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Que terceiro Presidente queremos?

Quando, há três anos, assistimos à primeira grande transição geracional do poder em Angola, para trás a história registava a passagem por aqui de um primeiro Presidente que se ergueu como líder da Independência e de um segundo Presidente que se impôs como promotor da paz.

Mas, quando, há três anos, assistimos à primeira mudança democrática na Presidência da República poucas eram as pessoas que tinham a noção do estado a que haviam chegado as finanças do Estado.

Nem mesmo João Lourenço, que crescera e que, por dentro e por fora, conhecia bem o sistema, tinha noção da dimensão trágica da herança social, moral, ética e financeira legada pela anterior governação.

Com os cidadãos iludidos pelo desfile de dinheiros públicos nas praças europeias, ninguém tinha noção de que o estado em que encontraria os cofres do Estado, seria de tão arrepiante calamidade financeira.

Não espanta assim que o Presidente tivesse apostado no saneamento das finanças públicas, no combate à oligarquização dos monopólios, no fim da manipulação da concorrência e no desmantelamento do poderoso sindicato de crimes de “colarinho branco” instalado dentro e nas cercanias do poder.

Entalado entre o abismo financeiro e uma herança ética e moral sinistra, o Presidente não teve outra alternativa senão eleger o combate à corrupção como um dos porta-estandartes da sua liderança.

Fê-lo com a noção de que dificilmente sobreviveríamos se continuássemos a chafurdar num ambiente tão infecto de imoralidade.

Fê-lo convicto de que para recuperar a confiança dos governados era crucial desmontar a máquina trituradora da corrupção, que, durante as duas últimas décadas, havia sequestrado por completo o seu antecessor.

Fê-lo convicto de que o estado de distopia em que estava mergulhado o Estado, moldado à imagem da tribo que rodeava o seu José Eduardo dos Santos, era o espelho da completa subordinação das suas instituições aos interesses da oligarquia dominante.

Fê-lo convicto de que o estado de asfixia política em que estavam sufocados os cidadãos ameaçava tornar potencialmente explosivo o estado de calamidade democrática da sociedade angolana.

Abraçando este ideal, João Lourenço tratou logo de devolver aos cidadãos o direito à palavra que havia sido raptado e enjaulado por um regime de pirotecnia democrática, que deu lugar aqui ao triunfo da autocracia e ao embalsamento da República.

O resgate da liberdade de expressão e de imprensa, abrindo as persianas da sociedade à circulação de opinião crítica dos governados constitui, sem dúvida, um dos maiores activos da sua liderança.

Com esse resgate, o Presidente deu um impulso decisivo na descompressão geral da sociedade ao mesmo tempo que colocou sob rigoroso escrutínio da opinião pública todos os detentores de cargos públicos, quer pertencentes ao governo, quer pertencentes à oposição.

Com esse resgate se, por um lado, conferiu dimensão democrática aos desafios que se colocavam à sua liderança, por outro lado, abriu novas frentes de combate entre adversários internos que começaram a ver esboroar-se a cortina de nebulosa que aloja(va) os seus interesses.

Muita gente não gostou, por isso, da abertura política empreendida pelo Presidente. Muita gente não esconde o seu desgosto perante a liberalização democrática e continua a defender um novo afunilamento político da sociedade.

Muita gente não gostou, mas o Presidente, “desde o primeiro dia do resto da sua vida”, deixou claro que estava disposto a insuflar ar fresco à vida política angolana empreendendo uma mudança de contornos irreversíveis.

Por isso, muita gente não lhe perdoa por ter feito da liberdade democrática uma das causas da sua liderança.

E não lhe perdoa porquê?

Porque há muita gente que, de forma pornográfica e gratuita, gostaria de continuar a prosperar em cima do escrutínio da opinião pública e do exercício de uma imprensa livre.

Porque há muita gente que gostaria de continuar a prosperar em cima dos direitos da maioria. Porque há muita gente que gostaria de continuar a reinar sem rei nem roque, de impor o unanimismo e de sujeitar a cidadania ao autoritarismo e ao medo.

Foi assim durante décadas, mas, há três anos, João Lourenço iniciou uma viagem de ruptura com esse passado ao mesmo tempo que fez renascer uma animadora névoa de esperança entre os angolanos.

Com novo espaço de liberdade, a imprensa surgiu como um instrumento que gradualmente foi capaz de censurar os abusos dos poderes e de exigir dos governantes o respeito pelas regras da democracia e de um Estrado de direito.

Muita gente não gostou. Mas, contra ventos e marés – e até da oposição mais conservadora do regime – o Presidente não vacilou. E, ao ter assegurado a respiração de uma nova atmosfera política, por aqui, na sociedade, nada mais será como dantes…

Três anos depois, plantaram-se, sem dúvida, novos alicerces no rumo do país, mas, as más práticas culturais arreigadas à governação, frustrando as expectativas de muita gente, continuam a erguer-se como forças de bloqueio às reformas desejadas e a instalar um perigoso sentimento de cepticismo.

E se ontem era apenas a desconfiança a devorar a esperança de muitos apoiantes das reformas prometidas em 2017, aos poucos, a desilusão começa a ganhar corpo em alguns sectores da própria massa partidária do MPLA.

Accionado o alarme, a massa votante mais activa do país incorpora agora uma cultura de crescente inconformismo, de protesto e de reivindicação social, que, a dezoito meses das eleições, deve levar o Presidente a parar, a olhar e a reflectir seriamente sobre as guinadas que, à direita e à esquerda, conduziram à estrondosa perda de popularidade.

Recuperar o capital perdido é agora o seu grande desafio. E, fazê-lo pressupõe, desde logo, avançar com uma ruptura com o modelo de funcionamento dos órgãos do poder central.

Fazê-lo pressupõe pôr fim a existência de “ilhas” dominadas pelo umbiguismo de “proprietários” de pelouros governamentais que se digladiam para ver quem chega primeiro ao chefe para fazer vingar os seus projectos.

Com a governação subjugada por tão assustadora desarticulação ou o Presidente avança com a ruptura, ou continuaremos a assistir ao prolongamento da comédia anterior: cada Ministro ou governador provincial rifa a sua “ilha” ao sabor dos seus interesses pessoais ou dos interesses do grupo a que pertence…

Mas, se a desfuncionalidade governativa fez instalar durante três anos uma dor de cabeça no Palácio, receio que, da mesma forma que, nas duas últimas décadas, José Eduardo dos Santos foi sequestrado pelos seus colaboradores mais directos, o mesmo venha a suceder também com João Lourenço.

Se o desmantelamento da teia de corrupção alojada na Sonangol pode servir de bálsamo à moralização da sociedade, os casos de apropriação indébita de recursos públicos que, de tempos a tempos, enlameiam o Palácio, surgem agora como um desafio à sua cruzada anti-corrupção quando faltam dois anos para o próximo Presidente tomar posse e três semanas para o Presidente fazer o discurso sobre o Estado da Nação.

Entalado entre o abismo financeiro e uma herança ética e moral sinistra, o Presidente não teve outra alternativa senão eleger o combate à corrupção como um dos porta-estandartes da sua liderança.

Os estragos provocados esta semana à sua imagem pelo último desses casos, mesmo sendo antigo, podem convertê-lo numa presa fácil nas mãos dos seus adversários ao mesmo tempo que podem danificar gravemente a credibilidade do seu combate contra a impunidade.

Cobrir com um manto de silêncio este caso como

Fê-lo com a noção de que dificilmente sobreviveríamos se continuássemos a chafurdar num ambiente tão infecto de imoralidade.

Fê-lo convicto de que para recuperar a confiança dos governados era crucial desmontar a máquina trituradora da corrupção, que, durante as duas últimas décadas, havia sequestrado por completo o seu antecessor.

Fê-lo convicto de que o estado de distopia em que estava mergulhado o Estado, moldado à imagem da tribo que rodeava o seu José Eduardo dos Santos, era o espelho da completa subordinação das suas instituições aos interesses da oligarquia dominante.

Fê-lo convicto de que o estado de asfixia política em que estavam sufocados os cidadãos ameaçava tornar potencialmente explosivo o estado de calamidade democrática da sociedade angolana.

Abraçando este ideal, João Lourenço tratou logo de devolver aos cidadãos o direito à palavra que havia sido raptado e enjaulado por um regime de pirotecnia democrática, que deu lugar aqui ao triunfo da autocracia e ao embalsamento da República.

O resgate da liberdade de expressão e de imprensa, abrindo as persianas da sociedade à circulação de opinião crítica dos governados constitui, sem dúvida, um dos maiores activos da sua liderança.

Com esse resgate, o Presidente deu um impulso decisivo na descompressão geral da sociedade ao mesmo tempo que colocou sob rigoroso escrutínio da opinião pública todos os detentores de cargos públicos, quer pertencentes ao governo, quer pertencentes à oposição.

Com esse resgate se, por um lado, conferiu dimensão democrática aos desafios que se colocavam à sua liderança, por outro lado, abriu novas frentes de combate entre adversários internos que começaram a ver esboroar-se a cortina de nebulosa que aloja(va) os seus interesses.

Muita gente não gostou, por isso, da abertura política empreendida pelo Presidente. Muita gente não esconde o seu desgosto perante a liberalização democrática e continua a defender um novo afunilamento político da sociedade.

Muita gente não gostou, mas o Presidente, “desde o primeiro dia do resto da sua vida”, deixou claro que estava disposto a insuflar ar fresco à vida política angolana

escudo protector da sua erupção, não apaga as mazelas que poderão ficar associadas à sua liderança. E a inabilidade e auto-censura da comunicação social pública, não só contribuem para arruinar ainda mais a solidez da sua cruzada, como acabam por acentuar o desgaste da governação.

Agora há que olhar para dentro e reconhecer que “o Reino da Dinamarca” está infectado e que o dinheiro não serve de couraça para reverter imoralidades governativas.

Agora o Presidente é convocado para evitar os erros de “casting” do passado, que entre os cidadãos, estão a criar a ideia de que havendo ainda gente a mais no Executivo, há quem, indo para lá, insiste em querer transformá-lo numa “tribuna de Querem um Presidente que não caia na tentação de navegar na maionese das paixões propagandísticas. Porquê? Porque, como diz Dora Kramer, “a paixão vai e vem, num átimo de ilusão”…■

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