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Breve ensaio sobre o absurdo

Foi do nome famoso do guerreiro francês Jacques de Chabannes, senhor de La Palice, que derivou o termo “lapalissada”, expressão que designa uma forte evidência ou uma situação extremamente óbvia. Desde então, conjunturas ou circunstâncias como as que, por exemplo, ligam o sentido da vida à condição de se estar vivo, de tão óbvias que são, tornaram-se em todo o mundo nas conhecidas e muito citadas “verdades de La Palice”.

Portanto, aqui ou em qualquer lado, não há como negar evidências, as “verdades de La Palice”. Entretanto, as regras do óbvio aliam-se às do absurdo e firmes, marcam presença entre nós. Situação óbvia e absurda.

Vivemos um tempo em que até a frescura tropical do nosso cacimbo já tem, em cada ano que passa, uma aparência mais subtil. As chuvadas são, de estação para estação, cada vez mais arrasadoras e nós, obviamente, não estamos nem aí para impedir a sua fúria, os absurdos danos e prejuízos consequentes.

É um tempo em que também se coloca o cúmulo do absurdo na existência de certos cidadãos. Viciados ou incapacitados, são conduzidos para os abismos da vida, transformando atitudes e afirmações, até as suas preferências mais íntimas, em festivais de poesia delirante.

Outros, não conseguem esconder graves problemas existenciais, vivendo uma vida fértil em episódios absurdos, próximos da perversidade humana. Até são pessoas responsáveis. Alguns com títulos de poder. Outros, mais poderosos ainda, conhecidos por se servirem absurdamente de dinheiros saídos de cofres proibidos, utilizando-os em despropositados projectos.

Na verdade, o que levará essas pessoas, obviamente saudáveis, porque responsáveis de empresas, serviços e instituições, detentores de altos cargos, a seguir caminhos que se desviam da lógica e da racionalidade? Nada mais que o excesso de poder. É a óbvia resposta que obtenho.

Um poder que muitos não o sabem exercer e os tornam para além de inconscientes, cidadãos potencialmente perigosos. Os casos em que protagonizam o absurdo contam-se por muitos e vão daqueles em que, por exemplo, se ousa instalar no meio de uma rua antiga, bem no centro da capital, um enorme gerador, cortando a via ao trânsito automóvel e aos transeuntes durante anos, muitos anos, sem aviso público, sem justificação, por simples capricho ou por puro sentimento egoísta; e vão aos que se permitem ainda utilizar um passeio público para aumentar espaços de escritórios ou serviços, ocupar terraços, privatizar uma pequena travessa com nome que lhe dá vida há muitos anos, para explorá-la absurdamente como espaço de estacionamento de automóveis e desse exercício arrecadar dinheiro.

Mas, vão mais longe na sua insensatez. Abstenho-me de falar dos fiscais especialistas no reboque de viaturas, assim como deixarei para melhor oportunidade a abordagem da gestão dos fundos da Segurança Social, feita ao bel-prazer de pessoas de uma estirpe sem respeito pela condição dos desempregados, dos velhos e dos doentes deste país.

Por hoje, e porque está na boca do mundo, ficarei com o absurdo da criação e da posterior autorização da legalidade da concessão da licença de abertura de uma Companhia de Seguros, nos moldes em que foi concebida e parida a hoje famosa AAA.

Nasceu de uma autorização concedida ao arrepio das regras universalmente aceites para o funcionamento de uma seguradora, no caso desta, direi mesmo que, bem nas cercanias da inconstitucionalidade dos actos públicos. Julgo saber o que compete a uma seguradora.

Tenho noção das imensas responsabilidades que devem constar do seu objecto social, o que lhes compete assumir perante segurados, terceiros e perante a sociedade no geral, no plano social e económico de qualquer país digno e organizado. Sei, de há muitos anos, como deve ser

preenchido o estatuto de qualquer sociedade seguradora, principalmente as de capital público, consciente do seu papel na sociedade que, sublinho bem isso, não é nem pode ser, única e exclusivamente o de acumular ilicitamente dinheiro como se deduz do caso AAA; caso em que acresce ainda a cláusula que aguçou o apetite do mercado segurador local, com as aliciantes percentagens de um discutível e inusitado acordo a obrigar a cedência em co-seguro, de uma minúscula parte do prémio cobrado pela poderosa líder ao mais-que-poderoso cliente, tendo em vista a garantia dos riscos cobertos por apólices habilmente trabalhadas, pretensamente para proteger a fantástica indústria petrolífera angolana.

Funcionaria como uma compensação ao solidário mercado interno mas, ao fim e ao cabo, uma miserável réstia do enorme bolo que contemplaria e calaria a boca de incautos operadores de seguros locais, muitos deles nascidos apressadamente, sem o conhecimento básico da actividade seguradora, não estando sequer preparados tecnicamente, sem o mínimo de pessoal nacional capacitado, sujeitando-se consequentemente às orientações de estrangeiros bem pagos mas incapazes de salvaguardarem, por muito boa vontade que possam ter, os interesses quer das empresas, quer do próprio país neste domínio.

Foi assim nos seguros onde muita gente intitulada de importante, quis ser dona de uma seguradora, como o foi na actividade bancária, onde aconteceu idêntico fenómeno. Toda a gente com dinheiro, não importando de onde ele vinha, pretendeu ter um banco. Alguns deles, passaram com a rapidez do raio, de medíocres funcionários bancários a accionistas, presidentes de conselhos e grandes banqueiros, sendo que alguns não eram mais que técnicos de pacotilha a socorrerem-se da experiência de estrangeiros pagos principescamente.

Satisfizeram os seus desejos como se satisfazem os das crianças de mimo, no caso em apreço eram crianças grandes a quererem o seu brinquedo. Nunca ninguém foi capaz de lhes dizer não. Como dizer não a pessoas habituadas a ouvirem o sim? Obviamente, não se podia dizer não.

E por muito que não queira, vejo-me agora a apreciar como é incrível a facilidade com que estes casos acontecem em Angola, como aqui se emprega a força do poder, como é indesculpável a passividade de quem tem a obrigação de fiscalizar a legalidade dos actos públicos, como estão imunes os que permitiram e permitem este tipo de barbaridades contra o nosso sistema financeiro.

Limito-me agora a reler O mito de Sísifo e tentar entender o seu conteúdo. Trata-se de um ensaio filosófico escrito pelo existencialista Albert Camus, em 1941, no qual, segundo suas palavras, o homem busca a sua essência num mundo desconexo guiado por entidades sufocantes como as religiões e as ideologias políticas.

Camus introduz no texto a sua filosofia do absurdo, onde, no limite, apresenta o suicídio como única forma da sua realização.

Ao cidadão angolano tem cabido nesta fase da nossa vida a ingrata tarefa de empurrar a pedra grande até ao topo da montanha, tal como esforçadamente o fazia Sísifo, mas, não está condenado a repetir eternamente essa empreitada como o fez Sísifo.

Nenhuma força, por mais irresistível que seja, invalidará completamente o duro esforço que tem despendido a nossa população a empurrar as grandes pedras. Tal como o do povo angolano é, o destino de Sísifo parecia ser absurdo. Talvez até mais trágico, pois, ao menos Sísifo era consciente da sua condição.

Conhecia toda a extensão da sua miserável vida. A tarefa do angolano pode ser árdua, mas ele pode e vai certamente encontrar a felicidade em questões marginais, em pequenos actos de revolta, na sua incessante luta contra o absurdo, onde se instala friamente a Covid-19.

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