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Palavra de Honra: Heróis de todos os tempos

Ontem foi dia do Herói Nacional. Dia de todos os heróis. Conhecidos e anónimos. Mortos e vivos. Heróis de todas as idades e de todas as raças. Heróis nascidos dentro e fora de Angola. Heróis do trabalho e heróis das causas cívicas mais nobres. Heróis de ontem e heróis de todos os tempos.

Heróis cultivados pelas sementes que, a Sul, germinariam uma formidável revolução no seio das elites dos antigos Reinos do Huambo e do Bié. Heróis das missões protestantes a Norte que, em São Salvador e Kibocolo, fizeram brotar o fermento do nacionalismo angolano.

Heróis saídos também da saga da Igreja Metodista, que, a Norte do Rio Kwanza, depois de ter dado os seus primeiros passos por aqui em 1885, acabou por congregar uma nata de angolanos entre os quais, um século depois, viria a despontar Agostinho Neto como o “Pai” da Independência de Angola.

A sua integração nesta igreja pode, de certa forma, explicar a influência do metodismo na sua cultura espiritual, provocando uma motivação mística presente na Sagrada Esperança, e no messianismo do verso:

“Eu não espero/sou aquele por quem se espera…”.

Ontem foi dia do Herói Nacional. Dia dos heróis que se confundem na imensidão de patriotas de todas as regiões, de vários matizes políticas e de diversas nacionalidades que, sem preço, se entregaram à conquista da emancipação dos vários povos que constituem o nosso vasto espaço territorial.

Dia de um médico com prestação de serviço no Tarrafal e em Luanda, e com passagem também pelo Bié. Dia de vários heróis sem tempo de antena. Sem direito a manchetes, mas que moldaram a História com o seu exemplo em vários domínios.

Dia de heróis que, de Norte a Sul, de seringa ou bisturi na mão, se distinguiram em vários campos da nossa saga libertadora. Heróis mergulhados em adversidades inenarráveis de um dos lados da contenda anticolonial, como, entre outros, os médicos Azoncout de Menezes, Carlos Pestana, “Katiana”, João Vieira Lopes, Afonso de Almeida, “Kassessa”, Tozé Miranda, Manuel Videira ou José Liahuca, a quem, em reconhecimento pelos serviços de saúde prestados às comunidades congolesas, a municipalidade de Brazaville atribuiu o seu nome a uma das suas ruas…

Do outro lado, envolvidos na contenda que culminou com uma sangrenta guerra civil entre angolanos, notabilizaram-se também outros heróis de uma medicina exercida em condições igualmente adversas como os médicos Adelino Manassas, Anastácio Sikato e Afonso Raimundo ou ainda enfermeiros como Eduardo Sakuanda, Garcias Vinuko, Martins Tenente, Evaristo Chiteculo e muitos outros.

Ontem foi dia do Herói Nacional. Antes e depois destes heróis nasceram e fizeram-se outros génios da saúde que se espalharam um pouco por todo o país.

Há uma semana, o Presidente João Lourenço ressuscitou a obra de um desses heróis, que tendo vindo voluntariamente para Angola, inspirado num espírito de solidariedade verdadeiramente invulgar cultivado na Igreja Evangélica canadiana, se ergueu como um dos grandes vultos da medicina em Angola até à primeira metade da década de sessenta do século passado.

O Bié foi o berço escolhido para Walter Earl Strangway se fixar, dedicar-se de dia e de noite aos doentes do Hospital da Chissamba – onde, levado pelo meu pai estive pela primeira vez em 1969 – e a partir dali, durante 40 anos, realizar as mais notáveis e difíceis intervenções cirúrgicas que fizeram dele um dos mais célebres filhos (adoptivos) da terra.

Não era angolano, nem tão pouco nascera no Bié, mas, revelando-se desde o primeiro momento um homem livre de quaisquer pretensões materiais, impôs-se às autoridades coloniais, afirmando-se como um aliado das populações locais na defesa de uma política de prevenção sanitária que haveria de criar um sentimento de animosidade entre a Administração portuguesa.

Projectando a sua experiência por várias gerações, a sua longa e invejável trajectória como médico altamente competente e apreciado pelas populações locais, acabaria por servir de fonte de inspiração para que alguns jovens bienos abraçassem, anos mais tarde, igualmente a medicina como a causa maior da sua aposta profissional.

As várias lições de vida dadas no Bié pelo Dr. Strangway acabaram por impulsionar alguns dos da filhos terra como os Drs. Miguel Natal, Joaquim Malungo, Nené Monteiro (falecido), Clemente Etande, (falecido), Maurilio Luiele, e outros a enveredarem pela medicina como uma arma social de bem fazer em prol das suas populações.

Chegado a Angola em 1920, Walter Strangway nascido em Petribia, Ontário, Canadá, em 1829, cursou Medicina na Universidade de Toronto e serviu o Hospital Missionário da Chissamba entre 1928 e 1967.

Enviado como médico missionário da Igreja Unida do Canadá instalou-se naquela missão, alguns anos antes desta ter sido fundada por um outro missionário canadiano, o Dr. Collin, conhecido pelos autóctones por Nala Cole.

Naquele hospital, Strangway foi o principal promotor de um sistema de saúde que se irradiou por vários centros evangélicos da região, tendo a Chissamba como principal referência.

Acompanhado pela esposa, Drª. Alice Kathleen Strangway, pioneira na investigação em deficiências nutricionais, malária, lepra, oncocercose, tuberculose e outras doenças, naquela missão nasceria um dos seus filhos, Donald Strangway.

O trabalho feito junto dos leprosos num contexto em que estes doentes eram objecto de estigmatização sem paralelo, era unanimemente reconhecido e tido como impagável.

Funcionando como única alternativa para resolver os problemas de saúde de diversas índoles de uma parte substancial das populações locais, aquele hospital foi transformado pelo médico canadiano num centro de formação de inúmeros profissionais da saúde que se tornaram verdadeiras lendas da enfermagem na região.

A acção do Dr. Strangway não se limitando aos autóctones angolanos, levá-lo-ia com frequência à deslocar-se a então cidade de Silva Porto, onde, no hospital local, afecto às autoridades coloniais, prestava assistência de excelência aos utentes, realizando cirurgias altamente complexas para a época.

Não é por acaso que, ainda no tempo colonial, o seu nome foi atribuído a uma das artérias da cidade de Silva Porto.

Apesar da sua distinta condição de médico, seria no domínio social que este canadiano cultivaria uma intensa e privilegiada relação de amizade com os autóctones, sobretudo com as elites negras da missão, com as quais, comunicando em Umbumdu, transmitia as sementes germinadoras da emancipação e da liberdade.

Os últimos anos da sua permanência em Angola terão sido marcados por desinteligências com a administração colonial, que não vendo com bons olhos o tratamento privilegiado prestado no Hospital da Chissamba às populações autóctones, pretendia impor ali a supremacia dos portugueses.

A sua contestação em surdina a esta política de discriminação da maioria, terá servido de mote para o princípio do fim da sua missão no país. A sua acção junto das populações locais acabaria, na verdade, por se tornar incómoda para as autoridades portuguesas que, em 1967, aproveitando-se de uma deslocação sua ao Canadá, arregimentariam uma série de estratagemas que se tornaram um obstáculo irreversível ao seu regresso a Angola…

Ontem foi dia do Herói Nacional. Foi-se o homem, mas a obra ficou. E fez História em diversas famílias da região onde pôde estabelecer uma relação de grande proximidade com diversos membros das elites locais, entre os quais o Reverendo Henrique N”Gola Samakuva, (pai de Isaías Samakuva) Basílio Chipilika Rodrigues Sepolo, os professores Eduardo Jonatão Chingunji e Oseas Chingufo, e os enfermeiros Matias Tenente e Sequeira João Lourenço

Este último, pai do actual Presidente da República, deportado do Lobito, diplomado nas escolas de enfermagem oficiais, acabaria por trabalhar junto do médico canadiano, dirigindo uma das áreas de saúde pública do hospital.

Filho do Professor Sabino Luiele, que se tornou num dos grandes amigos de Strangway, o médico Maurilio Luiele entende que “a atribuição do seu nome ao novo Hospital Provincial do Bié é uma homenagem merecida que vem tornar intemporal” a sua acção, “permitindo que as gerações vindouras possam continuar a irradiar a intemporalidade da sua majestosa obra”.

Tendo vivido muitos anos em Silva Porto, hoje Kuito, e conhecendo como conheço a província e sabendo como sei, que poucas pessoas do seu tempo terão feito tanto quanto ele, percebe-se agora facilmente por que razão o nome de Strangway obteve uma votação de tão transversal consenso para ser atribuído ao novo Hospital do Bié.

Ontem foi dia do Herói Nacional. De muitos outros heróis da saúde desta província. Heróis de ontem como o pneumologista Dr. Passos Coelho ( pai do antigo Primeiro-Ministro português, Pedro Passos Coelho), a Drª Elisabeth Birgman ( a canadiana que ficou a frente do Hospital da Chissamba até início de 1977), os enfermeiros Moisés Gourgel, José Kamolacongwe, Mendes de Carvalho, Bernardo de Sousa, José Massucolo, Lucas Dombolo (pai de Jorge Dombolo), Lucas Alfredo, José Chimuco, Rebeca Lofita, o grande benfeitor, o Padre Garcia e Garcia do Hospital Geral do Vouga e de muitos outros grandes servidores da causa da saúde biena.

João Lourenço, outro filho adoptivo de Silva Porto, há uma semana, em nome de todos esses heróis, foi ao Kuito ressuscitar a obra e a memória de um herói de outro tempo e de todos os tempos: o Dr. Walter Strangway.

O Presidente foi ao Kuito entregar à população biena e do Centro e Sul do país um empreendimento hospitalar cujas valências e concepção arquitectónica, se bem preservadas, bem geridas e bem rentabilizadas, pode vir a representar um modelo de investimento reproduzível em várias outras regiões de Angola. O Dr. Walter Strangway merece. E Angola também.

Gustavo Costa | Novo Jornal

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FonteNJ
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