo totalmente inesperado. Cary e Grace, que não se conhecem, são hóspedes de um hotel de luxo na Riviera. Cary é-lhe apresentado durante um jantar, e ela, belíssima, parece-lhe frígida e desinteressante – na verdade, Cary acha a sua mãe, interpretada por Joyce Carol Landis, mais divertida. Grace pede licença para se retirar e Cary, por delicadeza, vai acompanhá-la à porta do seu quarto. Ao chegarem, ele abre-lhe a porta, ela agradece e… beija-lhe a boca, num beijo longo e cheio de significados – que Cary recebe com imenso agrado e surpresa. Em outro momento do filme, Cary e Grace preparam-se para as funções amorosas num sofá enquanto, na noite lá fora, começa um espetáculo pirotécnico. Ao primeiro beijo entre eles, Hitchcock corta para a janela, onde se veem os fogos despencando no céu escuro – e a plateia tem a sensação de que o beijo provocou em Cary uma ejaculação precoce…

Em outro filme de Hitchcock, Janela Indiscreta (1954), também com Grace Kelly, é a vez de James Stewart ser despertado do seu sono pelo rosto deslumbrante que surge em big close para beijá-lo. Ao ver a cena no cinema, naquelas telas maiores do que a vida, o espectador devia sentir-se como se o beijo de Grace Kelly fosse para ele – o que, sem dúvida, foi a intenção do diretor. E outro beijo monumental num filme de Hitchcock deu-se entre Kim Novak e o mesmo James Stewart, em Vertigo – A Mulher Que Viveu Duas Vezes (1958). Não tanto pela intensidade – os lábios deles mal se tocam -, mas pela duração, muito acima dos padrões de Hollywood na época, e pelo facto de o cenário em volta mudar com o giro da câmara, dando a entender que Stewart está beijando a Kim que ele pensa ter morrido.

E o que dizer dos beijos violentos e arrebatados, em que a boca do herói parece colar-se para sempre nos lábios da heroína, como os de Clark Gable em Joan Crawford, Jean Harlow e tantas outras, e, principalmente, Vivien Leigh, em E Tudo o Vento Levou (1939), de Victor Fleming? E os beijos sob intensa ventania, como o de Laurence Olivier em Merle Oberon, em O Monte dos Vendavais (1959), de William Wyler? E os beijos sob forte tempestade, como o de John Wayne em Maureen O’Hara, em O Homem Tranquilo (1952), de John Ford; de Jeff Chandler em Kim Novak, em Um Só Amor (1957), de George Sidney; e de George Peppard em Audrey Hepburn, em Boneca de Luxo (1961), de Blake Edwards? E os grandes beijos na praia, com o casal se sujando de areia, como o de Burt Lancaster em Deborah Kerr, em Até à Eternidade (1954), de Fred Zinneman; de William Holden em Jennifer Jones, em A Colina da Saudade (1955), de Henry King; e de Christian Marquand em Brigitte Bardot, em E Deus Criou a Mulher (1956), de Roger Vadim?

Tudo isso agora pode pertencer ao passado. Por causa da covid-19, os beijos foram banidos do cinema. Por maior a quarentena antes das filmagens, não se pode arriscar a saúde dos atores – a não ser que eles se beijem de máscara!

Mas talvez nem tudo esteja perdido. Muitos filmes do passado descobriram maneiras de transmitir uma sensação de romantismo ou sensualidade entre duas pessoas sem precisar recorrer ao beijo. Duvida? Eis alguns.

Em A Estranha Passageira (1942), de Irving Rapper, Bette Davis pede um cigarro a Paul Henreid. Ele tira dois cigarros da carteira, coloca-os na boca, acende ambos e dá um deles a Bette, que dá uma tragada e devolve a fumaça pelo nariz. Algum beijo seria mais explícito? Em Piquenique (1955), de Joshua Logan, William Holden e Kim Novak (sempre ela, reparou?) interpretam uma das maiores danças de acasalamento na história da humanidade e praticamente sem se tocarem. E isso foi possível, não pelo talento deles para dançar, mas justamente pela dança da câmara ao seu redor, e poucas vezes o cinema foi tão erótico. Em A Dama e o Vagabundo (1956), desenho de Walt Disney, os dois cães comem num mesmo prato de esparguete na cantina italiana e, de repente, os seus focinhos se unem por um fio que, incrivelmente, estavam a engolir. E, em Lolita (1961), de Stanley Kubrick, a longa e fabulosa sequência em que James Mason pinta de verniz os dedos dos pés da ninfeta Sue Lyon – um a um, meticulosamente – diz mais do que qualquer cena de sexo (então impossível) entre o homem maduro apaixonado pela garota inatingível.

Em Ninotchka (1939), de George Cukor, Greta Garbo é suavemente beijada por Melvin Douglas e, quando se pensa que ela dará uma estalada no galã, Garbo diz apenas, como se desse uma ordem: “De novo” – e segue-se outro delicado beijo. A sequência foi repetida em Meias de Seda (1957), de Rouben Mamoulian, a fabulosa refilmagem de Ninotchka, com Cyd Charisse e Fred Astaire. Mas o que importa é que, nos dois filmes, o beijo poderia nem ter sido dado de verdade. O efeito seria o mesmo. Aliás, era o que quase sempre acontecia com Fred Astaire – não há uma única cena de beijo em nenhum dos seus filmes em preto e branco com Ginger Rogers na RKO. Eles não precisavam – a dança já dizia tudo.

E eu poderia citar três das histórias mais românticas de todos os tempos já levadas pelo cinema e em que o astro não chega nem perto de beijar a mocinha. Essas histórias são as de O Corcunda de Notre Dame, filmado em 1923 com Lon Chaney, em 1939 com Charles Laughton e em 1956 com Anthony Quinn, todos no papel do Corcunda apaixonado por Esmeralda – e sem beijo. A de O Fantasma da Ópera, também tantas vezes filmado – porque, com ou sem máscara, o fantasma era imbeijável. E, claro, a de King Kong, em que, em suas inúmeras versões, o galã tragicamente apaixonado nunca pôde sequer aproximar os seus grandes lábios dos lábios da rapariga.

Ruy Castro
Jornalista e escritor brasileiro

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FonteDN
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