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Caxicane, terra natal de Agostinho Neto, “está esquecida”

Há 98 anos nascia, em Icolo e Bengo, António Agostinho Neto que, em 1975, viria a ser o primeiro Presidente de Angola independente. Hoje, o seu berço, a aldeia de Caxicane, “está esquecida… “, declarou um ancião da localidade.

Na via de terra batida, o capim alto e o trilho irregular denunciavam o que poderíamos encontrar na originária aldeia de Caxicane. A precariedade da vida dos habitantes da terra onde foi enterrado o cordão umbilical de António Agostinho Neto superou as nossas expectativas pela negativa. Escrever que falta de tudo parece já corriqueiro, melhor será descrever.

A aldeia de Caxicane, localizada no município de Icolo e Bengo, na província de Luanda, não tem água potável, nem luz eléctrica. A escola primária foi transformada em residência. O posto médico e a loja do povo deixaram de servir à comunidade. A falta destes serviços obriga os aldeões a caminhadas de 8 Km até Banza Bombo, a nova aldeia de Caxicane.

As modestas infraestruturas, agora desactivadas, foram erguidas em 1977 por orientação de “Man Guxi” depois de ter visitado a terra natal. Está igualmente encerrado o templo Metodista denominado Reverendo Agostinho Pedro Neto, em homenagem ao pai de António Agostinho Neto, o primeiro missionário nativo.

A escassos metros da primeira e única igreja Metodista construída na aldeia, dois marcos indicam que António Agostinho Neto nasceu em Caxicane a 17 de Setembro de 1922. À beira do rio, num ponto mais alto e que cria um desnível na margem quase plana, dois aldeões que nos acompanham indicam-nos o local onde foi construída a residência da família Neto. Ambos procuram junto de um cajueiro, no meio da vegetação cerrada, algum resto de alicerce da casa em pau-a-pique. Mas, sem sucesso. A água tudo levou?

Aldeões a sua sorte

A esperança de dias melhores esvai-se. “Caxicane está esquecida. Acho que o Governo se esqueceu de nós…” desabafou António Paulo Van- Dúnem, nascido e criado ali. O ancião queixou-se da fome que assola a povoação, apesar das águas do rio Kwanza banharem a aldeia e lhes servir para beber, pescar e regar as lavras, isto quando as cheias não destroem todas as culturas, deixando-lhes mais pobres.

“ Quando o rio Kwanza enche, nós sofremos. Fugimos lá para cima. Fazemos reclamações na administração municipal, mas nunca tivemos apoio. Não podemos chegar à administração provincial sem passar pela municipal. Não sabemos se o que se passa com essa população chega a quem de direito”, reclama António Van- Dúnem.

A descrença é amenizada todos os anos em Setembro. No mês de nascimento e morte do homem que foi consagrado Herói Nacional. Em Caxicane, todos já conhecem o programa oficial de actividades. Antes de começar a romaria, a administração do Distrito Urbano de Catete manda terraplanar a via que dá acesso à aldeia. A seguir chegam vários visitantes e são feitas inúmeras promessas.

“As comissões só aparecem em Setembro. Quando vêm elementos governamentais prometem muitas coisas. Nós reclamamos, falamos das nossas dificuldades… As nossas mães morreram antes do tempo por causa da fome. Só temos as lavras, não temos outro trabalho nem dinheiro. É difícil comprar sementes… Não temos nada. Estamos abandonados…”, diz o camponês António Van-Dúnem.

Luís Candombala era um pioneiro de 9 anos quando Agostinho Neto o cumprimentou com um aperto de mão. Porém, Caxicane já tinha problemas com o acesso. Hoje, aos 57 anos, pede às autoridades somente a terraplanagem da única estrada da aldeia e transportes para a comunidade. “ Temos muitas dificuldades. O que nós gostaríamos é que a administração municipal ou central reparasse a estrada, porque temos problemas para escoar os produtos…

Quando chove tudo apodrece. Andar de Kupapata ou de tractor é caro. Para irmos ao hospital, em Banza Bombo, temos de pagar dois mil Kwanzas para ir e vir. O Governo já não se importa com Caxicane, mas, pelo menos, que reabilite esta estrada…”. Candombala recorda que o último trabalho “ bem feito” naquele acesso foi sob orientação do Presidente Neto.

“Ele mandou entulhar bem a estrada e, durante anos, chovia mas não inundava. Actualmente, os tractores que vêm para aqui só cavam… daqui há dias estarão aqui para fazer o truque deles… trazem uns sacos de arroz e como o povo é esfomeado recebe e bate palmas…”, critica.

A falta de emprego em Caxicane obrigou grande parte dos jovens a sair em busca de melhores condições de vida. O lugar é quase desabitado. As casas de construção precária e o semblante dos moradores carregado de tristeza tornam o local pouco aprazível. Nem o rio e o verde da vegetação conseguem tornar acolhedora a terra de António Agostinho Neto.

Félix Agostinho de Carvalho, coordenador adjunto de Caxicane, é mais um jovem à procura de um rumo. A profissão de electricista de nada lhe vale. A saída tem sido fazer biscates noutras zonas de Luanda. Da margem do rio Kwanza que banha a aldeia, Félix mostra-nos uma localidade que fica à distância considerável. Foi para ali que os jovens se concentraram para trabalhar na pesca fluvial, saída para a sobrevivência. Aos fins de semana regressam à casa levando para as suas famílias alguns mantimentos e dinheiro.

Caminhar, caminhar…

Faça sol ou chuva, na antiga aldeia de Caxicane homens, mulheres e crianças, mesmo sem serem contratados ou formarem longas filas de carregadores, caminham longas distâncias ao longo da estrada. Vezes sim, vezes não, talvez a cantar, levam grandes pesos no dorso ou na cabeça. Caminhar é o meio de locomoção sem custo monetário. Outras consequências avaliam-se depois…

A pandemia da Covid-19 terá aliviado o sofrimento das crianças que em tempo de aulas caminhavam 16 Km, isto é, da antiga à nova aldeia e vice-versa. Os adultos, independentemente da idade e do sexo, percorrem a mesma distância para suprir quase todas as necessidades. Afinal, nem só dos produtos do campo vive aquela comunidade.

Andando por caminhos tortuosos na estrada e na vida os conterrâneos de António Agostinho Neto esperam com os olhos secos pela chegada do desenvolvimento. Que a mensagem escrita na lápide onde está o busto do primeiro Presidente de Angola se concretize e Caxicane, em homenagem ao político, médico e poeta, venha a tornar-se “Sítio de interesse histórico e cultural.

Nova aldeia de Caxicane

de Caxicane foi projectada para albergar em condições dignas os moradores daquela zona. Garantem os aldeões que testemunharam, em duas ocasiões, o lançamento da primeira pedra que a construção seria na aldeia antiga e que devia marcar uma transformação da terra de António Agostinho Neto.

Desconhecendo as razões que levaram à troca de planos, foram surpreendidos com a construção de novas casas na localidade de Banza Bombo. Em 2012 os habitantes da velha aldeia viram as 300 residências do tipo T3 ocupadas por pessoas de oito bairros.

“Aqui na nossa aldeia tiraram só 46 pessoas. Estamos à espera de outras casas para as 76 famílias que agora têm mais elementos, porque os mais novos cresceram. Vamos precisar de mais casas”, antevê Félix Agostinho de Carvalho, coordenador adjunto da antiga aldeia de Caxicane, no Distrito Urbano de Catete. Até agora os moradores da antiga Caxicane não entendem por que razão a maioria deles ficou de fora do processo de realojamento. “As pessoas que estavam no comando do processo escolheram outras famílias…”, conclui Félix.

Ainda assim, ele e outros jovens acreditaram que os terrenos que sobraram pudessem beneficiá-los. “Os terrenos atrás das casas novas estão a ser vendidos para fazer currais… Já escrevemos para a administração do município, mas não nos chamam para saber se é verdade ou mentira o que escrevemos”, disse o coordenador adjunto da antiga aldeia de Caxicane.

Não obstante as contrariedades, facilmente se percebe que a vida de quem foi para a Nova Caxicane melhorou consideravelmente. Deixaram de se preocupar com as enchentes do rio Kwanza, têm água canalizada e luz eléctrica. A escola, o centro de saúde e os outros poucos serviços estão a poucos metros das casas. Embora nem tudo funcione cabalmente.

Antiga Caxicane património e geminação

A antiga aldeia de Caxicane poderá tornar-se património cultural pela referência histórica ligada ao primeiro Presidente de Angola, Agostinho Neto.

À intenção de conversão da aldeia de Caxicane a sítio de interesse histórico e cultural foi acrescentada a possibilidade de geminação com a vila de Montealegre, na região portuguesa de Trás-os-Montes.

Em 2019, a Presidente da Fundação António Agostinho Neto (FAAN), Maria Eugénia Neto, anunciou o facto e deu garantias de que diligências estavam a ser feitas entre as autoridades das duas localidades. A cooperação tinha como objectivo beneficiar as comunidades nos sectores económico, cultural, social e desportivo. A população da aldeia de Caxicane, município de Icolo e Bengo, em Luanda, dedica-se à agricultura de subsistência e à pesca fluvial.

Percurso do Herói Nacional

António Agostinho Neto nasceu a 17 de Setembro de 1922 na aldeia de Caxicane, Icolo e Bengo. Filho de Agostinho Pedro Neto, professor e reverendo Metodista, e de Maria da Silva Neto, professora. Muito cedo mudou-se para Luanda onde fez os seus estudos, ao mesmo tempo que desenvolvia política.

Depois de concluir os estudos secundários, no Liceu Salvador Correia, em 1944, foi a Coimbra estudar medicina e posteriormente transferiu-se para faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Fez-se médico, político e poeta. Exerceu medicina em Cabo-Verde e Angola, Luanda, onde instalou um consultório.

Devido as actividades políticas foi preso pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado ( PIDE), passando por cadeias em Luanda, Algarve e Cabo-Verde, cadeia de Ponta do Sol e depois para o Tarrafal. Em 1963, depois de solto, foge de Portugal para Angola para se juntar a outros combatentes no actual Congo Democrático, tomando o comando do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).

Em 1975, Agostinho Neto voltou ao país com uma comitiva de guerrilheiros e foi empossado Presidente da República Popular de Angola. Governou até a data da sua morte, 10 de Setembro de 1979, em Moscovo, União Soviética. O primeiro Presidente da Angola independente, além da sua dimensão política, deixou um rico acervo literário e muitos outros pensamentos que o imortalizam.

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FonteJA
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